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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

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Pesquisa

Medo de contágio do coronavírus alcança 69% da população

Alexandra Martins

A primeira morte registrada no País em decorrência do coronavírus na semana passada contribuiu sobremaneira para que o medo de contágio pelo patógeno se alastrasse na população brasileira. Segundo pesquisa realizada pela consultoria Ideia Big Data nos dias 17 e 18 deste mês, 69% dos entrevistados temem contrair a doença. O primeiro dia pesquisado foi marcado pela revelação da primeira vítima fatal, um homem de 62 anos em São Paulo, enquanto o segundo pela imagem do presidente Jair Bolsonaro e vários ministro no Palácio do Planalto com máscaras cirúrgicas para, em tese, anunciar medidas do governo federal de combate à pandemia.

O perfil desses temidos é composto por grande maioria de mulheres (73%) com mais de 50 anos (78%) das classes A e B (77%), ensino superior (76%) e renda superior a cinco salários mínimos (76%). Já a fatia de 22% dos destemidos é formada por evangélicos (27%) com ensino fundamental (28%) de regiões metropolitanas (26%).

Para o economista Maurício Moura, presidente da consultoria, o dado “é e será um excelente indicador de percepção de opinião pública sobre o desenrolar desse momento trágico da história da humanidade”. A jornalista especializada em gestão pública, Cila Schulman, classifica o contexto como “primeira pandemia digital, além de sanitária” em razão da efusão de informações sobre o assunto em circulação pelas redes. “A alta conexão das pessoas nesta hora serve para grandes oportunidades em ações positivas, como as que distribuem conteúdo sobre higiene e outros cuidados, mas também para espalhar fake news e informações que não contribuem para o combate da epidemia”, diz a vice-presidente da Ideia.

Os pesquisadores avaliam que a pandemia deverá elevar doravante a saúde pública como um dos principais temas de campanha política em detrimento da polarização, bem como enfraquecer o discurso anti-Estado, uma vez que o SUS será a tábua de salvação dos economicamente desassistidos. “Vai ficar mais aparente, no imaginário da opinião pública, a necessidade do Estado liderar iniciativas de saúde pública e economia. Com isso, teremos uma valorização de quadros técnicos de governo em todas as suas instâncias. Fenômenos como a eleição de apresentadores de reality show, palhaços ou comediantes para liderar países devem virar história”, diz Moura. Conforme você leu a análise de Cila aqui no BRP, “os políticos que cresceram com o discurso da polarização vão descobrir o vírus não tem lado ideológico”. A valorização da ciência deve, assim, ocupar um espaço nesse movimento.

Popularidade de Bolsonaro

A participação do presidente Jair Bolsonaro em ato a favor de seu governo e contra o Congresso no domingo retrasado, 15, enquanto se encontrava em situação de isolamento pelo risco do coronavírus, foi vista como um erro para a maioria da população (57%), enquanto quase um terço (29%) não viu problema porque o presidente não testou positivo para a covid-19. “Esse dado é uma variável que pode apontar uma  potencial perda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Conforme a crise se agravar, essa ida deve ficar ainda mais reprovada. Foi um movimento arriscado em termos de popularidade”, avalia Moura.

O cálculo do prejuízo eleitoral para o inquilino do Palácio do Planalto tem como fonte a opinião de setores da sociedade que ajudaram a eleger Bolsonaro em 2018. A grande maioria dos que veem como erro essa desobediência médico-sanitária vem das classes A e B (69%) com ensino superior (69%) e renda de mais de três salários mínimos (64%).

Abalado pelas críticas recebidas dos chefes de Poderes, enfraquecimento de seu apoio nas redes e pela então iminência de panelaços contra seu governo, Bolsonaro tentou contra-ataques no segundo dia pesquisado ao promover manifestação semelhante a seu favor, mas em vão. Naquela quarta, 18, ele reuniu ministros mascarados em uma coletiva para tentar reverter o dano, mas não fez qualquer anúncio relevante contra a pandemia na ocasião. O que fez foi reiterar que não cometera qualquer erro por ter mantido contato com centenas de apoiadores no dia 15, por estar, segundo ele, a serviço do povo, voltou a negar que divulgara por WhatsApp a convocação para os atos e acusou a imprensa de mentirosa.

Daquela altura até sábado, 21, o coronavírus matou 25 pessoas no Brasil e contaminou 1.546, um aumento de 37% dos casos em 24 horas, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados ontem. Segundo a pasta, todos os Estados e Distrito Federal já contabilizam infectados. No mundo, 11.245 pessoas já morreram em consequência da covid-19 e 267 mil estão contaminadas. O país mais afetado até o momento é a Itália, com 4.032 mortes. A China, onde surgiu o novo coronavírus, registra 3.261 óbitos. Na Europa, o número de casos registrados pela doença é quase o dobro do país asiático: 159 mil contra 81 mil, de acordo com dados de domingo, 22. No continente, 7.943 morreram de covid-19. Também ontem foi confirmada a primeira contaminação em comunidade carente de infraestrutura básica de combate ao vírus: a favela Cidade de Deus, no Rio.

Ainda assim, o presidente voltou ontem a acusar a imprensa de “alarmismo”. “Há um alarmismo muito grande por grande parte da mídia. Alguns dizem que estou na contramão. Eu estou naquilo que acho que tem que ser feito. Posso estar errado, mas acho que deve ser tratado dessa maneira”, reiterou ele, rechaçando comparações da situação brasileira com a europeia. A postura de Bolsonaro é reflexo de sua preocupação em salvar antes a própria pele que a dos demais. É o que se pôde depreender da declaração dele dada à Rádio Bandeirantes na segunda passada, 16, quando admitiu que “se a economia afundar (…), se acabar a economia, acaba qualquer governo, acaba o meu governo”. Talvez essa prioridade dada à economia explique o fato de ele ter passado a semana em choque com governadores, especialmente os eventuais adversários políticos da eleição de 2022, que restringiram atividades de comércio e lazer em seus Estados, como João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ).

Por outro lado, o presidente já fala em “cura” da covid-19, assim como Donald Trump o fez, apostando em pesquisas com a substância cloroquina, uma nova mina de oportunidades de várias naturezas. Ao menos uma delas já expôs dois hospitais: Albert Einstein, associado a Bolsonaro em vídeo no sábado, e o Sírio Libanês, que produziu um relatório desabonador ao uso de hidroxicloroquina e cloroquina para tratamento dessa doença por eficácia duvidosa. O documento foi encomendado pelo Conselho Nacional de Justiça e distribuído a juízes em todo o Brasil. Em outra raia, o ministro Luiz Henrique Mandetta afirma que a Fiocruz e o Laboratório do Exército têm condições de produzir a medicação, mas que ainda não é possível dizer se a cloroquina foi decisiva ou não na melhora de pacientes tratados com a substância.


Foto: Werther Santana/Estadão
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Maioria da população teme o novo coronavírus, segundo pesquisa da consultoria Ideia Big Data.

Bolsonaro derrete politicamente depois de atuação desastrosa em relação ao coronavírus

Enfrentar uma crise da dimensão do coronavírus já seria um desafio gigantesco para qualquer governante. Mas, no caso de Jair Bolsonaro, ele teve tão pouca habilidade para lidar com a situação que fez com que a doença se transformasse num desastre para o seu governo. E, com isso, o custo político que precisará pagar poderá ser altíssimo. Neste momento, esse comportamento fez ele perder para governadores e prefeitos o protagonismo e liderança no combate à doença junto à população.

Acostumado em criar e alimentar polêmicas em toda a sua trajetória, Bolsonaro cometeu um erro crasso de avaliação ao lidar com a pandemia do coronavírus. Sua atitude foi sempre a de minimizar o tamanho do que poderá se tornar a maior tragédia global do século 21.

Esse erro fez com que o governo demorasse a tomar medidas firmes e duras para tentar reduzir o impacto da doença, o que poderia ter ocorrido logo que as primeiras mortes aconteceram na China, ainda em janeiro. Bolsonaro, ao contrário, não priorizou o combate ao problema e preferiu diminuir sua importância, chamando a doença de “fantasia” e “gripezinha”, citando que outras gripes “mataram mais”, e que a grande mídia alimentava um clima de “histeria” em torno do assunto, entre outras barbaridades que falou nas duas últimas semanas.

Sua atitude parece ter influenciado seus principais auxiliares a endossar sua análise equivocada. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer numa entrevista à Veja que com “R$ 3 bilhões, 4 bilhões, 5 bilhões” aniquilaria o coronavírus. Quatro dias depois, estava anunciando um pacote de socorro econômico para reduzir o estrago da pandemia num valor de R$ 147,3 bilhões, verba que será insuficiente para conter o desastre no Brasil. Agora, aparentemente mais consciente do tamanho da crise, Guedes não repetiu mais esse tom.

É aí que o presidente colheu o seu desastre político. Com esse comportamento, Bolsonaro passou a impressão de que não se importava com a saúde das pessoas ao não levar a sério o alcance da doença. Pior: mostrou total inconsequência ao confraternizar com manifestantes que participaram de um protesto contra Congresso e Judiciário e a favor do seu governo. Àquela altura, o vírus já se espalhava pelo mundo, chegara ao Brasil, e o presidente incentivou os protestos de rua apenas para se fortalecer politicamente e tentar emparedar o Congresso numa briga por controle de recursos orçamentários.

Para agravar tudo, Bolsonaro ainda estava sob suspeita de ele próprio ter se contaminado. Integrantes da comitiva presidencial que se reuniram com Donald Trump nos Estados Unidos já tinham testado positivo (no momento, 22 pessoas que participaram dessas reuniões contraíram o vírus, incluindo dois ministros). Mesmo negando que tivesse a doença, o presidente estava em situação de isolamento preventivo, já que o coronavírus ainda poderia se manifestar. Ignorando tudo isso, cumprimentou apoiadores que foram até a frente do Palácio, pegou neles e tirou fotos. Foi uma total quebra de protocolo de segurança em relação à doença.

Quando os casos se multiplicaram pelo País e com o registro das primeiras mortes, a pressão contra o presidente passou a ser fortíssima. Medidas de restrições passaram a ser adotadas de forma brusca, especialmente pelos governadores – já que o presidente chamava tudo de histeria – na tentativa de conter o avanço da doença. Foi uma ex-aliada do próprio presidente, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), que colocou o guizo no gato e disse, em discurso, que ele deveria deixar o cargo e que se arrependia de ter votado nele.

A crítica pesada ganhou muita força nas redes sociais e se somou às queixas em relação à inoperância do presidente. Fortes panelaços por todo o País deram o peso popular ao protesto contra Bolsonaro por cinco dias seguidos. E abalaram o presidente, que, segundo pessoas próximas a ele, não esperava por uma reação tão forte.

Justiça seja feita, Bolsonaro não esteve sozinho na avaliação errada do coronavírus. Ele, basicamente, replicou o comportamento de Trump em relação à doença, que também considerará que o problema não era sério. O sempre equivocado núcleo ideológico do governo, incluindo os filhos do presidente, compartilhavam da mesma opinião, e a receita do desastre político ficou pronta.

Políticos próximos a Bolsonaro reconhecem que ele se fragilizou ao desprezar os sinais externos que indicavam a magnitude do coronavírus. Acham que outro erro foi seguir duvidando do alcance da doença. A avaliação é que, se duvidou do que ocorria na China, é inexplicável ter ignorado como a doença varreu a Itália.

Bolsonaro sabe que sua avaliação política despencou por causa do episódio, a ponto de torná-lo vulnerável a um processo de impeachment. Se hoje a prioridade ao combate ao coronavírus impede que esse tema seja discutido, as coisas devem mudar de figura assim que a pandemia reduzir seus efeitos. Assim que a situação se aliviar, certamente, o presidente será cobrado e confrontado no Congresso. Já há três pedidos de abertura de processo de impeachment protocolados no Parlamento e outros deverão serão apresentados acusando o presidente de crime de responsabilidade por negligenciar a doença.

O que agrava a situação e fragiliza Bolsonaro é que, além do desastre para a saúde das pessoas, a crise também implodiu a economia. O governo já admite publicamente que o PIB será de 0,02% – uma malandragem apenas para driblar o símbolo negativo do PIB zero. Mas, na verdade, a estimativa é que o encolhimento da Economia seja muito maior e reflita num crescimento elevado do desemprego.

É essa combinação de fatores que pesa hoje fortemente contra Bolsonaro: incompetência na defesa contra uma calamidade, quebradeira da Economia e desaparecimento dos empregos, e falta de humildade para admitir seu erro. Se o coronavírus piorar e os casos aumentarem, vai ser cada vez mais difícil para Bolsonaro se recuperar politicamente à frente do governo. /Marcelo de Moraes

 

Jair Bolsonaro vê adversários políticos crescerem em meio a crise do coronavírus. Foto: Isac Nóbrega/PR

Projetos antes prioritários vão ao limbo em meio ao coronavírus

A crise mundial provocada pelo coronavírus mudou os planos que o Congresso tinha para 2020. Se em um ano relativamente mais curto por causa as eleições municipais, certas pautas já tinham vida difícil, a chegada da pandemia ao Brasil inviabilizou discussões importantes. Dentre as pautas que terão de ficar para 2021, está boa parte das prioridades enviadas pelo Planalto na abertura do ano legislativo.

Além da necessidade momentânea de focar as votações nos projetos prioritários no combate ao coronavírus, parte das pautas se inviabiliza pela impossibilidade de conseguir quórum qualificado.As votações remotas, como a que aconteceu no Senado para aprovar o decreto de calamidade pública do governo, estão restritas aos temas definidos pelos atos das mesas das respectivas Casas Legislativas. Assim, propostas que não tem a ver com o covid-19 teriam de ter a presença física de deputados e senadores em comissões e plenários.

Isto já afetou por exemplo a tramitação da PEC Emergencial. A proposta era considerada a mais importante do ano, já que reduziria gastos da União com cortes na jornada e no salário de servidores públicos. O relatório do senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) deveria ter sido lido na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas acabou adiado indefinitivamente. O primeiro motivo é justamente que a PEC não é considerada parte das medidas de combate ao coronavírus.

“A PEC Emergencial, como vários outros projetos que se encontram na CCJ, não se enquadra nos requisitos do ato baixado pela Mesa Diretora, portanto não se darão a leitura, o debate e a votação em ambiente virtual”, disse a presidente da comissão, senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Já o segundo motivo é que não faria sentido aprovar uma medida de corte de gastos justamente em um momento em que a União deve gastar mais do que o planejado para conter o coronavírus. O decreto de calamidade pública, aprovado na última semana, justamente libera o governo de cumprir a meta de resultado primário.

Boa parte das pautas econômicas seguirá por este mesmo caminho. A mais relevante delas é a reforma tributária. Deputados e senadores ouvidos pelo BRP falam, inclusive, que o coronavírus trouxe uma “saída honrosa” para a proposta. Antes do advento da doença, ela já estava sendo considerada de difícil aprovação pela falta de acordo. Após o início da crise, fala-se que não há nem clima, nem vontade política para fazê-la andar.

A situação poderia ter mudado com o envio das sugestões do governo, que daria um foco para um projeto em que sobram opiniões e faltam consensos. Na última semana, era esperada a presença do ministro Paulo Guedes no Congresso, que iria falar da proposta e apresentar as sugestões da equipe econômica. Nem ao menos se cogitou fazer a sessão remotamente e o encontro foi cancelado sem nova previsão.

Outros dois projetos que estavam entre as prioridades do governo também entrarão em um limbo, ao menos até a crise com o coronavírus passar. O primeiro é a autonomia do Banco Central, proposta que contava com a simpatia do próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Há um outro projeto sobre o tema no Senado, mas precisaria também ser votado presencialmente, o que é considerado inviável em uma Casa com parte dos senadores no grupo de risco do coronavírus, enquanto outros já contraíram a doença

A segunda é a privatização da Eletrobrás, tema que gerou atrito na última semana entre o atual líder do governo, Major Vítor Hugo (PSL-GO) e Maia. Após uma reunião no colégio de líderes com troca de acusações, o presidente da Câmara sentenciou que o projeto não faz parte do pacote de medidas contra o covid-19 e que, portanto, está fora da pauta.

Esperança

Das prioridades para o ano, talvez a única que ainda tenha uma esperança de ser aprovada seja a PEC da prisão após segunda instância. Foi uma das poucas comissões que conseguiram realizar audiências públicas na última semana. E, na reunião de colégio de líderes, foi citada por Maia como uma das possibilidades de chegar ao plenário ainda neste primeiro semestre, caso o coronavírus arrefeça.

Só que, como não faz parte do pacote de medidas contra a epidemia, teria de ser votada presencialmente no plenário. O problema está aí: para tanto, precisaria de um acordo entre as lideranças para que fosse votada simbolicamente, algo improvável de acontecer ante um projeto que trata de um tema polêmico e que costuma dividir a Câmara.

O que pode em breve aparecer entre as propostas prioritárias para a votação são os projetos de lei que sugerem adiar as eleições deste ano. Em grupos de WhatsApp de parlamentares, a ideia já é discutida. O coronavírus inviabilizaria a pré-campanha e, dependendo do desenvolvimento da doença, até mesmo entrar no período eleitoral. Segundo o Ministério da Saúde, a expectativa é que a normalidade tenha voltado ao País até setembro, às vésperas do primeiro turno. Isto também possibilitaria que o polêmico fundo eleitoral, no valor de R$ 2 bilhões, pudesse ser utilizado em medidas para contenção da pandemia.

Mesmo que as pautas sejam aprovadas, parlamentares estão considerando que o ano será “perdido”. Como disse o presidente Rodrigo Maia, o Congresso não fechará, mas, tirando as medidas contra o coronavírus, deverá aprovar muito pouco neste ano./Gustavo Zucchi

 

Comissões só voltam quando coronavírus for embora

Assim como paralisou o País, a crise do coronavírus também interrompeu a discussões que definiriam as presidências das comissões da Câmara. Antes, a expectativa dos deputados era que seria possível chegar a um consenso na semana passada. Agora, falam que os debates só deverão ser retomados quando a situação acalmar. Ou seja, se tudo der certo, isso acontecerá por volta de junho.

Isso criará um fato inusitado. Partidos que disputam os cargos de forma insistente deverão, caso tenham seus pleitos atendidos, ficar efetivamente poucos meses à frente das comissões. Em contas otimistas dos parlamentares, haveriam sessões entre junho e julho e depois só haveria quórum novamente em novembro, depois das eleições municipais.

Isso faz com que o possível adiamento das eleições municipais se torne assunto constante nos grupos de WhatsApp, já que as costumeiras “rodinhas” de parlamentares foram “suspensas” devido ao coronavírus. A questão ainda foi reforçada no último domingo pelo próprio ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que expressou preocupação com a possibilidade de que interesses eleitorais contaminem as medidas necessárias contra o vírus.

Sem as eleições, haveria mais tempo de trabalho efeito na Câmara no segundo semestre, caso a pandemia arrefeça. Essa “esperança” faz com que nenhum dos partidos que pleiteiam comissões importantes desista da disputa. Mas, mesmo em um cenário mais pessimista, com a prolongação da crise e o não adiamento das eleições, é pouco provável que alguém esteja disposto a abrir mão das presidências.

Isso porque ninguém acredita que o próximo presidente da Câmara irá honrar os acordos feitos por Rodrigo Maia (DEM-RJ) por ocasião de sua eleição. No próximo ano, haverá troca do comando da Casa Legislativa. E com a disputa em aberto, é provável que cada candidato tentará fazer seus próprios acordos em busca dos votos necessários para suceder Maia.

Prioridades

A falta de comissões não deve, entretanto, atrapalhar que se vote medidas importantes. As comissões que estão em andamento, como a da reforma tributária, não devem ter quórum para realizar sessões presenciais. E as votações remotas estão restritas aos temas relativos ao coronavírus.

Já as discussões que envolvem o combate à doença irão direto para o plenário. Haverá votações de urgência por acordo, e assim, projetos de lei, medidas provisórias e outras propostas não terão obrigação de passar por comissões. Qualquer outro assunto, só volta após o coronavírus acabar. Seja em junho, seja só em 2021./G.Z

Em meio a pandemia, eleições municipais correm risco de adiamento

Parlamentares protocolam pedidos de adiamento. TSE ainda não vê motivo para mudança Foto: Dida Sampaio/Estadão

As eleições municipais seriam uma das principais agendas da política do País em 2020, até a chegada da pandemia do coronavírus ao Brasil, trazendo tons dramáticos à agenda de atuação dos governantes e políticos. Com o foco na contenção dos efeitos catastróficos na saúde pública e economia do País, a viabilidade da ocorrência das eleições em outubro entrou em discussão. Na última semana, alguns parlamentares já começaram a defender o adiamento ou até a transferência do pleito municipal para 2022, junto das eleições gerais. 

O líder do Podemos na Câmara, deputado Léo Moraes (RO), protocolou um pedido de adiamento das eleições à presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, em razão do surto do coronavírus no País na quinta-feira, 19. O pedido ao tribunal propõe o adiamento inicialmente para dezembro e tem caráter consultivo. “Queremos saber qual é o sentimento do TSE, o que pensam a respeito. É algo muito novo, a gente tem até que discutir legalidade”, afirmou o deputado ao BRP.

Um dia depois, o senador Major Olímpio (PSL-SP) também enviou um ofício ao TSE com pedido de adiamento, desta vez para 2022, junto às eleições nacionais e estaduais. Ambos os autores das propostas defendem que a verba do fundo eleitoral para campanha, que é em torno de R$ 2 bilhões e o recurso para a organização da eleição, sejam remanejados para a área da saúde. 

“Imagina a confusão que vai ser você querer discutir política sendo que nós estamos ainda no combate ao coronavírus no País, que não tem sistema de saúde para todas as pessoas”, defendeu Moraes.

Frente às restrições de circulação e aglomeração de pessoas, as próprias etapas anteriores às campanhas eleitorais podem ser comprometidas. Se a transmissão do vírus ocorrer de acordo com a previsão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que afirmou que o ápice do número de contaminações e início da queda deve ocorrer apenas em julho, convenções partidárias, que têm data definida para 20 de julho e 5 de agosto, podem ser afetadas. 

O próprio ministro da Saúde defendeu o adiamento da eleição em uma reunião com prefeitos de capitais, no domingo, 22, por videoconferência. “Está na hora de o Congresso falar: ‘adia’, faz um mandato tampão desses vereadores e prefeitos. Eleição no meio do ano… uma tragédia, por que vai todo mundo querer fazer ação política”, disse.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), correligionário de Mandetta, afirmou ao Estadão ter posição diferente. “Hora de focar no enfrentamento da crise. Vamos cuidar do combate ao vírus”, disse. “Se a projeção na curva de contaminação do ministro Mandetta estiver certa, não haverá necessidade de adiar a eleição”.

Por enquanto, o TSE se posiciona pela manutenção do calendário eleitoral. “O Tribunal tem avaliado o atual cenário nacional diariamente. Neste momento, não há manifestação que afaste o previsto no calendário eleitoral”, informou por e-mail. O tribunal negou pedidos de prorrogação do prazo de filiação partidária, de 4 de abril, “uma vez que está previsto em legislação federal”.

Segundo o líder do DEM na Câmara, deputado Efraim Filho (PB), ainda é cedo para cravar que o pleito municipal será adiado. “É muito prematuro agora dizer que podemos ter adiamento, mas tampouco é de se descartar essa possibilidade”, avalia o deputado. De acordo com o parlamentar que lidera a bancada do partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, há movimentação de parlamentares, mas não existe “solidez” quanto ao assunto por enquanto. 

Se até junho a situação melhorar e o País voltar a uma certa normalidade, Efraim prevê que o cronograma das eleições deve se manter. “Caso se estenda um pouco mais o prudente será adiar.”

O vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, que assume a presidência do tribunal em maio, afirmou ao Estadão/Broadcast na última semana que não “sofre antes da hora”. O ministro acredita que até outubro a pandemia do coronavírus estará sob controle e avalia que não há motivos para cogitar qualquer adiamento nas eleições municipais deste ano.

Na avaliação do cientista político da FGV George Avelino, com o prolongamento da situação da pandemia, não há clima para discutir campanha eleitoral. “Os americanos cancelaram as prévias, está tudo parado, é uma situação de emergência.”, afirmou. 

Mesmo com a provável intensificação da campanha nas redes sociais, o pesquisador avalia que, principalmente por se tratar de eleições municipais, a campanha não deve se sustentar com confinamento. “Campanha eleitoral é uma coisa que é face a face, é aperto de mão. Quando você está falando das pessoas se confinarem, é o contrário de uma campanha política”, disse. “Estamos no Brasil, são 5.700 municípios, e em muitos deles parte da população não tem acesso à internet. Nesses lugares o boca a boca sempre foi o jeito de fazer campanha, principalmente para eleição legislativa.”

Impasse constitucional

O calendário das eleições é definido pelo Congresso Nacional, em forma de lei. Por conta disso, a mudança das datas relacionadas à eleição passa por alteração na legislação. Segundo com o advogado eleitoral Fernando Neisser, a Justiça não tem poder para alterar as datas. O argumento foi o mesmo dado pelo TSE para negar a prorrogação do prazo para filiação partidária.

É aí que reside o impasse. Pelo artigo 16 da Constituição, alterações na legislação eleitoral só podem ocorrer até um ano antes da data da eleição seguinte. Portanto, tecnicamente o Congresso não pode mudar mais as regras da eleição deste ano. Neisser avalia que uma alternativa seria a aprovação de uma PEC prevendo que excepcionalmente neste ano, em razão da epidemia do coronavírus, possam ser aprovadas medidas legislativas que alteram o processo eleitoral. “Exclusivamente para adaptar para esta realidade sem derrubar a regra da anualidade, porque para a democracia ela é muito importante, mas talvez para este ano se mostre imprescindível fazer isso”, afirmou.

A solução encontrada pelo deputado Léo Moraes para fazer a alteração é apresentar uma PEC permitindo a abertura de uma margem de até seis meses da data definida para a eleição para a sua realização. “Isso é, se em outubro for possível, ok. Agora, se não, se pensamos que tem que ser em dezembro, pode se fazer porque a PEC ampara a mudança”, afirmou. Segundo ele, isso afasta a mudança da legislação eleitoral. “É um caminho legal que de repente não necessita de intervenção do STF.” O deputado afirmou que está discutindo a apresentação da proposta.

Fundo eleitoral

O adiamento da eleição abarca também outra pauta que tem sido alvo de projetos de lei de parlamentares. Na última semana, diversas propostas para que a verba destinada ao fundo eleitoral de campanha seja realocada para a saúde foram protocoladas nas Casas Legislativas. Segundo os parlamentares que defendem a mudança da data da eleição, com o adiamento, os cerca de R$ 2 bilhões do fundo, além de cerca de R$ 1 bilhão do recurso para a organização da eleição poderiam ser liberados para o combate ao coronavírus. 

“Havendo a continuidade da pandemia, todos os recursos que forem necessários para garantir a saúde do povo brasileiro devem ter prioridade, inclusive aqueles da Justiça Eleitoral. Se for para adiar as eleições, não tem por que ter o fundo. Isso é uma coisa que não terá contestação”, avalia o deputado Efraim Filho. /Roberta Vassallo

Setor aéreo aguarda linha de crédito do BNDES e pede manutenção dos voos nacionais

Em meio a uma crise sem precedentes na história da aviação moderna, o setor aéreo brasileiro se prepara para discutir com o governo as próximas medidas para salvar o segmento. A primeira que deve ser decidida já nas próximas semanas é a criação de uma linha de crédito especial via BNDES. Mas, há a preocupação também de não paralisar totalmente aeroportos nacionais, como têm defendido alguns governadores.

A preocupação se dá pelo cenário à frente. Na melhor das hipóteses, demorará entre cinco e seis meses para que a normalidade volte ao País. E com ela, retornem os passageiros. Hoje, voos internacionais já tiveram uma redução de 95%, enquanto os nacionais caíram 70%. Números que estão sendo atualizados quase que “hora a hora”, segundo o presidente da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz.

Para enfrentar essa situação, o governo federal por meio do Ministério da Infraestrutura já anunciou um pacote de medidas de socorro para o setor.  São três ações principais: a postergação do recolhimento das tarifas de navegação aérea, o adiamento do pagamento das outorgas aeroportuárias sem cobrança de multas e a prorrogação das obrigações de reembolso das empresas aéreas. Já está na mesa também, segundo Sanovicz, a linha de crédito para as companhias aéreas.

“A segunda, digamos assim, rodada de medidas está sendo finalizada pelo governo por meio de concretização de linha de crédito. A meu juízo parece que será por meio do BNDES”, disse o presidente da Abear. No último domingo, o presidente do banco de fomento, Gustavo Montezano, disse que estão sendo “estudadas” medidas para auxiliar não apenas o setor aéreo, mas também de bares e restaurantes, outros dois segmentos bastantes afetados pelo coronavírus. 

Outra frente será em convencer governadores de que fechar aeroportos para voos internos não é uma das atitudes corretas neste momento. O governo federal tem avisado que a medida só pode acontecer por meio de uma determinação da Agência Nacional de Aviação (Anac). Mas, em meio a uma “guerra” de competências, com governadores tentando agir de forma diferente do Planalto em relação ao coronavírus, o setor tentará mostrar que voos nacionais hoje não são mais um problema para a contenção da doença.

“Tem de ser uma retirada organizada e não uma debandada”, afirmou Sanovicz. “Atualmente voos com passageiros voando por turismo, por eventos  ou por negócios não existe mais. Quem está voando agora são passageiros voltando para casa, indo buscar um parente ou equipes médicas e técnicas indo resolver um problema”, explicou.

“Neste País há uma série de questões que só se resolvem com avião. Portanto quando a gente fala que é fundamental manter a aviação funcionando, não é para as pessoas passearem. É porque é a única forma de manter esse País conectado. Não há outra alternativa. Não tem plano B”, completou.

 

Cancelamentos de voos nacionais chega a 70%. Aéreas esperam linha de crédito. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

 

Supermercados têm aquecimento enquanto bares e restaurantes enfrentam crise

Em meio à crise do coronavírus no Brasil, o setor alimentício começou a sentir os efeitos da quarentena, isolamento social e fechamento de shoppings center. Enquanto os supermercados têm aquecimento nas vendas, os bares e restaurantes enfrentam crise com o baixo movimento.

O presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS), Ronaldo dos Santos, conversou com o BRP e afirmou o aumento na área. Segundo a APAS, o crescimento no fim de semana dos dias 13, 14 e 15 de março foram de 8,5% comparado a fevereiro do mesmo ano, períodos equivalentes sem feriados prolongados e com vendas geralmente semelhantes.

Na quinta-feira, 19, o aumento foi de 48,5%. A velocidade da procura nesta quinta-feira se deu em um ritmo menor que nos dias anteriores, diz relatório diário da Associação. Ronaldo acredita que a aceleração no consumo não se dá apenas pela antecipação de compras, mas também pela mudança na rotina das pessoas causada pela nova estrutura de trabalho de home office, além de shoppings e restaurantes fechados.

Assim como a APAS, a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) também garantiu que não há preocupação quanto ao desabastecimento. João Galassi, presidente da ABRAS, garantiu que todo o processo está funcionando perfeitamente e afirmou que o funcionamento normal do transporte tem colaborado para a cadeia produtiva.

“As fronteiras entre os Estados estão possibilitando o transporte da mercadoria”, disse Galassi sobre a contribuição dos governos municipais, estaduais e federal nesse sentido. Também pontuou a importância do transporte público funcionando para que os funcionários consigam chegar aos seus postos.

Sobre a próxima semana, assim como o relatório da APAS mostrou, o ritmo de crescimento está se estabilizando. “Este final de semana vamos continuar o aquecimento, mas até por uma questão de ser final de semana, então você tem uma demanda natural de aumento. Eu creio que na próxima semana essa situação começa a normalizar”, prevê Galassi.

A situação para os bares e restaurantes não está tão positiva quanto para os supermercados. O BRP conversou com o Percival Maricato, presidente Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que assinalou uma queda brusca nas vendas, chegando a 50%.

Muitos estabelecimentos estão fechando pelo baixo movimento. Esta é a principal preocupação da Abrasel. Percival conta que a estimativa para os próximos 40 dias é que área tenha 3 milhões de desempregados. Isto porque a grande maioria das empresas são pequenas e não conseguem manter o passivo trabalhistas sem que entre verba, pois elas não têm reservas.

Abras exige um pronunciamento do governo federal em relação à situação. Percival fala sobre a possibilidade dos três níveis do governo adiarem os impostos ou arcarem com a remuneração, auxílio no salário dos funcionários.

Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, pediu para que os membros não se preocupem com férias coletivas e demissões, pois o governo Federal prometeu anunciar uma solução na segunda-feira, 30, que seria capaz de arcar com os salários. A ideia é pegar um salário mínimo por funcionários nos próximos meses.

Apesar da queda no movimento e do medo da desestruturação do setor, os serviços de delivery tiveram um aumento entre 10 e 20%. Com isso, alguns funcionários serão remanejados. A Abrasel fechou um acordo com o Ifood em nível nacional em que o aplicativo de entrega não cobrará mais comissão dos bares e restaurantes enquanto durar a crise. Também estão firmando um acordo com a Rappi em São Paulo que deve sair nesta semana. / Júlia Vieira, especial para o BRP

Questão moral pesa mais que renda para eleitorado pobre, diz pesquisa

O voto da população mais pobre do País não é mais guiado majoritariamente pela dimensão econômica em decorrência da influência que recebe das lideranças evangélicas pentecostais. A variante de renda perdeu espaço para temas de ordem moral considerados mais prioritários para essa categoria religiosa, fazendo com que os mais pobres não votem em partidos de esquerda associados a pautas redistributivas. O paradoxo é o principal resultado da pesquisa do cientista político Victor Araújo feita no Centro de Estudos da Metrópole, da USP, sob orientação da professora Marta Arretche.

A pesquisa compara as tendências de votos dos católicos; dos evangélicos tradicionais, que incluem as igrejas protestantes históricas, como metodistas, batistas, presbiterianos, anglicanos e congregacionais; e dos pentecostais, que englobam as igrejas Assembleia de Deus, Cristã do Brasil, Deus é Amor, Brasil para Cristo e Quadrangular, nas eleições presidenciais entre 2002 e 2018. O grupo dos evangélicos pentecostais é composto por indivíduos de baixa renda residentes em áreas periféricas dos grandes centros urbanos. Já os neopentecostais, das Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo, têm menor apelo às questões morais.

A distinção das categorias evangélicas – tradicionais e pentecostais – se faz importante porque segundo o Censo de 2010, dos que se declararam evangélicos, 60% eram de origem pentecostal, 18,5%, evangélicos de missão, e 21,8 %, evangélicos não determinados. As projeções demográficas combinadas com dados censitários mais recentes também permitem afirmar que o crescimento dos evangélicos é puxado pela expansão desses pentecostais. Até 2040, obedecidas as tendências das duas décadas, os cristãos evangélicos serão maioria no Brasil. 

A pesquisa explora ainda os efeitos da implementação de políticas redistributivas, como o Bolsa Família, no Nordeste, onde os pentecostais punem eleitoralmente o PT. A preferência dessa categoria evangélica altera a compreensão de que a Região é fiel ao partido porque é beneficiária da política social. “Parece mais provável que o PT tenha crescido mais no Nordeste porque o efeito eleitoral do Bolsa Família é maior entre católicos. Como os católicos são maioria no Nordeste, o PT leva vantagem. Nesse caso, a religião é uma variável interveniente importante. Não me parece existir um efeito puro de Região. Em outras palavras, católicos tendem a votar no PT mesmo estando fora do Nordeste. E pentecostais tendem a não votar no PT mesmo quando estão no Nordeste”, diz o pesquisador de pós-doutorado na área de Economia Política e Desenvolvimento na Universidade de Zurique, Suíça. Leia abaixo a íntegra da entrevista.

BRP – Por que pobres não votam em plataformas eleitorais redistributivas?

Victor Araújo – Os eleitores pobres brasileiros (aqueles com renda familiar total abaixo de 2 salários mínimos) tendem a não votar em candidatos de esquerda. Foi assim, por exemplo, com os candidatos do PT à Presidência entre 2006 e 2018. O que faço na minha pesquisa é mostrar que esse efeito é puxado pelos pobres evangélicos pentecostais. Mostro que o comportamento eleitoral desse grupo é resultado da atuação eleitoral das lideranças dessas igrejas que mobilizam os eleitores de baixa renda contra os partidos e candidatos de esquerda. 

Como é a atuação dessas lideranças pentecostais nessa relação entre candidatos e fiéis? Há pressão para que não se vote em partidos ligados à esquerda?

Os pastores e lideranças das igrejas pentecostais atuam como cabos eleitorais. Durante os cultos, os pastores fazem uso de sua posição institucional para influenciar o voto de uma massa de fiéis disposta a seguir a liderança espiritual de suas referências eclesiásticas. A mobilização pode ocorrer de maneira indireta, quando pastores associam determinadas candidaturas (sem explicitamente revelar seu posicionamento eleitoral) a forças opressoras e malignas, ou assumir uma forma mais direta, quando esses mesmos líderes revelam sinais e orientações divinas para votar em um determinado candidato. Trata-se de um fenômeno de longa data nas eleições brasileiras. Em geral, a parcela pentecostal do eleitorado vota contra candidatos de esquerda. Em 1989, por exemplo, o pastor Manuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus, declarou ao Jornal do Brasil: “Após orar e pedir a Deus que indicasse uma pessoa, o Espírito Santo nos convenceu de que Fernando Collor era o escolhido”.

Como a pesquisa lida com a premissa básica de que partidos e eleitores são guiados pelo voto econômico?

As teorias tradicionalmente utilizadas por cientistas políticos e economistas assumem que a renda é a dimensão mais importante para explicar o voto dos indivíduos. Esses modelos, no entanto, capturam apenas parte da realidade. Como explicar que eleitores de baixa renda, aqueles a quem mais interessa que o Estado aumente o gasto social, votem frequentemente em candidatos com plataformas eleitores anti-redistributivas? A minha pesquisa refuta essa ideia e trabalha com um espectro mais amplo de possibilidades para explicar o voto no Brasil. Por exemplo, mostro que o a religião pode “distrair os pobres” ao tornar a dimensão moral mais importante para essa porção do eleitorado do que a dimensão renda. Uma contribuição adicional da minha pesquisa é mostrar que a forma como as religiões instrumentalizam o uso do conservadorismo moral nas eleições também varia substantivamente. Neste sentido, os eleitores evangélicos tradicionais estão mais próximos dos eleitores católicos do que de seus pares pentecostais.

Qual é a importância de se fazer distinção entre evangélicos tradicionais e pentecostais? 

O grupo “evangélico” costuma ser tratado como uma categoria homogênea. Mas esse grupo abriga heterogeneidades importantes em seu interior. As igrejas evangélicas de orientação pentecostal foram pioneiras no Brasil no processo de mobilização eleitoral de seus fiéis. As eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ocorridas em 1986) foram um marco. Na ocasião, a igreja Assembleia de Deus elegeu 33 deputados, nomes que foram referendados internamente nas convenções da igreja e apoiados por pastores e lideranças locais em todo o Brasil.  As lideranças das igrejas pentecostais são também mais conservadoras na dimensão moral. A base doutrinária pentecostal estimula um comportamento fundado em um proselitismo de cunho fortemente moralizante. Desse modo, os adeptos do pentecostalismo se veem, não apenas como guardiões de sua própria santidade, mas também corresponsáveis pela manutenção do padrão moral da sociedade como um todo. Por isso, o conservadorismo moral tende a ser mais forte entre os evangélicos pentecostais. O grupo dos evangélicos pentecostais é composto por indivíduos de baixa renda residentes em áreas periféricas dos grandes centros urbanos. O pentecostalismo tende a ser predominante nas áreas com maior desigualdade de renda, diferentemente das religiões evangélica tradicional e católica. Os evangélicos tradicionais, por seu turno, tendem a ser mais escolarizados, mais informados e mais críticos às atitudes e posicionamento de suas lideranças. No interior deste grupo, também existe mais resistência à ideia de que os cristãos devem participar da arena política ocupando cargos eletivos. Embora esse padrão venha sendo alterado nos últimos anos, provavelmente como uma resposta ao movimento pentecostal que se tornou dominante na política partidária brasileira. Aqui uma distinção importante. Os termos “pentecostalismo” e “neopentecostalismo” costumam ser utilizados de forma intercambiável, algo que deveríamos evitar em nome do rigor e da precisão. As denominações neopentecostais (e.g. Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo) possuem características peculiares que as distinguem das igrejas pentecostais clássicas. As principais são a forte orientação para a Teologia da Prosperidade – corrente da teologia evangélica que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos –  e menor apelo às questões morais. Por exemplo, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, defende abertamente a descriminalização do aborto. Além disso, em 2010, a igreja declarou publicamente apoio à candidatura da petista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. Algo que já havia ocorrido antes nas eleições de 2002 e 2006, quando o então candidato Lula concorreu à Presidência. Diversas pesquisas etnográficas mostram que, nas igrejas neopentecostais, a dimensão moral é menos enfatizada por suas lideranças. Neste caso, a dimensão renda, materializada pela teologia da prosperidade, é muito mais importante para este grupo. Por isso, no meu trabalho, defendo que esses grupos (tradicionais, pentecostais e neopentecostais) devem ser tomados como categorias independentes.

Qual é o desempenho dos candidatos de esquerda, ou do PT, entre os eleitores evangélicos pentecostais no período estudado?

Os dados de nível individual indicam que o PT tende a ser punido nas urnas pelo eleitorado pentecostal. Entre 2006 e 2018, a probabilidade de um eleitor pentecostal votar no PT foi sempre baixa, independente de raça, cor, escolaridade, sexo ou região. Os dados de nível agregado (por município) revelam um cenário interessante e pouco explorado por especialistas até agora: entre 2002 e 2014, o PT venceu as eleições presidenciais porque conseguiu aumentar sua influência eleitoral em diversas porções do território brasileiro. Mas é interessante notar que o PT não cresceu, ou cresceu a taxas residuais, nos municípios com maioria pentecostal. O uso de algumas ferramentas estatísticas me permitiu testar o efeito da concentração espacial do pentecostalismo sobre a votação do PT. É possível afirmar com relativa segurança que uma forte concentração pentecostal tende a se traduzir em desvantagem eleitoral para o PT nas eleições presidenciais. Um exemplo: imagine um conjunto de municípios vizinhos onde em todos eles a população é majoritariamente evangélica pentecostal. Neste aglomerado de municípios, que nós chamamos tecnicamente de clusters, a rejeição aos candidatos do PT tende a ser alta. Em um mesmo aglomerado de municípios, mas de maioria católica, a rejeição ao PT tende a ser baixa. Isso explica, em grande medida, porque o partido conseguiu formar uma base estável de eleitores apenas no Nordeste, região onde o catolicismo ainda é dominante.  

Por que o PT não conseguiu crescer entre os eleitores pentecostais?

Os candidatos de esquerda, dentre os quais também se enquadram os petistas, tendem a ser vistos como defensores de pautas mais progressistas como união entre casais homoafetivos e descriminalização de drogas e do aborto. O que, no caso do PT, é um paradoxo. Durante as suas gestões (governos Lula e Dilma), o partido foi criticado várias vezes por uma certa timidez nas políticas de extensão de direitas às minorias. De fato, alguns temas, como a regulamentação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, foram pautados pelo STF e não pelo Executivo, como era esperado. O fato é que as lideranças pentecostais associam os partidos de esquerda a uma pretensa degeneração moral dos valores cristãos da família. Por exemplo, nas eleições presidenciais de 2018, o pastor Silas Malafaia, um dos maiores líderes pentecostais no Brasil, ajudou a promover a campanha de Jair Bolsonaro contra o então candidato petista Fernando Haddad (Antes disso, Silas Malafaia apoiou e fez campanha publicamente para Geraldo Alckmin (2006), José Serra (2010) e Aécio Neves (2014)). No dia do segundo turno das eleições, Malafaia afirmou o seguinte em suas redes sociais: “Hoje! Em Nome de Jesus! A verdade vai prevalecer contra a mentira, cinismo, corrupção, destruição dos valores morais, sexualizar crianças, liberação de drogas e outros tantos lixos morais. O Brasil é do Senhor Jesus!”.

Os conservadores procuram mais as igrejas evangélicas ou o pentecostalismo os tornam mais conservadores?

Essa é uma pergunta recorrente e importante.  Uma hipótese é que os indivíduos mais conservadores seriam mais atraídos pelas igrejas pentecostais. Neste caso, o conservadorismo moral não seria resultante da atuação dos pastores, mas sim um efeito do conservadorismo inato desses indivíduos. Para tentar desvendar essa questão, utilizei dados de pesquisas em formato painel (que entrevistam os mesmos indivíduos em diferentes pontos no tempo) para acompanhar uma amostra de mais de 9 mil indivíduos no Brasil. Depois de convertidos ao pentecostalismo, os dados indicam que os indivíduos alteram suas percepções morais em duas direções: passam a enxergar mais corrupção nos candidatos de esquerda e a valorizar mais a honestidade do que a competência dos candidatos. Os resultados indicam, portanto, que os indivíduos mudam sua percepção moral após a conversão ao pentecostalismo, e não o contrário.

Esse resultado não poder ser um efeito dos escândalos de corrupção (Mensalão e Lava Jato, por exemplo) ocorridos nos governos petistas?

O esquema do mensalão foi noticiado pela primeira vez no dia 14 de maio de 2005 pela Revista Veja, praticamente 12 meses depois que a pesquisa foi realizada. As entrevistas que deram origem aos dados em painel utilizados nesta parte da minha pesquisa foram conduzidas entre março de 2002 e maio de 2004. Portanto, por uma questão temporal, é improvável que esse resultado seja um efeito dos esquemas de corrupção que vieram à tona meses depois.

Em qual categoria religiosa o Bolsa Família produziu mais retornos eleitorais ao PT?

Muito já foi dito sobre os efeitos da implementação do Bolsa Família (BF) sobre a votação do PT nas eleições presidenciais brasileiras. O que me parece ainda pouco explorado é como esse efeito varia entre os grupos religiosos. Os resultados da minha pesquisa indicam que os beneficiários do BF católicos e evangélicos tradicionais (sem incluir pentecostais) tendem a recompensar os candidatos do PT nas eleições presidenciais. Mas o mesmo não pode ser dito para os beneficiários pentecostais. Entre estes eleitores pobres, o PT não foi capaz de conseguir mais votos nas eleições presidenciais realizadas entre 2006 e 2018. Isso coloca a dicotomia Nordeste versus o resto do Brasil em xeque.

Por quê?

Os especialistas costumam argumentar que o Nordeste vota no PT porque essa Região abriga uma maior proporção de beneficiários do Bolsa Família. Mas os dados da minha pesquisa complexificam um pouco essa questão. Parece mais provável que o PT tenha crescido mais no Nordeste porque o efeito eleitoral do Bolsa Família é maior entre católicos. Como os católicos são maioria no Nordeste, o PT leva vantagem. Nesse caso, a religião é uma variável interveniente importante. Não me parece existir um efeito puro de Região. Em outras palavras, católicos tendem a votar no PT mesmo estando fora do Nordeste. E pentecostais tendem a não votar no PT mesmo quando estão no Nordeste. Isso é que nós cientistas costumamos chamar de falácia ecológica: atribui-se o resultado eleitoral a uma característica geográfica (região, neste caso), quando, na verdade, o resultado é explicado por características dos indivíduos (religião, neste caso). Esse resultado enfraquece a explicação corrente entre cientistas políticos brasileiros de que o Bolsa Família produziu eleitores cativos para o PT no Nordeste. Esse efeito parece ser fortemente mediado pela variável religião.        

Qual é o peso do sentimento de abandono social para os eleitores pobres na hora do voto?

Um dos fatores que explica o crescimento das igrejas pentecostais nas áreas pobres urbanas é a capacidade dessas igrejas para compreender a realidade dos moradores desses locais. Além de um culto menos litúrgico e mais adaptado a um público menos escolarizado, as igrejas pentecostais também oferecem uma rede de apoio e assistência aos seus membros. Em um contexto de elevada desigualdade e dificuldade de penetração do Estado, as lideranças pentecostais tornam-se referências para uma parte importante do eleitorado de baixa renda. O que boa parte dessas lideranças faz é aproveitar dessa vulnerabilidade para transformar esse sentimento de abandono social em votos contra os “inimigos do povo de Deus”, geralmente os candidatos à esquerda do espectro ideológico. 

Quais são os dados mais recentes dos demógrafos de populações religiosas?

A combinação dos dados censitários com as projeções demográficas mais recentes permite afirmar que os cristãos evangélicos serão maioria no Brasil antes de 2040, mantidas as taxas atuais de crescimento.  Esse crescimento dos evangélicos é puxado pelo crescimento dos pentecostais. Hoje, a cada 3 novos pentecostais, 2 eram católicos antes da conversão. 

Como esse fenômeno deve afetar as eleições no Brasil? 

O fortalecimento da identidade religiosa exige um esforço de adaptação da elite política. Para os partidos de direita, em geral mais orientados por políticas pró-mercado e, portanto, mais próximos do eleitorado de renda média e alta, adotar pautas morais pode significar também alcançar os eleitores conservadores de baixa renda, como parece ter sido o caso na eleição do candidato Jair Bolsonaro em 2018. Os partidos de esquerda têm como primeira opção tentar enfraquecer a pauta moral e recolocar no centro do debate a dimensão de renda. Neste caso, existe o risco de perder apoio da parcela mais conservadora do eleitorado que não segue a lógica econômica do voto. Uma segunda opção é tentar se distanciar de pautas mais progressistas que possam minar o apoio eleitoral dos pobres conservadores. Mas existe o risco de perder apoio entre os eleitores de renda média com maior escolaridade, bem como de parte da militância organizada e representantes de grupos minoritários afetados por uma agenda política moralizante. Uma terceira opção é acirrar a polarização nas eleições, explorando a identidade religiosa do eleitorado. Por exemplo, os partidos de esquerda podem mobilizar parte do eleitorado religioso em seu favor por meio de um discurso identitário. Mas o sucesso dessa estratégia depende do crescimento de longo prazo dos grupos religiosos que rivalizam nas eleições. No caso brasileiro, mobilizar o eleitorado católico contra o eleitorado evangélico pentecostal pode significar prejuízo eleitoral futuro, dado que este último grupo será maioria já na próxima década. / Alexandra Martins

Agenda

Segunda, 23 DE março

  • BC divulga Boletim Focus

Terça, 24 DE março

  • IBGE divulga Pesquisa Mensal de Comércio referente a janeiro
  • Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central divulga decisão sobre taxa básica de juros (Selic), às 19h

Quarta, 25 DE março

  • IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial – IPCA-E referente ao primeiro trimestre de 2020
  • IBGE divulga Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 – IPCA-15 de março
  • IBGE divulga Pesquisa Mensal de Serviços referente a janeiro

Sexta, 27 DE março

  • IBGE divulga Índice de Preços ao Produtor – Indústrias Extrativas e de Transformação – IPP referene a fevereiro

Expediente:

Edição: Marcelo de Moraes e Vera Magalhães; reportagem: Alexandra Martins, Gustavo Zucchi, Roberta Vassallo e Júlia Vieira