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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

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Eleições 2020

Disputa pela capitais pode fortalecer futura aliança entre PSDB, DEM e MDB

Marcelo de Moraes

Nos últimos dias de campanha de uma eleição marcada pelo impacto da pandemia do novo coronavírus, a briga pelas prefeituras das capitais deve ser mais intensa do que a de quatro anos atrás. Em 2016, oito candidatos foram eleitos no primeiro turno, incluindo Palmas, no Tocantins, que, por ter menos de 200 mil eleitores, não realiza segundo turno. Agora, as pesquisas mais recentes indicam que essa situação tende a acontecer apenas em cinco das 26 capitais – de novo incluindo a situação de Palmas. O primeiro turno acontecerá dia 15 e o segundo, onde for necessário, no dia 29.

Além de poder ser mais disputada do que a votação passada, a campanha deste ano vem apontando vantagem para candidatos de centro ou de centro-direita. E, dentro desse espectro, uma frente partidária, em particular, pode conseguir semear uma importante base eleitoral para a sucessão presidencial de 2022. Nacionalmente, PSDB, DEM e MDB vêm avançando na construção de uma aliança para tentar chegar ao Planalto, possivelmente com uma chapa encabeçada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). E, mesmo sem essa aliança conseguir se reproduzir em todas as capitais por conta de interesses regionais, o desempenho dos candidatos dos três partidos mostra que o grupo pode terminar a eleição com um excelente resultado.

Candidatos dos três partidos lideram as pesquisas do Ibope em capitais como São Paulo (Bruno Covas), Rio (Eduardo Paes), Salvador (Bruno Reis), Curitiba (Rafael Greca), Florianópolis (Gean Loureiro), Palmas (Cinthia Ribeiro), Rio Branco (Minoru Kimpara), Goiânia (Maguito Vilella), Macapá (Josiel Alcolumbre), Porto Velho (Hildon Chaves), Natal (Álvaro Dias), Maceió (Alfredo Gaspar) e Teresina (José Pessoa).

Além disso, estão em segundo lugar e podem assegurar uma vaga no segundo turno em Porto Alegre, Cuiabá, João Pessoa, Belém e Boa Vista. Com isso, num cenário de sucesso total, o grupo poderia chegar às prefeituras de 18 das 26 capitais, num desempenho superior a dois terços do total.

Para outros dois possíveis players da corrida presidencial os sinais não são tão bons. O presidente Jair Bolsonaro, que está sem partido desde que deixou o PSL para fundar o malogrado Aliança Pelo Brasil, não tem conseguido alavancar seus aliados nas capitais. Pelo contrário, a parceria parece estar sendo rejeitada. Em São Paulo, o presidente declarou seu apoio a Celso Russomanno (Republicanos). Mas o acordo político, até agora, coincidiu com o início do tradicional derretimento da candidatura de Russomanno. Ele ainda ocupa a segunda colocação, mas cada vez mais ameaçado por Guilherme Boulos (Psol) e Márcio França (PSB). Nos últimos dias, Bolsonaro, que tem alta rejeição na capital paulista, começou a desaparecer da campanha de Russomanno.

No Rio, a situação é ainda mais complicada. Bolsonaro está apoiando o prefeito Marcelo Crivella, outro candidato do Republicanos – partido ao qual se filiaram seus filhos Flávio e Carlos e a sua ex-mulher Rogéria, mãe dos dois. Mas, desgastadíssimo, Crivella não decola e tem sua presença no segundo turno ameaçada pela deputada estadual Delegada Martha Rocha (PDT). Em Fortaleza, o deputado federal Capitão Wagner (Pros) tem sua imagem associada a do presidente, mas o apoio é mais discreto. Talvez por isso tenha chance de chegar ao segundo turno contra José Sarto (PDT), candidato dos Ferreira Gomes.

O outro grupo que sonha com o Planalto em 2022 é o PT, que segue ainda enfrentando uma rejeição muito grande nas eleições municipais. Em 2016, o voto antipetista foi um dos pontos centrais da eleição e restringiu o PT a apenas uma capital, Rio Branco, no Acre. Agora, a situação pode se repetir já que as pesquisas mostram ligeira vantagem apenas em Vitória, no Espírito Santo.

Isso não significa que a esquerda sairá de mãos abanando. O PCdoB está na frente na disputa em Porto Alegre, com Manuela D’ávila. O PSB pode levar Recife com João Campos. O Psol lidera em Belém, com Edmilson Rodrigues e o PDT tenta vencer em Fortaleza, com Sarto, e em Aracaju com Edvaldo Nogueira.

 

 


Foto: Patrícia Cruz/Div
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Na estratégica eleição de São Paulo, o tucano Bruno Covas vem liderando as pesquisas
Eleições na Rede

A semana mais cara das campanhas virtuais

A internet demonstra força para transformar cenários políticos desde que Barack Obama conquistou a Casa Branca, ainda em 2008. Mas o Brasil não tardou a experimentar impactos semelhantes. Dilma Rousseff tornou-se presidente da República por uma soma de fatores que incluía um bom diálogo com o que chamavam na época de “blogosfera”. E Marina Silva, naquele mesmo 2010, superou os 19 milhões de votos por uma campanha enxuta que se focou em agitações virtuais, com direito a um neologismo que pegou: “twitaço”.

https://twitter.com/MarinaSilva/status/19566150759

Pela capacidade de otimizar recursos, as campanhas virtuais costumam ser a principal aposta dos candidatos com menos estrutura. E Jair Bolsonaro é talvez o melhor exemplo no mundo de político que, sem capital para uma disputa majoritária, usou as redes sociais para somar apoios e aniquilar as chances de adversários.

Há, claro, questionamentos justos sobre os métodos explorados. Tanto que, nos últimos 2 anos, a legislação eleitoral brasileira ousou avançar contra o que passara uma década evitando. No caso, a falta de limites das plataformas.

Até o momento, é possível afirmar que os efeitos foram positivos, ainda que o problema siga longe de uma solução. Pois a quantidade de desinformação segue em volume muita acima do tolerável, e os ataques rasteiros continuam. Mas as ações estão um pouco mais transparentes, o que naturalmente inibe a falta de escrúpulos de alguns candidatos.

No Facebook, por exemplo, é possível confirmar que, ao custo de mais de R$ 49 milhões, os serviços ligados à marca (o que inclui também o Instagram) veicularam quase 600 mil anúncios sobre temas sociais, eleições ou política brasileira desde agosto. São Paulo é o Estado que responde pela maior fatia do investimento, mas a disputa em Fortaleza chama a atenção, com quatro dos candidatos entre os dez que mais abriram a carteira para Mark Zuckerberg até o momento.

A cifra nacional é pequena em comparação com o que acontece nos Estados Unidos, onde as campanhas de Donald Trump e Joe Biden gastaram o equivalente a mais de um bilhão de reais de janeiro a novembro. Mas tende a aumentar muito na reta final do primeiro turno, quando o desespero bate, e campanhas propositivas percebem a necessidade do confronto — que o diga Guilherme Boulos, que disputa com Celso Russomanno e Márcio França uma vaga no segundo turno da capital paulista.

Uma busca por “Bolsonaro” confirma que os maiores investimentos em anúncios ocorreram nas semanas que antecederam os dois turnos de 2018. Faltando sete dias para a votação de 2020, as menções ao sobrenome presidencial só crescem, com 850 anúncios ativos, quase sempre da parte de candidatos nanicos que almejam o voto bolsonarista. Mas também da parte de opositores do presidente da República. Desde 26 de outubro, por exemplo, uma postagem de Lindbergh Farias já foi vista mais de um milhão de vezes. Nela, o candidato promete que, como vereador carioca, lutará para que o Rio de Janeiro, “tão abandonado por Crivella e Bolsonaro“, volte a ser feliz. Para um alcance tão grande, o ex-senador não precisou investir mais do que 6 mil reais.

Direita x esquerda

A exemplo do que ocorreu há dois anos, a polarização tem sido a grande aposta. As necessidades das maiores capitais foram colocadas de lado em benefício de posicionamentos ideológicos, ora conservadores, ora liberais, ora antifascistas. Há, claro, algumas mensagens sobre temas típicos dos municípios, mas só costumam engajar quando servem para ampliar a rejeição de algum prefeito que mira a reeleição — vide a cara reforma que a gestão de Bruno Covas em São Paulo promoveu no Vale do Anhangabaú.

Vale registro também o negacionismo de muitos militantes, quase todos bolsonaristas, que garimpam votos criticando as necessárias medidas sanitárias para conter o avanço do coronavírus. Os ataques atingem até qualquer adversário que não endosse tratamentos sem qualquer comprovação científica.

No outro polo, houve muita discussão sobre a formação de uma “frente ampla” que unisse as esquerdas em benefício de um projeto que casaria votos ideológicos nas principais capitais. Em Belém, uma iniciativa do tipo lidera a disputa. Nas demais praças, as divergências locais falaram mais alto, fazendo com que o discurso só se unifique na defesa de pautas identitárias — em defesa das mulheres, da população LGBT, ou no ataque ao racismo estrutural da sociedade.

Se nada disso der certo, e o resultado da eleição americana fortalece a sensação de que a era dos outsiders pode estar se encaminhando para um fim breve, todo esse trabalho há de servir de alicerce para a eleição geral de 2022, essa sim aberta a debates mais ideológicos, principalmente de natureza legislativa. Pois não falta no Brasil quem, ganhando ou perdendo, use as eleições municipais para voos mais altos dois anos depois. E não há motivos para achar que em 2020 tenha sido abandonada. /Marlos Ápyus

Foco Nisso

Em São Paulo, reta final é marcada por disputa acirrada pelo segundo turno

Na última semana antes do primeiro turno da eleição, a Capital paulista tem uma disputa acirrada por uma das duas vagas ao segundo turno. Com o derretimento de Celso Russomanno (Republicanos), candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, o segundo lugar está empatado com Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB). 

O prefeito Bruno Covas (PSDB), ao que indicam as pesquisas, tem vaga consolidada, com 28% das intenções de voto, segundo o último levantamento do Datafolha. No pelotão logo abaixo, no entanto, Russomanno, em tendência de queda, registrou 16%, seguido de Boulos, com 14%, e França, com 13%. A disputa ainda tem um outro candidato com potencial de crescimento na reta final, Jilmar Tatto (PT). Apesar de ter 6% das intenções, o petista tem a estrutura de um dos maiores partidos no páreo.

Nesse cenário e sem margem para acomodação das campanhas, a briga promete ser acirrada na última semana antes do pleito. 

Russomanno pretende apelar ainda mais ao eleitorado bolsonarista nesta última semana. De acordo com o marqueteiro do candidato, Elsinho Mouco, a estratégia será de colocar o presidente como protagonista das peças publicitárias e atrelar o nome do candidato ao de Bolsonaro ao máximo. 

“Tem muita gente bolsonarista que ainda não sabe que o presidente está apoiando o Celso. Vamos ser propositivos e bolsonaristas, esses dois pilares são o que levaremos no final da campanha”, afirmou ao BRP. Desde o fim de semana, o presidente tem aparecido na propaganda eleitoral do candidato na TV, em que pese a alta rejeição a nomes indicados pelo chefe do Planalto nesta eleição.

Além da queda nas intenções de votos, Russomanno também viu a sua rejeição crescer mais do que a de todos os outros candidatos na cidade. Elsinho atribui esse crescimento ao caixa da campanha inferior ao de outros candidatos em São Paulo. 

O Republicanos, que em São Paulo fazia parte da base da gestão Covas, repassou ao candidato R$ 977 mil até o momento. “Ele teve 10% do valor que o Bruno teve. Isso prejudicou na questão da rejeição, é muita gente batendo. Porque não existe gratuidade em rede digital. O investimento digital é fundamental para a formação da persona do candidato”, justifica Mouco. 

Segundo o marqueteiro, a perspectiva é de que o partido libere mais verba a Russomanno no segundo turno. “Com mais tempo, aí, sim, vamos montar uma estrutura tipo a que o Bruno teve no primeiro, muito tempo, uma verba maior, o partido vai passar um orçamento maior para o Celso”, afirmou. 

De acordo com o marqueteiro, Bolsonaro também não planejou nenhuma ação específica de apoio à campanha para esta semana e a expectativa é de que ele reforce a atuação para além de suas lives apenas num eventual segundo turno.

Já a aposta de França em uma candidatura mais de centro e potencial ida ao segundo turno é cenário que assusta os tucanos, que em 2018 obtiveram menos votos que o ex-governador na Capital no pleito ao governo estadual. Ciro Gomes, do PDT que forma coligação com o PSB na chapa, virá à cidade nesta semana fazer campanha para França. 

Segundo o coordenador da campanha do candidato, Raul Cruz Lima, o foco será no que chamou de “pessoas comuns”, que não dariam importância a partidos ou espectros políticos de direita ou esquerda. 

“Nas pesquisas que a gente faz, por exemplo, vejo coisas absurdas, como uma pessoa falando que sempre votou no Lula, na última eleição, votou no Bolsonaro. Por causa do Bolsonaro, está pensando em votar no Russomanno, vamos ver como ele se comporta, se ele não se comportar bem, aí eu vou votar no Márcio França”, aposta o estrategista. A expectativa é de que o discurso anti-Doria adotado pelo candidato possa rendê-lo votos de bolsonaristas que rejeitam o governador, que derrotou França no Estado em 2018. 

Já no campo tucano, a ordem é “não mexer em time que está ganhando”. Segundo o coordenador da campanha de Covas, a ideia é reforçar a mensagem nesta semana de que o prefeito é o mais preparado para o cargo, uma vez que enfrentou queda de edifício no centro da cidade, queda de viaduto, ponte, enchente recorde dos últimos 70 anos, pandemia de covid-19 e um câncer. “Não vamos mirar nos adversários nem fazer mágica”, diz Wilson Pedroso, acrescentando, no entanto, que irão “combater as fake news”, o que pode ser traduzido em judicializar ataques de adversários.

A equipe de Boulos pretende mirar na periferia da Capital, onde o líder do MTST não é tão conhecido, e em debates nesta semana. Seu coordenador de campanha afirma que vão seguir com agendas presenciais e atrações nas redes sociais. “Estamos em segundo lugar na pesquisa espontânea e temos uma taxa de conhecimento relativamente baixa, o que mostra que, à medida que os eleitores têm acesso às nossas propostas, há uma grande probabilidade de que eles votem na nossa candidatura. A próxima semana também terá uma série de debates, o que deve fazer com que o candidato se divida entre agendas de rua e a presença neles”, afirmou Josué Rocha.

Do mesmo mal do desconhecimento passa o petista Tatto. Nesta semana, a campanha pretende visitar todas as zonas eleitorais da Capital e investir de forma incessante na periferia para torná-lo menos estranho ao eleitorado, além de exibi-lo mais em entrevistas. O ex-prefeito Fernando Haddad também deve reforçar o time nesta reta final. Mais críticas a Covas também estão no radar. / Roberta Vassallo e Alexandra Martins

Com chance de desempenho fraco, Bolsonaro dobra aposta e intensificará apoio a candidaturas

O presidente Jair Bolsonaro em visita que declarou apoio a Celso Russomanno na eleição municipal

O presidente Jair Bolsonaro em visita a São Paulo com o candidato Celso Russomanno Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

O apoio, até agora pouco entusiasmado de Jair Bolsonaro a candidatos ao pleito municipal, se intensificará na última semana antes do primeiro turno. O presidente, que periga não ter nenhum de seus apadrinhados a prefeituras de Capitais no segundo turno, anunciou que irá dobrar a aposta e terá o seu próprio “horário eleitoral” todos os dias da semana para fazer propaganda aos seus candidatos. 

A estratégia ocorre enquanto os concorrentes em que Bolsonaro aposta as fichas nas principais capitais seguem em tendência de queda nas pesquisas de intenção de voto e alta na rejeição. Até agora, o apoio do presidente foi tímido e se resumiu, exceto pelas breves aparições no horário eleitoral de Marcelo Crivella, no Rio, e Celso Russomanno em São Paulo, a breves menções na live semanal das quintas-feiras. 

A jogada de usar a live, feita de dentro do Palácio da Alvorada, com estrutura da Presidência da República, pode render inclusive mais uma investigação para a conta de Bolsonaro. O Ministério Público Estadual do Rio já abriu apuração, a pedido da Procuradoria Regional Eleitoral, sobre o caso. O uso da máquina pública em campanha é vedado pela legislação eleitoral. 

Segundo anunciou nas duas últimas lives, Bolsonaro endossa, além dos candidatos do Rio e de São Paulo, pleiteantes em algumas outras capitais. Em Belo Horizonte, o presidente apoia Bruno Engler (PRTB), que tinha 3% das intenções de voto no último levantamento do Ibope. Em Manaus, o apoiado é Coronel Menezes (Patriota), com 5%. A aposta do presidente com as maiores chances de disputar um segundo turno é em Fortaleza, com Capitão Wagner (PROS), que tem 27% da intenções, mas vem em tendência de queda enquanto os adversários continuam subindo nas pesquisas. 

O apoio do presidente, até agora, não aparenta ter trazido benesses aos candidatos. Pelo contrário, ao invés de transferir a popularidade, Bolsonaro tem arriscado a transferência da sua rejeição, mais alta em capitais, aos seus candidatos. Russomanno e Crivella são dois exemplos da tendência. Ambos caíram desde o início da campanha na intenção de votos e figuram com rejeição alta. Crivella manteve o índice acima de 50% e Russomanno registrou uma disparada, sendo o candidato que mais cresceu na rejeição em São Paulo, com 38%.

Para o cientista político da UnB David Fleischer o possível desfecho, como apontam pesquisas, de insucesso de candidaturas apoiadas pelo presidente nas principais capitais será reflexo das próprias escolhas de Bolsonaro. “Bolsonaro escolheu mal. Russomanno em São Paulo já foi candidato três ou quatro vezes antes e sempre morreu na praia. O presidente deveria ter reparado nisso. No Rio, o Crivella, também não deve ir para o segundo turno, mais uma vez Bolsonaro escolheu mal”, avalia. “Mas eu não acho que o seu apoio aos dois afundou os candidatos, eles se afundaram sozinhos.”

A avaliação de especialistas é que a intensificação do apoio nesta semana também não deve fazer muita diferença aos candidatos, ao menos em grandes cidades.

O cientista político da FGV Jairo Pimentel pontua que o presidente tem uma capacidade debilitada de alavancar candidaturas. “A transferência de popularidade é uma coisa bem difícil de ser realizada. Lula em 2012 até conseguiu fazer isso com Haddad em São Paulo quando Haddad era pouco conhecido, mas era um contexto muito diferente, em que o PT e Lula estavam muito bem”, pontua. “Bolsonaro, nas capitais, nos grandes centros urbanos, não está bem, a aprovação dele é baixa em São Paulo, também não é boa no Rio e isso afeta a sua capacidade de transferir.”

Risco em 2022 à vista

De acordo com os cientistas políticos, a associação do presidente a candidaturas sem sucesso não deve ter forte impacto na imagem e popularidade de Bolsonaro. Uma outra tendência que pode se consolidar na eleição municipal, no entanto, pode abrir caminho para um risco aos planos do chefe do Planalto de se reeleger em 2022: o fortalecimento da centro-direita em cidades com projeção nacional.

Considerado por Bolsonaro como sua principal ameaça, o governador João Doria (PSDB) é a potencial candidatura mais forte até o momento colocada no lado do espectro para a Presidência. Na avaliação de Pimentel, se uma candidatura de centro-direita chegar ao segundo turno em 2022, o perigo ao presidente será maior. “Ainda temos resquícios fortes do antipetismo e de uma onda de direita”, lembra. 

A tentativa de enfraquecer Doria foi o que levou Bolsonaro a apoiar Russomanno em São Paulo. A esperança do presidente era derrotar o prefeito Bruno Covas (PSDB) na Capital e mexer com os apoios políticos do governador, enquanto fatura a cidade mais populosa do País para o seu lado. Segundo as tendências indicadas pelas principais pesquisas, a maior probabilidade é de que isso não aconteça.

Nesse cenário, a movimentação de Bolsonaro para “varrer” a esquerda do nordeste e canalizar o apoio popular da região para si pode se voltar contra ele no próximo pleito, se ocorrer o que o especialista chama de uma “tempestade perfeita”: o solapamento da esquerda no nordeste e no norte, manutenção do enfraquecimento de partidos de esquerda e o amadurecimento do centro nacionalmente. /R.V.

Câmara de São Paulo deve eleger vereadores-celebridade

Câmara dos Vereadores pode ter rostos conhecidos em 2021. Foto: Felipe Rau/Estadão

A eleição do próximo dia 15 de novembro deve trazer celebridades de fora da política à Casa. O perfil, no entanto, não deve ser tão alterado, seguindo a tendência de 2016. Dos 55 parlamentares municipais, 19 buscam a reeleição. Se o cenário se confirmar, o quadro de partidos na Casa deve se manter favorável ao atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), que lidera a corrida pela reeleição.

A possível novidade, que já é aguardada pelos partidos, é a eleição de nomes famosos fora da política. Entre eles, por exemplo, estão os ex-atletas olímpicos Maurren Maggi (DEM) e Diego Hypólito (PSB). Além do ator Thammy Miranda (PL), do empresário conhecido como Turco Louco (PSDB) e de Dedé, dos Trapalhões (PTC).

O número de candidatos a vereador em São Paulo neste ano é o maior desde as eleições de 2008, quando os dados passaram as ser disponibilizados integralmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram 1.996 pedidos registrados (considerando apenas os aptos), um aumento de 51,8% em relação a 2016, quando 1.227 candidatos pediram registro e estavam aptos a concorrer.

Atualmente, o quadro do Legislativo municipal por partidos está assim: PSDB (12); PT (9); DEM (6); Republicanos (4); PL (4); PSB (3); PSD (3); Podemos (2); Cidadania (2); MDB (2); PSOL (2); PTB (1); PSL (1); PSC (1); Novo (1); Patriota (1). A outra vaga está sem partido, pertence ao vereador Gilberto Natalini, que foi eleito pelo PV.

Questionados pelo BRPolítico sobre a previsão que têm para a eleição deste ano, os partidos se mostram confiantes e indicam que acreditam na possibilidade de eleger mais nomes do que têm atualmente.

Os tucanos apostam que vão conquistar 14 cadeiras; o Republicanos projeta de 5 a 7 vagas; PTB e Podemos sonham eleger 5 vereadores cada; PSD e PSOL projetam um número entre 4 a 5 cada um; MDB aposta em 3 cadeiras; o Novo e o PL informaram não possuir esses cálculos. Os demais partidos não responderam até o fechamento da reportagem. Cada partido pode lançar uma chapa de candidatos de até 84 nomes.

Coligações

Com 11 partidos, incluindo o PSDB, a coligação da qual o prefeito de São Paulo faz parte terá 765 candidatos a vereadores concorrendo.

A segunda maior coligação, do ex-governador Márcio França (PSB), tem cinco partidos e 378 postulantes ao Legislativo municipal.

O segundo colocado nas pesquisas à Prefeitura, Celso Russomanno tem em sua coligação o seu partido, Republicanos e o PTB, que juntos somam 166 candidatos registrados.

Terceiro candidato mais bem colocado na disputa majoritária, Guilherme Boulos tem PSOL, PCB e UP em sua coligação. No total, 72 candidatos a vereador concorrem pela coligação.

Perfil dos candidatos

De acordo com dados do TSE, o perfil médio do candidato a vereador em São Paulo é composto por homem, branco, com idade entre 40 e 59 anos. A profissão declarada mais frequente entre os postulantes é a de empresário.

O grau de escolaridade, também representa uma característica marcante, com 51,7% dos concorrentes possuindo curso superior completo. Pela declaração, candidatas e candidatos casados também são maioria, sendo 42,5% dos declarantes; seguidos de solteiros (39,9%) e divorciados (14%). / Cássia Miranda

Derrota para Trump; impasse para o Partido Republicano

​Enquanto escrevo estas linhas, Joe Biden lidera a corrida à presidência dos Estados Unidos em todos os principais estados em que ainda ocorrem apurações: Arizona, Nevada, Geórgia e a última grande fatia da torta, a Pensilvânia, com seus 22 votos eleitorais. A eleição continua, porém a disputa já acabou. Para além das minúcias comuns em um sistema eleitoral antiquado como o americano, Biden já é o 46° presidente dos Estados Unidos da América.

​Se faltam dados para entender o tamanho da vitória, a derrota pode ser dividida em duas partes. A primeira delas também é a mais lógica: Donald Trump passa a figurar na curta lista de presidentes americanos que não conseguiram se reeleger (agora são 11). A segunda requer tempo para ser digerida, contudo pode alterar o quadro político dos EUA.

​Trump perdeu. Uma derrota que certamente representará um baque para o projeto de poder nacionalista-pentecostal que há 4 anos assombra democracias em todo o mundo. Seu discurso racista, xenófobo e misógino também sofreu um duro golpe.
​Entretanto o mais novo ex-presidente permanece relevante no universo conservador americano. Por maior que seja a repulsa à sua postura — e mesmo que deixe a Casa Branca antes do que se esperava —, Trump ainda reúne popularidade suficiente para influenciar as ações do GOP. Inclusive, por que não, pode voltar a disputar a presidência em 2024.

​Dá-se então um dilema de repercussões imprevisíveis. O trumpismo foi capaz de sequestrar o partido de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt e Ronald Reagan. E o fez de tal forma que, para muitos, Partido Republicano virou sinônimo de “Partido de Trump”. Essa situação, no entanto, jamais foi aceita por nomes fortes da legenda, como a família Bush, o falecido senador John McCain e o ex-candidato Mitt Romney.

A dúvida agora é sobre o futuro. Um racha de proporções inéditas não pode ser descartado. O trumpismo enseja sentimentos que vão de encontro não só à história dos republicanos, mas à própria fundação dos Estados Unidos.

​A ala moderada terá forças para dar um cavalo de pau e levar o partido de volta aos dias anteriores ao surgimento de Donald Trump, abrindo o caminho para o conservadorismo clássico, nem de longe parecido com os discursos e as posturas destrutivas dos últimos anos? Só o futuro dirá.

Descontada a eleição presidencial, os republicanos não saem por baixo — até o momento conseguem se manter no controle do Senado e são maioria na Suprema Corte. Contudo é inegável que Trump deixou marcas.

​Para o bem do equilíbrio da democracia americana, e por que não dizer mundial, vale acompanhar essa disputa interna. E torcer para que um mínimo de normalidade volte a prevalecer no coração de um partido que jamais teve sua imagem tão manchada como agora. /Mario Vitor Rodrigues

Aprovação de medidas econômicas até final do ano é vista como ‘ficção científica’

O governo está em uma enrascada digna de filme de ficção científica. A equipe econômica e os líderes do governo no Congresso tentam, de uma forma ou de outra, fazer a Câmara e o Senado encontrarem uma solução que permita  votar o pacote de medidas que, se aprovadas, levariam o País “de volta para o futuro”. Só que um acordo que faça os projetos andarem parece nesse momento tão inconcebível quanto viagem no tempo de Hollywood.

São cinco textos apresentados por Paulo Guedes para lideranças do Congresso que seriam “fundamentais” para retomada da economia: a PEC Emergencial, a autonomia do Banco Central, o novo marco do gás, a lei das falências e o BR do Mar, que trata de incentivos à cabotagem. Juntos, representariam a possibilidade do governo cortar uma fatia considerável de custos e, ao mesmo tempo, incentivaria setores importantes.

A PEC Emergencial, que contemplaria também o pacto federativo, por exemplo, poderia abrir um espaço no orçamento na casa de R$ 24,5 bilhões, segundo cálculos do Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado. O marco do gás traria, de acordo com as contas da equipe econômica, investimentos na casa dos R$ 43 bilhões para o País. E o incentivo à cabotagem faria o setor crescer na casa dos 30% ao ano e permitiria na próxima década a chegada de novas empresas ao Brasil.

Só que, nas palavras de um parlamentar ao BRP, “o ano acabou”. Com a obstrução do Centrão devido ao imbróglio na Comissão Mista de Orçamento (CMO), o tempo após as eleições será todo voltado para a tentativa de um acordo que permita votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).

Por enquanto, a promessa é que a obstrução feita pelo Centrão, na tentativa de emplacar um indicado de Arthur Lira (PP-AL) para presidência da CMO, dure no mínimo até o fim do primeiro turno das eleições municipais.

Além disso, a cabeça das lideranças estará voltada para a sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ou seja, o esforço será para angariar apoios na disputa pela mesa diretora. E ninguém deverá estar disposto a defender projetos polêmicos, cujo consenso seria construído a duras penas.

Tempo escasso

Outro problema apontado, além das prioridades na para os parlamentares, é a falta de tempo. Além das pautas econômicas, o Congresso terá de arrumar espaço para votar textos inadiáveis. A obstrução do Centrão atrasou a votação de várias medidas provisórias que precisam ser aprovadas. Como a trata da prorrogação de contratos do Incra.

Há ainda a necessidade de votar vetos presidenciais parados na pauta. Mesmo com a desoneração da folha já resolvida, há ainda os vetos ao marco do saneamento e ao pacote anticrime. O plenário da Câmara e do Senado ainda têm que deliberar sobre a regulamentação do Fundeb, considerada fundamental para que o dinheiro chegue aos Estados e municípios no início do próximo ano.

Tudo isso com cerca de 6 semanas até o início das festas de final de ano e, consequentemente, do recesso parlamentar. O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR) diz que haverão convocações de sessão em janeiro para tentar fazer a pauta andar. Entretanto, parlamentares frisam que, sem acordo, não adianta ter sessão. E que uma pacificação entre Lira e Maia, faltando pouco para o início do próximo ano legislativo, seria algo, ai sim, digno de cinema./Gustavo Zucchi

Agenda

Segunda, 09 DE novembro

  • Banco Central divulga Boletim Focus
  • Jair Bolsonaro participa do lançamento do programa Aliança pelo Voluntariado e premiação Amigos da Pátria

Terça, 10 DE novembro

  • IBGE divulga levantamento Sistemático da Produção Agrícola
  • BRP entrevista o candidata à prefeitura de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos), às 16
  • BRP entrevista a candidata à prefeitura de Porto Alegre Manuela D’Ávila (PCdoB), às 17h30, pelo Instagram do BRPolítico
  • O vice-presidente Hamilton Mourão participa de live sobre cenário político e econômico para a Fecomércio-RS
  • Paulo Guedes participa de evento promovido pela Bloomberg para falar sobre relação entre países emergentes e os Estados Unidos

Quarta, 11 DE novembro

  • Kássio Nunes Marques participa do primeiro julgamento no STF, sobre a incidência de impostos sobre softwares
  • IBGE divulga resultado do comércio em setembro
  • Bolsonaro participa da construção de termelétrica em Cristalina (GO)

Quinta, 12 DE novembro

  • IBGE divulga resultado do comércio no mês de setembro
  • Bolsonaro abre Encontro Nacional de Comércio Exterior (Enaex)

Sexta, 13 DE novembro

  • Banco Central divulga a prévia do PIB em setembro
  • Paulo Guedes faz participação no Enaex

Expediente:

Edição: Vera Magalhães e Marcelo de Moraes / Reportagem: Alexandra Martins, Cássia Miranda, Gustavo Zucchi, Marlos Ápyus e Roberta Vassallo / Design: Daiana Buffuli