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por Marcelo de Moraes

Abalo de siglas pequenas na eleição pode dar início a temporada de fusões partidárias

Equipe BR Político

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O fim das coligações proporcionais tornou o percurso para partidos pequenos ainda mais íngreme na política nacional e a eleição que terminou no domingo, 29, já começou a mostrar sinais disso. Com ainda menos eleitos pelo País no pleito municipal, siglas menores, que já contavam com recurso escasso do fundo eleitoral e tempo de televisão e rádio, devem embarcar em uma temporada que pode resultar em fusões e no desaparecimento de várias siglas nanicas do mapa político-partidário, avaliam pesquisadores.

A ex-minsitra do Meio Ambiente Marina

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Nesta eleição, entre os partidos pequenos que perderam ainda mais força e correm risco de, em 2022, não atingirem a cláusula de barreira, que garante uma quantia mínima do recurso do fundo e tempo de propaganda, estão o PCdoB, a Rede, o PTC, o partido do vice-presidente, Hamilton Mourão, PRTB, o PMN, PMB e o PV, que apesar de não figurar entre os nanicos, reduziu em quase metade os eleitos em âmbito municipal, além de outras siglas que já vinham com dificuldade de expressão nas eleições e sem direito a recurso.

Para o cientista político da FGV George Avelino, especialista em partidos e coalizões políticas, o processo já teve início indiretamente na eleição deste ano. “O número de partidos que lançou candidato a vereador caiu em média pela metade. Fundamentalmente porque vereadores eleitos de partidos pequenos já se mandaram para um partido maior, já anteciparam isso. Todo mundo quer sobreviver”, avalia.

Ele projeta que o fenômeno deve se “concluir” já em meados de 2026, daqui duas eleições gerais. “É muito caro sair para uma eleição. Estrategicamente é melhor fundir quando você está com mais força”, afirmou. “Então hoje o dilema é: se vou para 2022 e me dou pior ainda, vou ficar em uma situação de fusão muito pior do que estou hoje”, projeta.

Uma das siglas que geram a maior dúvida sobre a sobrevivência é a Rede, de Marina Silva. O partido, fundado em 2013, se posicionou como sigla independente no âmbito nacional e em 2018 elegeu dois senadores, mas apenas um deputado federal, cargo considerado na conta que define quais siglas receberão recurso do fundo público e quais não. Neste ano, perdeu força no âmbito municipal em comparação a 2016 e elegeu apenas 154 candidatos.

Outro, mais tradicional, é o PCdoB, partido com mais de 60 anos de existência que já fez parte de uma fusão, com a incorporação do PPL no ano passado. Tanto a Rede, quanto o PCdoB carregam nomes proeminentes na política nacional. Marina Silva e Randolfe Rodrigues são forças conhecidas da Rede, assim como Manuela D’Ávila e Flávio Dino, pelo PCdoB. Na capacidade de eleger parlamentares, no entanto, as siglas patinam e por isso podem ter a sobrevivência colocada em risco.

Avelino destaca que os apoios locais, consolidados no pleito municipal, são essenciais para a eleição de deputados federais. “Eleição municipal é como se fosse um jogo de War. Você está colocando as pecinhas. Não quer dizer que você vai ganhar o jogo, mas sabe onde se pode ter força e onde não tem. Quem foi mal agora está com perspectiva baixa para ir bem em 2022”, explica. “Se elegeu prefeito, vereador, facilita muito, tem alguém fazendo campanha para você. Os Estados são muito grandes. É caro sair viajando de um lado para o outro.”

Quem se fortalece e quem perde

Na perspectiva da Câmara dos Deputados, Casa cuja eleição é estratégica às siglas pelo fator cláusula de barreira, além dos partidos pequenos que enfrentaram ainda mais dificuldades neste ano, algumas siglas maiores também devem enfraquecer em 2022 em detrimento do resultado desta eleição municipal. Definido o segundo turno, em que o PT não levou nenhuma capital, o partido de Lula é forte candidato a um desempenho mais fraco para a Casa daqui dois anos, projeta o cientista político da UnB David Fleischer.

“Tem uma regra informal na política brasileira que é que o partido que elege mais prefeitos dois anos depois deve eleger mais deputados e vice e versa. O PT foi muito mal”, avalia. O PT levou 183 prefeituras no País, contando com as quatro que o partido conquistou no segundo turno. Em 2016, quando já teve forte queda, o partido elegeu 254 prefeitos. Em 2012, o número foi de 638.

Já partidos “tradicionais” do centro e centro-direita se saíram bem. O cientista político aponta para o MDB, PSDB, DEM e PP como destaques neste ano. No segundo turno, o MDB, que já liderava na quantidade de municípios conquistados, se consolidou também em capitais. As cinco em que venceu fizeram dele a sigla que mais elegeu prefeitos em capitais do País, seguido do PSDB, com quatro mandatários eleitos, agora com a vitória de Bruno Covas em São Paulo e Hildon Chaves em Porto Velho. Juntos, MDB, PSDB e DEM controlarão a partir de 2021, metade das capitais do País./ Roberta Vassallo