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por Marcelo de Moraes

‘A política é machista também nas disputas eleitorais’, avalia Teresa Surita

Cassia Miranda

Única mulher a ser eleita para governar uma prefeitura de capital nos pleitos de 2012 e 2016, a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (MDB), convive com o machismo na política desde que entrou para a vida pública, no final dos anos 80.

A prefeita de Boa Vista, Teresa Surita. Foto: Andrezza Mariot

Um dia após as urnas do Brasil repetirem o placar de quatro e oito anos atrás, com apenas uma prefeita eleita em capital – Cinthia Ribeiro (PSDB), que foi reeleita em Palmas -, Teresa avalia, em entrevista ao BRPolítico, o saldo das eleições de 2020 para as mulheres.

“Nós estamos longe ainda de alcançar algo ao mesmo parecido do que têm os homens na política. Isso é a realidade e não é porque temos menos capacidade é porque a política é machista”, diz. 

Com exemplos que viveu na pele, ela expõe o preconceito que ainda impede a ampla participação feminina na política.

“Todas as vezes que citam o meu nome – e eu posso ter feito o maior trabalho do mundo, entre parênteses vai estar ‘ex-esposa do senador Romero Jucá’. Você quer um preconceito maior do que esse?”, questiona.

Das 5.567 cidades onde houve eleição à prefeitura neste ano, mulheres conseguiram ser eleitas em apenas 658 delas (651 em 1º turno e 7 em 2º turno).

Na avaliação da prefeita em final de mandato – mas que garantiu a eleição do atual vice-prefeito para sua sucessão -, o preconceito contra a mulher no meio político foi acentuado a partir da eleição do presidente Jair Bolsonaro. Em contrapartida, ela acredita que com o democrata Joe Biden à frente da presidência dos Estados Unidos, a política internacional pode dar um passo à frente na busca por igualdade entre homens e mulheres.

Mas a tarefa, ela alerta, não é fácil. “Não vejo, em curto prazo, uma mudança que possa ocorrer. Acho que é mesmo na luta diária, é se colocar em vários locais onde tenha voz, talvez não só com mandato, mas nos espaços que aparecerem”, avalia.

Leia a entrevista na íntegra:

BRP – Neste ano, as candidaturas femininas bateram recorde, mas ainda assim a gente viu se repetir o mesmo número de prefeitas eleitas em capitais de 2012 e 2016, quando a senhora venceu. Qual o saldo para as mulheres nesta eleição?

Teresa Surita – É muito difícil a política para a mulher, é uma coisa bem cruel, porque a própria política, em si, já é machista. Nos últimos anos, vejo que isso piorou com a postura do presidente (Jair Bolsonaro), com o que nós passamos em 2018. Então ficou algo ainda mais duro. A cobrança na política para a mulher vai desde que ela mude o seu jeito de ser e de falar, ela tem de provar duas vezes a sua capacidade, às vezes três, quatro, porque existe, sim, uma diferença, até uma diferença (entre homens e mulheres) de tom de voz dentro de uma reunião, por exemplo. Então, não é fácil, não é fácil mesmo. Isso já é uma história recorrente, não é uma coisa nova, mas se reforça agora. Em 2016, fui a única prefeita de capital eleita, agora a Cinthia (Ribeiro, do PSDB) foi em Palmas. Nós estamos longe ainda de alcançar algo ao menos parecido do que têm os homens na política. Isso é a realidade e não é porque temos menos capacidade é porque a política é machista. Ela é machista no Congresso, ela é machista em todos os lugares e também nas disputas eleitorais. Eu acho que só com o tempo mesmo (para isso mudar), a gente tem de continuar lutando.

A senhora citou a eleição de 2018, como ela influenciou nesse contexto?

Acho que com a eleição do presidente Bolsonaro, isso reforçou um pouco (o machismo). Muita coisa aí eu acho que mudou o olhar em pontos que a gente já estava num avanço maior. E a questão da mulher na política é uma delas (em que regrediu).

A senhora vê isso aí em Boa Vista?

Aqui, por exemplo, nós tivemos uma vereadora que surpreendeu e se elegeu. Mas, o próprio partido esperava que fossem dois vereadores a se eleger. E ela surpreendeu e fez mais votos, ganhou a eleição. Sempre que uma mulher se elege é surpresa! É difícil a luta, é cruel, você tem de sempre estar se colocando, provando, buscando os apoios necessários. É barra pesada mesmo.

Como incentivar a participação da mulher no debate político?

A política, hoje, desanima a participação da mulher. Porque é um ambiente muito machista mesmo, muito pesado. Existe ainda o preconceito de que o papel da mulher é mais social, voltado à educação, à criança. O que é um negócio totalmente errado, mas existe isso ainda. Quando você vai participar de uma reunião com homens, sempre o tema que eles consideram mais feminino é o que fica para você. Vencer esse preconceito é uma coisa que ainda está muito longe. Talvez agora com a eleição do (Joe) Biden nos Estados Unidos, onde ele coloca pela primeira vez na história uma senhora de 74 anos para cuidar da parte econômica, em se tratando de Estados Unidos, isso possa ser um bom exemplo. Ou talvez em países em que a atuação da mulher faz a diferença, como foi agora na pandemia.

De que maneiras a senhora já sentiu o preconceito por ser mulher ao longo da sua trajetória na política?

Tenho uma aprovação de mais de 90%, elegi um prefeito que era desconhecido, e, pela primeira vez na minha história, ontem saiu que eu fui o braço direito do Arhur (Henrique, do MDB) nesse processo, porque em todos os lugares, na minha história, com todos os jornalistas, em todas as vezes que citam o meu nome – e eu posso ter feito o maior trabalho do mundo – entre parênteses vai estar ‘ex-esposa do senador Romero Jucá’. Você quer um preconceito maior do que esse?

Como interpretar o fato de que a parcela feminina no eleitorado é maior do que a masculina, mas poucas mulheres são eleitas?

Não tem relação entre o fato de ter maior número de eleitoras. Tem a ver com estrutura de partido. É muito comum os partidos falarem ‘preciso de mulher para preencher a cota’. A mulher recebe um pouco mais de valor financeiro na campanha por lei, mas como é que é isso, com o que ela recebe ela está competindo em igualdade com os homens? Não sei se é bem assim, não sei se essas regras trazem algum tipo de benefício para as mulheres.

Como é possível mudar essa realidade?

Não vejo, em curto prazo, uma mudança que possa ocorrer. Acho que é mesmo na luta diária, é se colocar em vários locais onde tenha voz, talvez não só com mandato, mas nos espaços que aparecerem. É um processo que deve ser olhado cada vez mais pelas próprias mulheres. Porque dentro dos partidos é só homem que comanda.

Durante a sua gestão, qual foi o espaço que as mulheres tiveram?

Por um acaso, formei uma equipe de governo em que a maioria dos cargos está ocupada por mulheres. E fiz isso buscando competência. Tive uma condição extraordinária nos meus dois mandatos onde eu não precisei indicar nenhum acordo político para lugar nenhum. Então, pude escolher de acordo com a capacidade de cada um. Houve momentos em que eu tinha 75% dos cargos ocupados por mulheres. Para mim, escolher entre um homem e uma mulher, eu vendo a competência dela, mesmo que seja em um assunto visto como masculino, isso pra mim não tem importância, eu vou lá e chamo a mulher. O que não acontece normalmente por parte dos homens. Eles olham determinados assuntos como sendo o homem quem tem de assumir. Com isso, eu fiz uma gestão com uma participação muito grande de mulheres. Esse é um assunto difícil de discutir, porque não existe lógica nesse preconceito, mas é assim que é.