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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

‘2022 não é mais uma eleição contra o PT, é contra Bolsonaro’, diz cientista político

Equipe BR Político

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O primeiro turno da eleição municipal deste ano mostrou uma ressaca do bolsonarismo e dos movimentos “antipolítica” que prosperaram em 2018 nas urnas, com o fortalecimento de partidos tradicionais e mais próximos do centro no espectro político. Nesse contexto, o cientista político da FGV Jairo Nicolau avalia que em 2022, o antipetismo, que pautou a última eleição presidencial, não será mais central, apesar de o sentimento continuar a ter força na opinião pública. Para ele, na próxima eleição, é o antibolsonarismo que entrará em cena.

O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Eraldo Peres/AP

“O antipetismo não está morto, continua alto, na faixa de 30%, mas talvez ele não seja central em 2022. Não é mais uma eleição contra o PT, é contra o Bolsonaro”, afirmou em webinar sobre os resultados das eleições municipais promovido pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da FGV. “A polarização pode não ser nem entre direita e esquerda. Pode haver uma quebra com a esquerda ficando fora do segundo turno pela primeira vez”, aposta.

O especialista concorda com grande parte das análises sobre o primeiro turno do pleito que avaliam que o discurso “antipolítica” perdeu força. Nicolau observa que o tema não apareceu com expressão na campanha deste ano como ocorreu em 2016 e 2018, apesar de movimentos de “renovação”, como o MBL terem lançado muitos candidatos. “A derrota do PSL e dos candidatos que tentavam ser uma espécie de miniatura do Bolsonaro em âmbito local mostram isso. Essas alternativas pela direita não funcionaram”, afirma. “Talvez o eleitor esteja percebendo que a renovação não é um bem em si mesmo”.

Fim das coligações e ‘darwinismo eleitoral’

Outro grande resultado desta eleição que pode refletir no futuro das eleições e da lógica partidária, segundo o pesquisador, é, por conta do fim das coligações para a disputa de cargos proporcionais, o enfraquecimento de siglas menores. Sem a bengala de partidos grandes para fazer campanha e ganhar cadeiras nas Câmaras Municipais, muitas siglas pequenas tiveram dificuldade de atingir a cláusula de desempenho, que define se ela receberá ou não na próxima eleição dinheiro do fundo eleitoral e tempo no horário de propaganda na rádio e televisão.

Com isso, Nicolau afirma que é possível que gradativamente siglas menores decidam se fundir para ter melhores chances em pleitos futuros. O especialista aponta que o efeito só tende a piorar a situação das siglas conforme passam os pleitos se mantida a proibição das coligações. “Câmaras Municipais que tinham seis, sete partidos, agora terão três, quatro. A gente está num processo de enxugamento do quadro partidário”, define. “Olhar para estas eleições é apostar que algumas legendas vão sobreviver, outras vão morrer, é uma espécie de darwinismo eleitoral.”

A aposta do cientista político é de que o PP, Republicanos, PSD e DEM sairão mais fortalecidos. MDB e PSDB também ganharam algum fôlego no pleito. Na esquerda, destaca o PDT, PSB e PT como siglas no jogo. Já a situação do PCdoB, Jairo classifica como “muito difícil”. A Rede é outro exemplo que pode entrar em 2022 sem dinheiro do fundo e tempo de televisão.

Apesar do resultado, Nicolau classifica a regra como positiva, pois impede discrepâncias entre a quantidade de votos recebidos pelos partidos e as cadeiras proporcionais conquistas por distorções causadas pelo sistema de coligação. “Essa mudança gera mais justiça na distribuição das cadeiras aos partidos, mas é mais punitiva à pequenas legendas no âmbito municipal”, avalia.