Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

A favor de lockdown, Nicolelis alerta que Brasil pode colapsar como Manaus

Alexandra Martins

O cientista Miguel Nicolelis tem defendido ao longo da semana que o Brasil adote imediatamente o lockdown nacional caso queira frear a disseminação do novo coronavírus no País. Segundo o neurocientista e professor catedrático da Duke University Medical School, o estrago que o SARS-CoV-2 tem provocado em Manaus é um alerta para o resto do Brasil: “Eu sou você amanhã”, diz. Ontem, o Brasil registrou 200 mil mortos pela covid-19.

Em um mês, o número de sepultamentos em Manaus cresceu 193% em meio à explosão do número de infectados pelo novo coronavírus no Amazonas.

Miguel Nicolelis. Foto: Assessoria MN

BRP – Por que o senhor defende o lockdown total no Brasil?

Miguel Nicolelis – Na primeira onda, a pandemia entrou pelas capitais dos aeroportos internacionais e ela teve um tempo de fazer a transmissão comunitária e se espalhar pelo interior do Brasil, ou seja, houve uma demora, pelo menos, de 3 meses para se interiorizar. E duas Regiões do Brasil, a Sul, representando mais de 30 milhões de pessoas, e a Centro-Oeste, representando mais ou menos dez milhões de pessoas, não entraram em crise nos primeiros meses.

Houve um retardo muito grande de quase 5 meses para essas Regiões entrarem na primeira onda. Achamos que é por causa da incidência de dengue. Nós fizemos um estudo, que está sendo revisado para publicação, mas independente disso, houve um escalonamento do recrutamento dos Estados e interior do Brasil para a primeira onda, e isso facilitou o não colapso do sistema hospitalar num momento só.

Em novembro, começamos a notar uma nova onda, que diferentemente da primeira, estava sendo sincronizada em todo o País. De repente, a Região Sul, que tinha sido poupada, começou a liderar essa sincronia, mas imediatamente esses 30 milhões de pessoas do Sul tiveram pior taxa de crescimento de contágio junto com curvas ascendentes em todas as Regiões do Brasil ao mesmo tempo.

Neste atual momento, segundo análise que eu fiz, todas as capitais da Região Sul, Campo Grande, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e oito capitais do Nordeste têm curvas ascendentes e a maioria delas tem taxas de crescimento maiores do que nos primeiros 20, 30 dias da primeira onda.

Isso significa que o sistema hospitalar, que já está depauperado, que está com menos profissionais porque muita gente ficou doente, muita gente morreu e já não tem os insumos que tinha disponíveis na primeira fase e já está no limite da saturação, vai receber um tsunami de casos pelo País todo ao mesmo tempo. Além disso, vai ter que dar conta dos casos de pacientes crônicos de covid que tiveram sequelas graves o suficiente para produzir óbitos a longo prazo.

Outro fator é que, como os hospitais foram inundados por covid, nós vamos ter aumento de mortes por doenças crônicas de pacientes que não tiveram acesso à saúde, tratamento hospitalar, UTI nesse período. Estou chamando isso de tempestade perfeita.

Reino Unido é um exemplo do que devemos fazer?

Sim, é um caso muito semelhante. Não é porque eles têm um terço da população do Brasil, que nós vamos olhar só nos números per capita. Nós temos que olhar na dinâmica, não é o número absoluto que me interessa, é como o vírus se espalhou lá, e ele se espalhou lá muito mais rapidamente, inclusive entre jovens, crianças, em escolas que estavam abertas, a ponto de o premiê Boris Johnson, que era visceralmente contra o lockdown, abrir as escolas na segunda-feira passada e 24 horas depois ter que fechar todas por 9 semanas e fazer o terceiro lockdown nacional.

Quando você põe tudo isso na sopa, você precisa ter só três sinapses para ver que se o Reino Unido fechou o país inteiro vacinando 500 mil pessoas por dia, não temos outra saída que não o lockdown. As pessoas podem não gostar, podem estar cansadas, eu entendo, eu entendo as dificuldades econômicas de um país que não ajuda o povo a ficar em casa. O EUA ajudaram, o Reino Unido ajudou, Alemanha e até a pobre da Grécia. Já o Brasil não fez o que devia, ainda mais interrompendo auxilio emergencial.

Considerando que tivemos duas ondas de contágio, ainda que o platô sempre esteve nas alturas, a situação agora pode ser pior que no período anterior a outubro, por exemplo?

A situação pode ser pior do que na primeira onda. Se tivemos 200 mil óbitos agora, que é um número que eu questiono, pois eu acho que tem aí uma subnotificação,  e a Fiocruz concorda com a minha análise, podemos ter de 20% a 30% de subnotificação dos óbitos, o que nos poria a um quarto de milhão de vítimas já.

Se tudo que eu falei para a senhora está convergindo de uma maneira catastrófica, como vamos deixar Brasil aberto?

A Inglaterra propôs fazer um lockdown de 6 a 8 semanas para ter uma queda abrupta no número de casos e óbitos para manter o sistema público funcionando, para dar tempo da vacinação diminuir a taxa de transmissão. Eu acho que é muito sensato. Isso foi uma recomendação de um dos melhores comitês científicos do mundo, que é o britânico.

Não é que nós estamos querendo copiar o que eles estão fazendo, nó queremos adaptar as boas praticas que eles tiveram com as nossas boas práticas, que diga-se de passagem funcionaram no Nordeste quando foram implementadas corretamente.

Pode detalhar?

Eu posso dar a prova. Hoje, o Nordeste tem o segundo melhor índice do País das Regiões brasileiras, tanto de casos por cem mil como por óbitos por cem mil pessoas, e daqui a poucas semanas vai ter o melhor em ambas as categorias. Porque a Região Sul, que estava abaixo do Nordeste, por causa da primeira onda, vai ultrapassar o Nordeste rapidamente em alguns dias.

O Nordeste, na primeira onda, que eu considero até meados e final de outubro, o que foi feito lá permitiu que os dois índices mais importantes fosse o melhor do Pais. Só que não adianta fazer só o Nordeste e deixar o restante no País a deus dará.

Como Manaus?

Manaus é um caso impressionante. Nós tivemos um trabalho publicado recentemente de um grupo de brasileiros dizendo que Manaus tinha quase atingido a imunidade de rebanho e que a coisa tinha acabado lá. E não é bem isso A velocidade do colapso de Manaus dessa vez foi mais rápida. Isso pra mim é um experimento do que pode acontecer em nível nacional.

Se Manaus já tinha colapsado uma vez e se agora tivemos um novo colapso, veja, esse colapso é pior porque ele não é só hospitalar, ele pode se transformar, em menos de dois meses, num colapso funerário, que é a pior consequência de uma pandemia. Aliás foi o que matou um monte de gente na pandemia de 1918, o fato de que cidades americanas como Nova York, Filadélfia e Boston não davam conta do numero de corpos. Você começa a ter infecções secundárias, como contaminação do lençol freático e uma série de outros problemas sociais dramáticos. Manaus, infelizmente, porque é muito duro falar isso, está dizendo para nós: ‘Olha, eu sou você amanhã’ para o resto do Brasil.

Por isso achei que seria importante fazer um alerta agora. Não estou nem computando os casos das aglomerações de fim de ano. Se já estamos com taxas de aceleração mais altas em número muito grande em capitais do que na primeira onda, imagine com afluxo de casos que foram gerados pelas festas de final de ano.

Quais são os exemplos mais bem-sucedidos estudados pelo senhor?

Eu tenho dois exemplos, que eu vou dar até o final desta pandemia. O primeiro é o da Grécia. Eu sempre olho para a Grécia porque a minha família é de lá. A Grécia fechou o país em 48 horas após a detecção do primeiro caso. É um país onde o sistema público de saúde está completamente falido. O lockdown foi a melhor resposta do oeste europeu. Hoje a Grécia está desesperada porque tem 5 mil mortos no total.

O segundo exemplo é o Vietnã, com cem milhões de pessoas. É um país que não chega nem perto em infraestrutura de medicina que o Brasil tem, que sofre com epidemias de dengue, zica, malária. Eles têm 35 mortes por covid. O que eles fizeram? Eles também não são nenhum gênio da medicina. Fecharam o país, mantiveram a população em casa, ofereceram apoio alimentar, financeiro, foram de casa em casa testando, criaram o que a gente fez no Nordeste, as chamadas brigadas emergenciais de saúde, as equipes da saúde da família foram de casa em casa, isolando as pessoas contaminadas. Eles tiveram 200 pacientes internados em UTI. Eles quebraram a transmissão do vírus na trincheira onde o vírus ataca a gente: na casa das pessoas, nos lugares de trabalho, e fizeram o lockdown no país inteiro.

Eu desafio qualquer pessoa no Brasil a provar que o lockdown, onde foi feito corretamente, não funcionou. Não tem.

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