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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

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Eleições

Eleitor rejeita antipolítica, apoia moderados e impõe derrota a Bolsonaro

Marcelo de Moraes

Na primeira eleição realizada depois da vitória de Jair Bolsonaro e da onda que varreu a política tradicional em 2018, os eleitores voltaram às urnas para mandar um importante recado nas maiores cidades do País. Rejeitaram a antipolítica de dois anos atrás, escolhendo candidatos mais tradicionais – a maioria com perfil e discurso moderados – e esnobaram, em grande parte, os candidatos apoiados pelo presidente.

Na maioria das capitais, os candidatos de partidos que integram o chamado Centrão levaram a melhor, garantindo sete prefeituras já no primeiro turno, e protagonizando a maior parte das disputas que acontecerão no segundo turno. Provam com isso que continuarão a se manter se como a principal força política do País por um bom tempo. Ainda que espalhados em muitas legendas, o Centrão deverá dar as cartas nas maiores cidades brasileiras.

Na eleição deste ano, Bolsonaro não tem o que comemorar. Poderia ter ficado neutro sem se comprometer politicamente – afinal, nem partido tem. Mas passou a atuar fortemente para tentar emplacar políticos alinhados ao seu discurso em cidades estratégicas para a eleição de 2022. Só não dá para dizer que todos os planos deram errado porque dois de seus aliados ainda conseguiram chegar ao segundo turno. Mas, em São Paulo, o investimento feito em Celso Russomanno se transformou num retumbante fiasco.

Depois de se associar ao presidente, o candidato do Republicanos passou a derreter nas pesquisas e despencou da primeira para uma melancólica quarta colocação, quase perdendo a posição para o deputado Arthur do Val, o Mamãe Falei. Pior para Bolsonaro, o eleitor de São Paulo garantiu a primeira colocação para o tucano Bruno Covas, aliado do seu principal antagonista, o governador paulista João Dória, que, claro, posou ao lado do prefeito para faturar também com a vitória. E a capital paulista ainda fortaleceu a esquerda local, com o surpreendente segundo lugar de Guilherme Boulos (PSOL).

Em Recife, Bolsonaro quis evitar que a disputa se polarizasse entre dois candidatos de esquerda e apoiou a Delegada Patrícia Domingos (Podemos). Foi outra que viu seus votos encolherem a partir desse apoio. E a aliança ainda enfraqueceu a campanha de Mendonça Filho (DEM), que tinha chances de ameaçar os finalistas João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT).

Consolação  

O presidente escapou do desastre total porque o prefeito Marcelo Crivella chegou ao segundo turno no Rio, embora muito atrás de Eduardo Paes (DEM), e o Capitão Wagner (PROS) também tenha garantindo sua vaga em Fortaleza. Mas terminou atrás de José Sarto (PDT), candidato dos Ferreira Gomes. A cereja azeda nesse bolo de frustrações políticas foi a queda no total de votos de Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Carlos se reelegeu com 71 mil votos, mas perdeu 36 mil votos em relação à eleição passada, apesar de toda a sua exposição pública. Além disso, perdeu também o posto de mais votado entre os cariocas, sendo superado por Tarcísio Motta, do PSOL.

Bolsonaro, claro, produziu suas explicações para tentar minimizar a derrota. “Há 4 anos, Geraldo Alkmin elegeu João Dória prefeito de São Paulo no primeiro turno. Dois anos depois, Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial”, disse, tentando mostrar que a eleição municipal teria pouco impacto sobre a sucessão nacional.

“Minha ajuda a alguns poucos candidatos a prefeito resumiu-se a quatro lives num total de 3 horas”, alegou, embora tenha se movimentado e acionado aliados intensamente em São Paulo, Rio e Recife, principalmente.

E tentou mostrar que o movimento de 2018 ainda segue assombrando os adversários, falando sobre a derrota da esquerda e tentando se associar aos bons resultados do centro, que não dependeram em nada de sua ajuda. “A esquerda sofreu uma histórica derrota nessas eleições, numa clara sinalização de que a onda conservadora chegou em 2018 para ficar”, disse.

Os recados para Bolsonaro também foram enviados. Bruno Covas mandou sua mensagem: “A experiência e a esperança venceram os radicais no primeiro turno”. “São Paulo não quis uma revanche de 2018 ou antecipar o pleito de 2022. São Paulo quer um prefeito. Não quer ninguém que seja anti, totalitarista ou radical. Político precisa ter lado e o nosso é o da tolerância e de respeito a valores democráticos”, disse. E arrematou: “Bolsonaro é um dos grandes perdedores nesta eleição de primeiro turno”.

PSOL se fortalece na esquerda

Se o PT voltou a ter um resultado muito fraco, chegando ao segundo turno apenas em duas capitais, o PSOL acabou vendo se confirmar a que talvez seja a maior surpresa das disputa: Guilherme Boulos confirmou seu crescimento na reta final e superou adversários mais experientes como o ex-governador Márcio França (PSB) e Russomanno.

Mas a esquerda só garantiu, até agora, que conquistará a prefeitura de Recife, numa batalha de primos no segundo turno, reunindo João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT). Apesar do parentesco, os netos de Miguel Arraes devem ter um embate duríssimo, mas que não esconde que a esquerda teve apenas bons resultados pontuais. E o PT segue sem conseguir apagar a onda antipetista que o afetou já na campanha se 2016.


Foto: Daniel Teixeira/Estadão
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Candidatos tradicionais, como o prefeito Bruno Covas, se saíram melhor no primeiro turno
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Fragmentação política aumenta e 17 partidos podem eleger prefeitos de capitais

As eleições municipais mostraram que o fenômeno da fragmentação do poder político se espalhou ainda mais pelas capitais do País. Nada menos do que 17 partidos diferentes poderão eleger prefeitos nas capitais brasileiras. Esse é o número de legendas cujos representantes já venceram no primeiro turno ou disputarão o segundo turno. Em 2016, a fragmentação já tinha dado as caras com muita força, com 14 siglas diferentes fincando sua bandeira em alguma capital.

Embora ampla, essa divisão das capitais mostra alguns claros vencedores e outros derrotados. No primeiro turno, três partidos do Centrão já ficaram com sete capitais. O DEM venceu em praças importantes, como Salvador, Curitiba e Florianópolis. O PSD levou Belo Horizonte e Campo Grande. Já o PSDB ficou com Natal e Palmas.

Quando as disputas do segundo turno entram na conta, os partidos do Centro seguem indo bem. O DEM pode levar o Rio. O PSDB tenta garantir São Paulo, Teresina e Porto Velho. O PSD briga por Goiânia. Mas nenhuma outra legenda tem tantas chances no segundo turno quando o MDB que disputará em sete capitais: Boa Vista, Cuiabá, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Porto Alegre e Teresina.

Já os partidos de esquerda vão participar da disputa em dez capitais. O PSB se estava com três: Maceió, Recife e Rio Branco. O PDT está em duas, com Aracaju e Fortaleza. O PSOL surpreendeu chegando em São Paulo e Belém. O PT voltou a decepcionar, aparecendo apenas em Recife e Vitória. Já o PCdoB disputa em Porto Alegre. Um resultado modesto, especialmente para o PT que terminou em segundo lugar nas duas capitais em que vai tentar ganhar no segundo turno.

O bolsonarismo também termina o domingo com poucos representantes na disputa. Com o Republicanos, chega no segundo turno no Rio de Janeiro, São Luís e Vitória. Tem ainda a presença do PROS em Fortaleza e do Patriotas em Belém. E, mesmo assim, a maioria não é favorita nessas disputas. /M.M.

A divisão do bolo das capitais

Já eleitos

DEM – 3
PSDB – 2
PSD 2

Em disputa

MDB – 7
Podemos – 3
PSDB – 3
PP – 3
PSB – 3
Republicanos – 3
PDT – 2
Psol – 2
PT – 2
Cidadania – 1
Patriotas – 1
Solidariedade – 1
PROS – 1
PSD – 1
Avante – 1
PCdoB – 1
DEM – 1

*Macapá vai realizar eleições no dia 13 de novembro.

Fundo eleitoral garante segundo turno para principais candidatos

Fechadas as urnas no primeiro turno das eleições, é possível perceber uma variedade de candidatos que irão disputar o segundo turno nas principais capitais do País. Mas há uma semelhança entre todos eles: a importância do fundo eleitoral para o financiamento de suas candidaturas até o momento vitoriosas. Dados do Tribunal Superior Eleitoral entre os postulantes ao pleito nos principais colégios eleitorais do País mostram o recurso público como essencial.

Pega-se como grande exemplo a cidade de São Paulo, a maior do País onde os dois candidatos que irão concorrer pelos próximos 15 dias tiveram o fundão eleitoral como principal fonte de financiamento. O atual prefeito Bruno Covas (PSDB) recebeu cerca de R$ 8,76 milhões do PSDB e mais alguns milhões de outros partidos da coligação, como o Podemos, que doou cerca de R$ 2,15 milhões, o MDB, que forneceu R$ 700 mil e o PP, que doou cerca de R$ 467 milhões.

Já Guilherme Boulos (PSOL) abocanhou R$ 2.72 milhões do fundo eleitoral. Na cidade, o candidato só perdeu para Covas e Jilmar Tatto (PT), que disputou com o partido que teve a maior fatia do fundo no País nesta eleição. Para efeito de comparação, o psolista teve R$ 1,02 milhão de recursos privados recebidos pela sua campanha.

Esse cenário se repete pelo País, com o fundo eleitoral tendo distribuído cerca de R$ 2 bilhões entre as 33 legendas que competiram na eleição municipais deste ano. O DEM, partido com perspectiva de crescimento em relação às prefeituras, recebeu R$ 120 milhões. E destinou R$ 6,23 milhões apenas para Eduardo Paes, que ficou em 1º lugar no primeiro turno na cidade do Rio de Janeiro. O PL, que apoia Paes na disputa, deu R$ 200 mil. E os recursos privados minguaram na bolsa da campanha do ex-prefeito carioca. 

Seu adversário, o atual prefeito da cidade Marcelo Crivella  teve a campanha majoritariamente financiada com recurso do fundo eleitoral. Com cerca de R$ 2,04 milhões do fundo, no entanto, ficou atrás de Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) na “modalidade”. Ambas tiveram mais de R$ 4 milhões de recurso público na campanha.

O PT foi a sigla que mais recebeu recursos do fundo eleitoral, com cerca de R$ 201 milhões. R$ 2,181 milhões desse montante foram para campanha de Marília Arraes em Recife, esperança da sigla para conquista de uma grande capital. Ela ainda recebeu R$ 200 mil do diretório estadual do PT em Pernambuco e R$ 129 mil do diretório do PSOL no Estado, aliado na disputa. Seu adversário, João Campos (PSB), teve uma fatia bem mais considerável destinada pelo seu partido. Foram R$ 7,5 milhões reservados pelo fundo eleitoral pelo diretório nacional do PSB.

Nomes estrelados

A predominância de recursos públicos nas campanhas divide espaço com algumas doações de nomes conhecidos em outras cidades. Em especial Porto Alegre. Manuela D’Ávila (PCdoB) recebeu R$ 2,9 milhões do diretório nacional do PCdoB e R$ 977 mil do diretório nacional do PT. Mas recebeu R$ 200 mil do casal Caetano Veloso e Paula Lavigne, apoiadores de primeira hora de sua campanha.

Seu adversário no segundo turno será Sebastião Melo (MDB). Ele teve valores mais modestos advindos de seu partido. “Apenas” R$ 720 mil do diretório nacional e R$ 202 mil do estadual. Mas recebeu doações de R$ 40 mil do empresário José Isaac Peres, fundador e acionista da Multiplan e conhecido como “pai dos shoppings centers de luxo”, e do presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado (Sinduscon/RS), Ricardo Antunes Sessegolo.

Em Fortaleza, o candidato Capitão Wagner (PROS) foi uma exceção. O diretório nacional de seu partido não é seu principal doador de campanha. Esse posto é do senador Eduardo Girão (Podemos), que doou R$ 1,2 milhão. O diretório do PROS contribuiu com R$ 1 milhão, e o do Podemos, aliado na disputa, com R$ R$ 410 mil.

Sarto Ferreira, vencedor do primeiro turno na capital cearense, teve R$ 4,5 milhões do fundo eleitoral do PDT. Mas o candidato teve doações significativas de empresários. José Vilmar Ferreira, presidente do grupo Aço Cearense, doou R$ 300 mil. Alexandre Grendene Bartelle, cofundador e presidente da empresa de calçados Grendene, destinou R$ 200 mil. Seu irmão gêmeo, Pedro Grendene, dono da Vulcabras Azaleia, também doou R$ 200 mil./ Roberta Vasallo e Gustavo Zucchi

A volta da polarização

Em São Paulo, Boulos e Covas vão se enfrentar no 2º turno

Guilherme Boulos e Bruno Covas estarão no segundo turno em SP. Foto: Divulgação

Os candidatos à Prefeitura de São Paulo Bruno Covas (PSDB), prefeito da Capital, e Guilherme Boulos (PSOL) vão disputar o segundo turno da eleição municipal em São Paulo. O tucano obteve 1,7 milhão de votos (32,86%) e o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, 1.077 milhão (20,24%). O índice de abstenção foi de 29% com 99,92% dos votos apurados até 00h40 de hoje.

Em seu pronunciamento feito na noite de domingo, 15, Covas afirmou que vencerá o “radicalismo”, enquanto Boulos disse que “radicalismo para mim é quem revira o lixo para comer”. Sua vitória, declarou o psolista, é “histórica” por ter “vencido Bolsonaro”, em alusão à derrota do candidato bolsonarista Celso Russomanno (Republicanos), e seu “projeto de ódio”, faltando agora vencer no segundo turno João Doria (PSDB), uma vez que, para ele, é o governador quem manda na Capital.

Em sua fala, Covas afirmou que não basta falar “bonito” ou sonhar, mas é preciso ter experiência e foco na gestão de uma cidade complexa como São Paulo em clara provocação a Boulos. Para ele, a Capital não pretende votar num “radical”. “A esperança venceu os radicais no primeiro turno e a esperança vai vencer os radicais no segundo turno”, disse.

Boulos contestou o rótulo. “Eu vi o Covas falar de radicalismo. Radicalismo, para mim, é gente virar lixo para poder comer, é o abandono do povo. Nós queremos e vamos inverter prioridades, tirar a periferia do abandono.”

O psolista aproveitou ainda para citar a questão da pandemia numa referência ao que poderá servir-lhe de artilharia contra o tucano, especialmente no momento em que a covid-19 ataca o mundo numa segunda onda. “São Paulo é a terceira cidade no mundo com mais mortes por coronavírus, mas tem hospitais fechados. A periferia está abandonada pelo PSDB. Eu não apareço na periferia de quatro em quatro anos para fazer promessas. As pessoas aqui não são estatísticas, são gente”.

Já o terceiro colocado, Márcio França (PSB), obteve 726 mil votos (13,65%) e, o candidato bolsonarista, Celso Russomanno (Republicanos), 558.905.

Logo após o anúncio do resultado, Jilmar Tatto (PT), que terminou a disputa atrás de Arthur do Val (Patriota), com 460.525 votos (8,65%), anunciou apoio a Boulos, a quem voltou a se referir na noite de ontem como “irmão mais novo”. O candidato conhecido como Mamãe Falei recebeu 521.871 votos (9,78%). Outro petista a declarar apoio no líder do MTST foi o ex-prefeito Fernando Haddad. / Alexandra Martins

PT repete baixo desempenho de 2016 e vê PSDB ocupar espaço no ABC Paulista

Chapa petista em Diadema, José Filipe e a vice Patty Ferreira. Foto: Kelly Fersan

Repetindo a performance ruim que teve em 2016, quando foi varrido do Grande ABC Paulista, resultado em primeiro turno das eleições municipais de 2020 mostra que o PT não conseguiu arrumar a casa nos últimos quatro anos. Enquanto isso, o PSDB parece ter fincado raízes na região.

Em entrevista ao BRPolítico na última sexta-feira, 13, a dupla de prefeitos tucanos reeleitos em Santo André e São Bernardo do Campo afirma que mais do que o nome do partido, foi a avaliação positiva das gestões psdebistas que garantiu o bom desempenho repetido neste pleito.

“Acredito que sim (que o PSDB está ocupando um papel que foi do PT), mas no caso e Santo André, a população sempre reconheceu muito mais a figura do prefeito, a gestão propriamente dita do que a questão partidária”, diz Paulo Serra. Ele obteve 76,85% dos votos.

Orlando Morando, que foi reeleito com 67,28% dos votos diz que é “inegável” que PT perdeu espaço na região e cita o desempenho dos prefeitos tucanos na crise da covid-19 como um fator de peso neste pleito.

“Acho que o prefeito que governou bem cada cidade, principalmente neste período de pandemia, as pessoas estão respeitando este papel e identificando como um bom gestor”, aponta.

Sobre o papel de Lula como cabo eleitoral no ABC, os prefeitos seguem a mesma linha e dizem que o petista não tem mais a mesma força de anos atrás.

“Lula perdeu o poder e não tem mais capacidade de influenciar nas eleições como tinha antes. Disso eu não tenho a menor dúvida”, sublinha Morando.

Partido apostou em velhos conhecidos

Para tentar reconstruir o chamado cinturão vermelho que tinha no ABC até 2016, o PT apostou em velhos conhecidos do eleitorado. A estratégia foi bem sucedida apenas em Diadema, onde o partido disputará o segundo turno.

Na cidade, a primeira em que o PT conquistou uma prefeitura, ainda em 1982, José de Fillipi Junior, que já governou o município por três mandatos, conquistou 45,64% e disputará contra Taka Yamauchi (PSD), que obteve 15,42%.

Tesoureiro do partido nas campanhas de Lula, em 2006, e de Dilma Rousseff, em 2010 José Filipi já foi alvo de busca e apreensão na Operação Lava Jato em 2016, mas nunca chegou a ser formalmente acusado.

Ele avalia que o partido ainda tem muitos líderes na região e nega que haja uma dificuldade em retomar o poder do berço político.

“Essa eleição é diferente para todo mundo por causa da pandemia. Primeiro, passamos por uma pré-campanha mais longa e basicamente virtual. Segundo porque os candidatos que estão tentando reeleição tiveram uma projeção muito maior devido ao protagonismo dos prefeitos no combate à covid-19. Sendo assim, não vejo que o PT esteja com dificuldade para recuperar prefeituras aqui na região do ABCD”, diz.

Em São Bernardo do Campo, cidade onde mora o ex-presidente Lula, o PT também apostou em um veterano: Luiz Marinho, que foi prefeito da cidade de 2009 a 2016. Ele terminou a disputa com 23,34% dos votos, na segunda posição, com quase um terço dos votos conquistados por Morando.

PSOL como alternativa à esquerda?

Em Santo André, o terceiro colocado na disputa foi o candidato do PSOL, Bruno Daniel, irmão do ex-prefeito petista Celso Daniel, morto em 2002. Ele ficou atrás, por pouco mais de 600 votos, da candidata petista Bete Siraque, que conquistou 7,38%.

Ao BRP, antes de o fim da contagem dos votos, Bruno disse que ainda era necessário aguardar a análise do desempenho na disputa. “Mas tudo leva a crer que nos tornaremos uma alternativa viável para aqueles que desejam uma cidade que promova o desenvolvimento inclusivo e socioambiental, a redução das desigualdades e o aprimoramento da democracia representativa eleitoral e da democracia participativa”, disse.

São Caetano

Como se fosse uma ilha isolada, até onde o PT não consegue nadar, São Caetano do Sul segue sendo resistência ao partido. Por lá, o candidato do partido, João Moraes ficou na sexta posição, com 1,81%. José Auricchio Júnior (PSDB), que está com a candidatura judicializada, teve 45,28% e vai ao segundo turno com Fabio Palacio (PSD), que teve 32,13%./ Cássia Miranda

Nas redes, o risco de nacionalização das disputas municipais

Não se trata de um fenômeno exclusivo do segundo turno. Desde o início da campanha, influenciadores de todo tipo usam as redes sociais para a indicação de votos mesmo nos municípios mais distantes do próprio domicílio eleitoral. É comum que a mensagem traga uma lista de candidatos endossados por uma alguma afinidade ideológica. Por vezes, prega-se também um boicote a um adversário comum, na esperança de que o eleitor respeite as vontades do ídolo que reside além da fronteira municipal.

Exemplos recentes, no entanto, evidenciam que as redes sociais intensificam a prática na etapa final, convertendo a eleição do município em uma batalha de interesse nacional. O que, claro, está longe de atender aos interesse locais, ainda que consiga entreter as torcidas organizadas que consomem política como se futebol fosse. Mas que também pode adiantar cenas dos próximos capítulos.

Em 2012, a derrota de José Serra para Fernando Haddad em São Paulo serviu, na prática, para definir Aécio Neves como o adversário do PT na corrida presidencial de 2014. Nas redes sociais, a imagem do hoje senador era a todo tempo ridicularizada pela base petista, seja por registros fotográficos constrangedores, ou mesmo pelo resgate de vídeos descontextualizados de campanhas anteriores — que ganhavam toda uma conotação negativa, ainda que bem humorada.

Em 2016, com João Doria eleito em primeiro turno, a batalha final se deu no Rio de Janeiro entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo. E mais uma vez parecia antecipar a corrida presidencial que se desenrolaria dois anos depois. Afinal, de um lado, havia o representante de uma esquerda que já sentia a necessidade de se renovar; e, do outro, um representante de direita que falava principalmente ao eleitorado evangélico. E já com apoio da base bolsonarista, que fazia barulho nas redes em benefício da chapa de Flávio Bolsonaro, e naturalmente se decidiu pela derrota do candidato do PSOL no segundo turno.

Passados quatro anos, Bolsonaro é, para o bem ou para o mal, a força onipresente em toda a eleição. Durante o período oficial de campanha nas redes, foram impulsionados por volta de 8,4 mil anúncios com citação ao sobrenome no Facebook e Instagram. Mesmo durante a votação desse domingo, ainda havia 160 peças ativas. Mas a imagem do clã presidencial era explorada tanto para pedir voto de quem o apoia, como para o de quem o rejeita.

De tal forma que a eleição deste ano é lida em ambiente virtual como um teste de fogo para o Governo Federal. Tanto que, no último final de semana, a polarização voltou a dar o tom, com a esquerda empenhada em conquistar votos pela eliminação das opções mais à direita, e vice-versa. O que rende engajamento, seguidores e até voto. Mas parece a todo tempo ignorar as reais necessidades dos mais de 5 mil municípios brasileiros. /Marlos Ápyus

Era Biden: relação Brasil-EUA deve esfriar, mas crise é improvável

​​Dadas as evidências de que Joe Biden venceria a disputa, às vésperas da eleição americana houve manifestações importantes — como a do ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Ricupero — no sentido de que a nossa relação com os Estados Unidos teria de ser “reconstruída a partir do zero”. Não terá. Longe disso.

Contudo a expectativa do Itamaraty é realista: “alguma coisa virá, resta saber a intensidade”, opinou uma fonte com a qual conversei sob condição de anonimato, ao ser perguntada se esperava represálias dos americanos com o fim da era Trump.

São dois os calos que não devem demorar a apertar já a partir de 20 de janeiro, quando Biden assumirá a Casa Branca: a política ambiental do governo Jair Bolsonaro e o leilão da tecnologia 5G. Ambas são inescapáveis, porém de naturezas distintas.

Brasília entre Washington e Pequim na disputa pelo 5G

​O interesse dos Estados Unidos na penetração da Huawei é estratégico, envolve segurança nacional. Trata-se de uma pauta que independe do viés ideológico da próxima gestão americana. Tanto para democratas quanto para republicanos, a gigante chinesa representa um risco, uma vez que em tese, dada a natureza do regime de Xi Jinping, o próprio governo chinês teria acesso a dados delicados. Daí vem o temor com questões que abrangem propriedade intelectual e até crimes cibernéticos.

Nesse contexto, o governo brasileiro decidiu anunciar na última terça-feira, 10, seu apoio à Clean Network (Rede Limpa, em tradução livre), iniciativa americana com o intuito de estipular protocolos para o uso do 5G — na prática, mirando em empresas chinesas como a ZTE e a própria Huawei.

​Em tese, a posição brasileira é confortável. O governo poderia jogar com os interesses de ambas as potências para conseguir vantagem em acordos bilaterais, no caso dos chineses; e reforçar seu lobby com os americanos para entrar na OCDE. Entretanto as circunstâncias não permitem imaginar uma saída sem traumas.

Em julho deste ano, Todd Chapman, embaixador dos EUA, foi categórico: “Haverá consequências se o Brasil permitir que a Huawei forneça equipamentos para o 5G no país”.

Por sua vez, os chineses, que observavam tudo em condição privilegiada — afinal, são o nosso maior parceiro comercial —, começam a organizar uma contraofensiva: a Huawei já teria contratado um escritório de advocacia para impedir que tenha sua ação no país restringida.

O temor de que o imbróglio se intensifique se justifica. Na última quarta-feira, 11, a Suécia suspendeu o seu leilão após a Huawei ter conseguido uma liminar suspendendo entraves para sua participação. Aqui, como lá — e ao contrário dos Estados Unidos —, não está prevista na Constituição a possibilidade de restringir a participação de empresas estrangeiras, em qualquer área, sob o argumento de segurança nacional.

Dados concretos no combate ao desmatamento; diplomacia sob os

holofotes

​Quanto ao debate envolvendo o meio ambiente, Joe Biden tem duplo interesse em constranger Brasília a mudar seu discurso, sobremaneira suas ações. O primeiro é a convicção pessoal. O futuro presidente americano, de fato, se interessa pelo tema. Inclusive citou o Brasil, quando do último debate presidencial, alardeando que “a floresta tropical do Brasil está sendo destruída”. O segundo seria para agradar a ala mais à esquerda do Partido Democrata.

Não por acaso, já há notícias de que, em sua administração, haveria o interesse de tachar como “criminosos ambientais” países que publicamente não se comprometam com as resoluções do Acordo de Paris — tratado internacional que dentre outras coisas, rege as emissões de carbono em atenção à mudança climática. A administração Trump retirou os EUA, mas que a equipe de transição de Biden já garantiu a reentrada do país.

Consultores de think thanks na capital americana não estão otimistas quanto à capacidade da diplomacia brasileira, sob o comando do chanceler Ernesto Araújo, de desmantelar a imagem que o Brasil construiu ao longo desses quase dois anos de governo Jair Bolsonaro.

Há também o peso do estrago feito até aqu pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, nas políticas de contenção para evitar queimadas e o desmatamento no Brasil.
​Nesse sentido, não são incomuns as conjecturas acerca das saídas de ambos do governo. Seria um gesto do presidente da República ao mundo, um sinal de que o país poderia rever sua política.

​A aposta do Itamaraty é de que mudanças de ordem prática, dados que comprovem o comprometimento do Brasil com o controle da devastação de suas florestas podem falar mais do que qualquer sinalização de ordem estrutural ou diplomática.
​A presença de Hamilton Mourão à frente do Conselho Nacional da Amazônia, dizem, seria um início da demonstração desse comprometimento.
​A ver. /Mario Vitor Rodrigues

Agenda

Segunda, 16 DE novembro

  • Banco Central divulga Boletim Focus

Terça, 17 DE novembro

  • Comissão externa da Câmera realiza reunião de acompanhamento dos ensaios clínicos da vacina Coronavac no Brasil

Quarta, 18 DE novembro

  • IBGE divulga Pesquisa Nacional de Saúde
  • STF realiza sessão ordinária, a partir das 14h

Quinta, 19 DE novembro

  • STF realiza sessão extraordinária, a partir das 14h

Expediente:

Edição: Vera Magalhães e Marcelo de Moraes / Reportagem: Alexandra Martins, Cássia Miranda, Gustavo Zucchi, Mario Vitor Rodrigues, Marlos Ápyus e Roberta Vassallo / Design: Daiana Buffuli