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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

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Reformas

Governadores ampliam entendimento e reforma tributária pode avançar

Marcelo de Moraes

Há três décadas, o Congresso tenta aprovar uma reforma tributária expressiva, mas, invariavelmente, esbarrou numa falta de consenso incontornável. Na prática, o maior obstáculo era que, apesar de todos os participantes da discussão concordarem que era preciso dar racionalidade ao sistema tributário nacional, nenhuma parte admitia perder receita. Até porque os mecanismos de compensação oferecidos sempre foram capengas.

Por causa disso, nesse debate, os governadores passaram a adotar uma compreensível postura de pé atrás, sempre desconfiando que suas arrecadações seriam colocadas em risco. Nas últimas semanas, entretanto, esse cenário começou a se modificar.

Existe uma negociação avançada envolvendo os governadores, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o relator da Comissão Mista da Reforma Tributária, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), para produzir um texto que, de fato, estabeleça mecanismos compensatórios para as alterações que deverão ser feitas pelo projeto.

Para impedir as eventuais perdas de alguns Estados por causa da criação de um novo imposto sobre valor agregado, que vai substituir outras tributações existentes, deverão ser apresentadas emendas ao texto da Proposta de Emenda Constitucional 45, apresentada pelo presidente nacional do MDB, deputado Baleia Rossi (SP).

A ideia é que os recursos arrecadados com o novo imposto sejam colocados numa conta única pertencente a todos os Estados durante um período de vinte anos. A divisão desse bolo será feita com base no total de ICMS que cada Estado arrecadará até o período em que esse imposto for trocado pelo novo. Assim, as receitas atuais poderão ser preservadas, enquanto o sistema tributário recém-criado vai sendo assimilado pela economia.

Além disso, com as novas regras propostas termina a chamada guerra fiscal, com Estados oferecendo vantagens tributárias muitas vezes descabidas para empresas se instalarem em seus territórios. Se a reforma for aprovada, isso acaba.

O maior sinal político de que essa negociação poderá prosperar é que ela tem sido apoiada pelo secretário de Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles. No folclore já formado em torno das seguidas tentativas fracassadas de votar a reforma tributária, uma das mais certeiras é que se São Paulo, Estado mais poderoso do Brasil, não concordar com a proposta, ela está liquidada. Dessa vez, pelo menos até agora, São Paulo está se mantendo alinhado à discussão central.

Em entrevista ao BRPolítico, Rodrigo Maia afirmou que as negociações em torno da reforma estão caminhando e prometeu que a PEC será votada ainda no primeiro semestre na Câmara. Mesmo com o governo ainda alimentando um desejo de propor a criação de um novo imposto nos moldes da CPMF, que os principais líderes do Congresso descartam abertamente, Maia afirma que a equipe econômica tem sido colaborativa nas discussões sobre a reforma tributária. “Eles têm conversado bastante com a gente. Está tudo indo bem. Eu acredito que a reforma será votada no primeiro trimestre”, prevê.

Obstáculos – Além de ser um tema de discussão complexa, a reforma tributária enfrenta ainda a resistência de parlamentares que gostariam que esse debate fosse feito depois das eleições municipais de outubro. Existe um temor que as mudanças possam ser vistas como prejudiciais para a arrecadação de alguns Estados e municípios e acabem sendo um fator de desgaste nas campanhas.

Apesar disso, Maia tem conversado seguidamente com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), para garantir que a oportunidade de se avançar com a reforma tributária não seja perdida em 2020. A avaliação de ambos é que existe um clima propício para as reformas hoje no Congresso por causa do sucesso na votação da Previdência e que mercado e investidores estão muito atentos a esse movimento.

Existe a percepção de que o Brasil poderá fortalecer sua economia e se tornar mais atraente para investidores se as reformas forem aprovadas o mais rápido possível. Até porque o clima de validade desse clima pró-reformas pode se perder rapidamente, se as propostas empacarem.

E, ao contrário da tributária, a discussão sobre a reforma administrativa enfrenta dificuldades para formatar uma proposta consensual. Como certezas, existem as ideias de que a máquina pública está inchada e precisa mudar para presta melhores serviços e que não há clima político para criar regras que afetem os atuais servidores. Mas o restante ainda precisa de maior articulação política.

Mesmo acreditando que a administrativa também poderá avançar em seus debates, Maia reconhece que ela está num patamar mais atrasado em relação à tributária.


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O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, acredita que “a reforma será votada no primeiro trimestre”. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Debate sobre redução de ICMS sobre combustível fora da pauta dos Estados

Governadores são contra a sugestão do presidente Jair Bolsonaro de reduzir o ICMS para baixar o preço dos combustíveis. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Mesmo com a pressão do governo federal para que os Estados revejam a tributação do ICMS sobre os combustíveis, os secretários da Fazenda não estão dispostos a debater o assunto na próxima reunião do Comitê de Secretários de Fazenda (Comsefaz), que ocorre na terça-feira, 21, em Brasília.

De acordo com o diretor do Comsefaz, André Horta, a pauta da reunião será “exclusivamente federativa”. O principal assunto a ser abordado será o Plano Mais Brasil, que é formado pela PEC do Pacto Federativo, PEC Emergencial e PEC dos Fundos.

Principalmente por conta da situação fiscal apertada dos Estados, mexer em qualquer fonte de arrecadação dos entes federativos apertaria ainda mais a corda. “Em 2019, entre 18% e 20% da arrecadação própria dos Estados com ICMS é com ICMS sobre combustíveis. Há Estados como RJ e PA em que chega a 30%”, aponta Horta.

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro tem insistido na proposta. Recentemente, chegou a dizer que propôs ao ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, estudos sobre cobrar ICMS sobre o valor do combustível na refinaria em vez de incidir o imposto sobre o valor na bomba. O presidente já chegou a dizer que a mudança poderia ser incluída na reforma tributária, em tramitação no Congresso.

Segundo Bolsonaro, a ideia é reduzir o valor do combustível ao consumidor final. “No nosso entendimento, deve incidir (o ICMS) no preço do combustível lá na refinaria e não na bomba no final da linha. Caso contrário, quando há redução na refinaria não diminui na ponta da linha”, afirmou o presidente, na última quinta-feira, 16, após reunião com Albuquerque. A medida, segundo o governo, serviria para evitar uma disparada nos valores dos combustíveis cobrados nos postos em episódios como a crise entre Estados Unidos e Irã.

Ao BRP, o secretário da Fazenda da Bahia, Manoel Vitório, avaliou que uma eventual redução no ICMS não garante que vai haver diminuição nos preços pagos pelo consumidor. “É importante lembrar que o ICMS é apenas um entre muitos componentes do preço final dos combustíveis e sua eventual redução não garante diminuição dos preços ao consumidor, porque o ganho pode ser absorvido por outros agentes da cadeia de produção e comercialização”, disse. /Cássia Miranda

Foco Nisso

Guedes vai a Davos e terá de explicar polêmicas de outras áreas do governo

Guedes vai a Davos com a dupla missão de ‘vender’ o Brasil e apagar a má imagem do País no exterior. Foto: Alan Santos/PR

Paulo Guedes chega a Davos neste início de semana sem Jair Bolsonaro, mas com uma pesada bagagem a carregar. Caberá ao ministro da Economia, que pretendia ir ao Fórum Econômico Mundial para apresentar a reforma da Previdência realizada em 2019 e as próximas reformas que pretende aprovar no Congresso, bem como oferecer os ativos brasileiros incluídos no rol de privatizações, concessões, parcerias e venda para investidores e governantes de outros países.

Mas, na ausência do presidente, que alegou questões de segurança para cancelar a viagem, caberá a Guedes explicar o recorde de desmatamento no primeiro ano de governo, as leis aprovadas ou os projetos em discussão no Congresso que flexibilizam ainda mais as normas de proteção ambiental, e as controvérsias geradas por Bolsonaro e a ala ideológica do governo, com especial atenção do mundo para a última e mais canhestra delas, o vídeo de exaltação dos ideiais e da estética nazista postado em canais oficiais pelo agora ex-secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim.

Auxiliares de Guedes disseram ao BRPolítico na última sexta-feira que o episódio constrangeu sobremaneira o ministro. Ele foi o convidado a proferir a conferência magna da reunião de 2020 da Mont Pelerin Society, da Universidade de Stanford, na Califórnia.

Trata-se de uma sociedade fundada em 1947 em Mont Pelerin, na Suíça, daí seu nome, por economistas, historiadores e filósofos liberais como Friedrich August von Hayek, Ludwig Von Mises e Karl Popper, expoentes da chamada escola austríaca, cuja inspiração Guedes sempre faz questão de ressaltar.

Ela surgiu como reação pós-guerra ao nazismo, de um lado, e ao comunismo, de outro. Um dos seus expoentes é o Nobel de Economia Milton Friedman, nome maior da Universidade de Chicago, onde Guedes estudou.

A amigos, o ministro comentou a contradição de estar sendo homenageado no templo do movimento contra o nacional-socialismo enquanto um integrante do governo “evocava Goebbels”.

O episódio Alvim também desencadeou um debate nos jornais e nas redes sociais a respeito da dicotomia do governo: liberal na economia, mas com viés autoritário em setores centrais, como educação, cultura e política externa. O mercado passou a ser cobrado por “relevar” ameaças à democracia em nome de uma política econômica que atende a seus anseios.

Tudo isso estará posto na viagem do ministro ao maior evento econômico global, e deve turvar um pouco a pretensão maior do ministro e dos secretários que vão acompanhá-lo: vender os projetos da agenda de desestatização, para a qual o governo estima ambiciosos R$ 150 bilhões neste ano.

A presença de Donald Trump em Davos deve fazer com que o foco do encontro seja a trégua da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que também tem reflexos para o Brasil, sobretudo para as negociações da implantação da tecnologia 5G de telefonia celular e para o agronegócio, e os conflitos do País com o Irã, que tem reflexos por todo o Oriente Médio e também para a Europa.

O Brasil deve aproveitar o recente aceno dos EUA para seu ingresso formal na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para atrair a atenção de investidores.

Na esfera política, dois virtuais opositores de Bolsonaro vão desfilar por Davos e concentrar os holofotes na ausência do presidente brasileiro. O governador de São Paulo, João Doria Jr., tem agenda com investidores semelhante à de Guedes, e vai discursar em dois painéis. O apresentador de TV Luciano Huck, que tem ensaiado os primeiros passos na política, também se aventura na cena internacional, participando de um painel sobre o recrudescimento de protestos na América Latina. / Vera Magalhães

Maioria aprova subsídio a energia solar, mas não à conta de luz de igrejas

A palavra subsídio começou em alta no verão brasileiro de 2020. Jair Bolsonaro aproveitou a ausência de Paulo Guedes do Brasil no início do ano e mandou cancelar estudos do Ministério da Economia e da Aneel para rever incentivos à instalação de painéis de energia fotovoltaica em residência, estabelecidos, vejam só, por Dilma Rousseff.

Na mesma leva, o presidente encomendou ao Ministério de Minas e Energia um estudo para reduzir a tarifa de energia elétrica de igrejas, num aceno à comunidade evangélica, principal defensora da medida, uma vez que os cultos nos templos se dão sobretudo à noite, quando a tarifa é maior.

Guedes, em sua passagem por Brasília antes de ir a Davos, conseguiu convencer o presidente a abolir a segunda ideia, mas teve de aceitar a manutenção do subsídio para a energia solar. O Ideia Big Data foi a campo, a pedido do BRPolítico, para testar a adesão da sociedade às duas propostas. E constatou que a maioria pensa como Bolsonaro na discussão sobre painéis solares, vendida por ele como se a Aneel estivesse propondo “taxar o Sol”.

Questionados sobre a ideia de suspender o incentivo à energia solar, 44% dos 1.523 entrevistados pelo Ideia responderam concordar com o presidente, com o argumento de que é preciso incentivar o uso de energia limpa. Outros 33% foram contrários à manutenção do subsídio, concordando com a afirmação de que ele atinge apenas os mais ricos, mas todos pagam.

Já a ideia de subvencionar a energia de templos religiosos foi mal recebida, antes de ser suspensa. Para 45%, Bolsonaro erraria se estabelecesse esse incentivo, uma vez que as igrejas já recebem muitos subsídios e isenções de tributos. Outros 34% concordaram com o argumento de que o subsídio é justo pelo fato de missas e cultos serem realizados à noite, quando a energia é mais cara.

O único extrato de entrevistados em que a ideia de subsídio a templos teve maioria foi entre os evangélicos: 48% desse universo se disseram favoráveis à proposta, depois descartada pelo governo.

O Ideia também quis saber dos entrevistados o que achavam de, ao propor incentivos, Bolsonaro contrariar as linhas gerais da política econômica de Paulo Guedes. Para 41%, o presidente está certo ao fazê-lo, pois cabe a ele dar o norte da política econômica. Só 32% consideram que o presidente erra ao contrariar seu “posto Ipiranga” nessas questões.

Desafio do PSL é estabelecer raízes regionais em 2020

Dono da segunda maior parcela do fundo eleitoral nas eleições de 2020, o PSL tentará se consolidar como uma das siglas de maior expressividade na política brasileira, segundo dirigentes estaduais do antigo partido do presidente Jair Bolsonaro ouvidos pelo BRP. A fonte de barganha, depois do racha interno e sem a ala bolsonarista, será exatamente a gorda fatia de R$ 202,2 milhões do fundão e os 57 segundos diários de tempo de televisão para conseguir apoio em redutos eleitorais em que não tem expressividade. 

De acordo com cientistas políticos ouvidos pelo BRP, no entanto, o partido tem um difícil caminho pela frente. Os pesquisadores apontam que a rede regional e capilaridade das bases, algo que o PSL ainda não tem, são essenciais para que um partido mantenha a relevância na política nacional. 

“Vamos utilizar a estrutura para poder se consolidar como um partido grande, de referência de direita”, afirmou o deputado federal e presidente do diretório de Minas Gerais, Charlles Evangelista. Segundo o político, o partido tem feito reuniões para selecionar candidatos que concorrerão pela sigla em cidades mineiras. Em São Paulo, o partido tentará lançar candidatos na maioria dos municípios, de acordo com o secretário-geral do diretório no Estado, Abou Anni. “Nosso objetivo é ampliar as bases nas prefeituras”, disse.

Segundo o professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UNB) Arnaldo Mauerberg Junior, partidos como o PSL, que têm crescimento repentino em nível nacional, tendem a se dissolver mais facilmente. Uma situação parecida com o que ocorreu em 2018, segundo ele, foi a do extinto PRN, pelo qual o ex-presidente Fernando Collor foi eleito em 1989. Um ano depois da eleição de Collor, quando ocorreram as eleições proporcionais, o partido antes sem expressividade conseguiu eleger 40 deputados federais. 

“Você teve uma explosão na eleição presidencial, mas não teve o trabalho de base do partido, que é buscar filiados no nível local. É isso que faz um partido sobreviver no Brasil”, afirma Mauerberg. Principalmente por conta o racha entre bolsonaristas e bivaristas, que enfraqueceu a sigla, segundo o pesquisador, o estabelecimento de raízes locais será o que definirá se o partido continuará com importância. 

“É um partido com poucas perspectivas futuras. Os grandes partidos, notadamente o MDB, PT e PSDB, levaram uma pancada muito forte em 2018, mas têm uma capilaridade e força regional muito grandes, raízes sobre as quais conseguem se reerguer”, completa o cientista político.

O perfil do PSL em 2020. O posicionamento do PSL antes de 2018 estava fora dos focos de atenção da política nacional. Na última eleição, quando ganhou as atenções, teve suas pautas definidas pela agenda do presidente Jair Bolsonaro. Em 2020, depois da saída de Bolsonaro da sigla para criar o Aliança pelo Brasil, o PSL poderá se definir descolado do bolsonarismo para a disputa dos pleitos municipais. 

Segundo o deputado Charlles Evangelista (PSL-MG), os candidatos do partido deverão seguir as premissas de “defesa do combate à corrupção, liberalismo econômico e valorização da família”, apesar de poderem adaptar suas agendas às prioridades municipais. “O PSL é uma direita racional, flexível. Não existe radicalismo do nosso lado”, definiu o deputado Abou Anni (PSL-SP).

Entretanto, de acordo com a pesquisadora do Centro de Estudos de Política e Economia do Setor Público da FGV Lara Mesquita, o partido deve seguir apostando em um discurso parecido com o das últimas eleições. “Esse posicionamento trouxe um bom retorno, o PSL não tem nenhum incentivo para se comportar de maneira diferente do que ele se comportou então”, afirma. / Roberta Vassallo

Esquerda tenta diminuir vantagem de Bolsonaro entre os evangélicos

O voto evangélico virou “sonho de consumo” dos políticos no Brasil. Ou em linguagem mais popular, a “última bolacha do pacote”. Os dados mostram que hoje os fiéis da religião representam quase um terço da população brasileira. E, caso o crescimento se mantenha, deverão ser maioria no início da década de 2030. Com isso, a corrida para tentar tirar o segmento de Jair Bolsonaro, político que conquistou a maior adesão do eleitorado religioso na última década e que tenta manter o segmento cativo, tende a ficar mais acirrada.

Só nas últimas semanas, dois partidos de esquerda fizeram movimentos para tentar dialogar com o segmento que devem se intensificar ao longo de 2020: PT e PCdoB. Os petistas foram os que mais sentiram na pele a vantagem de Bolsonaro com os religiosos.  Segundo as pesquisas de intenção de voto feitas na última eleição, os eleitores que declaram acreditar nos princípios evangélicos deram 11 milhões de votos a mais para Bolsonaro. A diferença entre ele e Fernando Haddad foi de cerca de 10,4 milhões de votos. 

Nem sempre foi assim. O PT já contou com apoio de lideranças evangélicas durante seus mandatos. Edir Macedo, da Igreja Universal, esteve ao lado de Lula e manteve-se junto dos governos petistas até às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff. Marcelo Crivella, hoje prefeito do Rio, foi ministro da Pesca em governos petistas. Nomes que hoje circundam meios bolsonaristas, como Magno Malto, Marco Feliciano e Silas Malafaia, fizeram palanque para os petistas na década de 2000.

“O PT tenta conquistar parte do voto evangélico há pelo menos 30 anos. Nunca fez um grande investimento nisso. Mas quando assumiu o governo federal, na eleição de 2002, conseguiu conquistar. E esse apoio se manteve até às vésperas do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff”, contou ao BRP o sociólogo e professor da USP Ricardo Mariano, que estuda as relações entre os evangélicos e a política.

Agora livre, Lula quer intensificar essas conversas. Talvez sonhando com a volta do apoio de algumas lideranças. Ele sinalizou para partidários que uma das estratégias será organizar grupos por todo o País para atrair os votos de fiéis. Lula, inclusive, tem dado constantes declarações no sentido de se aproximar dos evangélicos. Provocou até, dizendo que “ninguém respeitou mais” os cristãos do que ele.  “Eu acho que tem um espaço pra discutir religião nesse país muito grande. Eu quero entrar nessa. Eu tenho até um jeitão de ser pastor, tenho um jeitão, tô de cabelo branco… Eu posso ser pastor ou posso ser padre, é só a igreja acabar com o celibato que eu topo”, disse em entrevista para um canal do Youtube vinculado ao partido.

Mariano lembra que o PT teve um apoio “condicionado” a não aprovação de temas como aborto e casamento homossexual, mas que contribuíram para a governabilidade petista durante os 13 anos de governos da sigla. Do “fim” da parceria para cá, o partido perdeu prefeituras na eleição municipal de 2016 e em 2018 viu cerca de 70% dos evangélicos afirmarem que votariam em Jair Bolsonaro.

Em abril do ano passado, o PT realizou o 1º encontro nacional de evangélicos do partido. Na ocasião, a presidente da sigla, Gleisi Hoffmann, lembrou que o partido nasceu nas discussões das comunidades de base da Igreja Católica e disse que os militantes evangélicos do partido “têm o grande desafio tem conversar com a totalidade do povo evangélico mostrando a verdade”.

“Esse afastamento do eleitorado evangélico tem a ver com a Lava Jato, com a prisão de lideranças petistas, criminalização de algumas de suas principais lideranças, inclusive do Lula. E sobretudo a pecha de corrupção. O PT ficou muito associado nos últimos anos com a corrupção e isso tem um peso enorme para o eleitorado em geral e também para o evangélico, que ainda associa tudo isso com aqueles velhos temores de que o PT é comunista, persegue cristão”, explicou Mariano. “Para um partido de esquerda ser viável ele não pode sofrer esse boicote. Para eleger presidente, governador, prefeitos, ele não pode sofrer o boicote de um eleitorado que pode se transformar em uma maioria.”

Diálogo aberto. No Maranhão, o PCdoB abriu 2020 com a primeira reunião de seu comitê estadual evangélico, tocado pelo presidente da legenda no Estado, o deputado federal Márcio Jerry. Entra na lista de iniciativas capitaneadas principalmente pelo governador do Estado, Flávio Dino, de abrir o leque de conversas com diversas vertentes ideológicas, visando “melhorar o diálogo” para a eleição presidencial de 2022.

“Ajuda a estabelecer uma referência de debate público. Lugar de evangélico não é na extrema direita. Eu particularmente defendo que a identidade que há na fé cristã tem muito mais ligação com o pensamento progressista do que com o reacionário”, disse Jerry.

Apesar do parlamentar afirmar que não é uma iniciativa visando votos,  ele contou que o partido faz um mapeamento para ver possíveis lideranças evangélicas dentro do partido que poderão ser candidatas já nestas eleições. Ele também disse ao BRP que quer expandir a iniciativa. Primeiro para o âmbito nacional do PCdoB, de forma semelhante ao que fez o PT. Segundo, quer levar a discussão para dentro do Congresso Nacional, contrapondo posições políticas com as crenças cristãs.

“Faz todo sentido que abra espaço para conversar com evangélicos não só nos períodos eleitorais. É importante para entender melhor o que está acontecendo no Brasil com esses grupos. Ouvir as teorias conspiratórias, persecutórias, as fake news contra o PT e seus dirigentes, contra os candidatos em campanha. É preciso que o PT e a esquerda saibam o que está acontecendo”, completa o professor Mariano.

Portas fechadas. Apesar da necessidade para garantir viabilidade dos partidos com o possível crescimento da população evangélica, o professor Ricardo Mariano não crê que hoje haja espaço para partidos como o PCdoB e o próprio PT conquistar eleitores além dos cristãos “progressistas”, que já costumam votar e dialogar com a esquerda. Para ele, a maior probabilidade é que o segmento continue com Bolsonaro, mesmo que a avaliação do governo não esteja tão satisfatória para o eleitorado. “Eles agora são governo. Eles chegaram a ter ministérios com o PT, mas agora eles tem o poder. Eles têm mais do que ministérios periféricos. Pastores são recebidos e ouvidos pelo Palácio do Planalto”, diz.

A Frente Parlamentar Evangélica confirma justamente que a porta evangélica está fechada para a esquerda. O deputado Sóstones Calvalcante (DEM), que é vice-presidente da frente, disse ao BRP que “não há diálogo” nem com PT, nem com PCdoB. “A comunidade evangélica deu um voto de confiança em Lula. Depois que sentou na cadeira de presidente, a partir do segundo mandato, ele deu uma guinada ideológica tão grande de afronta aos valores cristãos que a esquerda nunca mais vai enganar o povo evangélico”, disse. “Lula só serve para ser pastor do quinto dos infernos.”/Gustavo Zucchi

Cultura

Regina Duarte se reúne com Bolsonaro para discutir convite

A atriz Regina Duarte se reúne nesta segunda-feira com o presidente Jair Bolsonaro para discutir os termos do convite feito por ele para que ela assuma a área da Cultura do governo. Bolsonaro tem dito a auxiliares que pode até recriar o ministério da área, extinto por ele no início do governo, para convencer a atriz a aceitar a empreitada.

Na sexta-feira, Bolsonaro demitiu o secretário da Cultura, Roberto Alvim, depois de intensa pressão de políticos, da comunidade judaica e até de governos da Alemanha e de Israel pelo fato de ele ter postado nos canais oficiais da secretaria um vídeo com conteúdo copiado de um discurso do ideólogo do nazismo, Joseph Goebbels, e com estética igualmente inspirada no nazismo.

O convite a Regina Duarte foi um dos principais assuntos das redes sociais no fim de semana. Artistas criticaram  a atriz pelo apoio ao governo Bolsonaro depois de manifestações claras de que o projeto do governo para a área cultural compreende incentivo a visões artísticas conservadoras e ligadas a ideias como nacionalismo, cristianismo e valores familiares.

Depois de dizer que não se sentia preparada para o posto, Regina passou a considerar a possibilidade e pediu o encontro pessoal com Bolsonaro antes de se decidir.

A demissão de Alvim não foi acompanhada, por ora, da revisão dos marcos de política cultural anunciados por ele, como a concessão de até R$ 20 milhões em várias categorias do Prêmio Nacional de Cultura para obras com o viés previamente definido, o que foi criticado pelo setor por representar censura e ferir o caráter de impessoalidade que deve pautar esse tipo de premiação.

Agenda

Segunda, 20 DE janeiro

  • O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, será o entrevistado da estreia da jornalista Vera Magalhães no comando do Roda Viva
  • O presidente Jair Bolsonaro se encontra com o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella
  • A atriz Regina Duarte se encontra com Bolsonaro para discutir convite para assumir a Secretaria Nacional de Cultura
  • Às 19h acontece a cerimônia oficial de abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça
  • O vice-presidente do STF, Luiz Fux, assume o plantão da Corte nas duas últimas semanas do recesso

Terça, 21 DE janeiro

  • Começa o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça
  • Secretários da Fazenda dos Estados se reúnem para debater pauta federativa
  • Paulo Guedes participa de paineis sobre futuro da indústria e sobre as perspectivas para a América Latina no Fórum Econômico Mundial

Quarta, 22 DE janeiro

  • Eleição presidencial na Grécia
  • O governador de São Paulo, João Doria, discursa no Encontro de Governadores sobre o Mercado Imobiliário, no Central Sporthotel de Davos
  • No mesmo dia, Doria participa do seminário América Latina: Reformas para o Crescimento e Inclusão

Quinta, 23 DE janeiro

  • Transparência Internacional divulga o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2019
  • Luciano Huck participa de painel protestos na América Latina no Fórum Econômico Mundial
  • IBGE divulga a prévia da inflação de janeiro
  • O Tesouro divulga o valor da dívida pública em 2019
  • CNI divulga o Índice de Confiança da Indústria

Sexta, 24 DE janeiro

  • O presidente Jair Bolsonaro vai a Nova Delhi, na Índia, em visita de Estado. A viagem deve ter como destaque a assinatura de 10 a 12 acordos ligados a comércio e investimentos