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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Acusações de Marinho podem reforçar inquérito que apura denúncias de Moro

Vera Magalhães

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As acusações feitas pelo empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro, à Folha, podem reforçar o inquérito do Supremo Tribunal Federal que apura a tentativa de Jair Bolsonaro de interferir politicamente na Polícia Federal. A opinião foi colhida pelo BRP junto a ministros do próprio STF, advogados criminalistas e procuradores neste domingo, depois da publicação da entrevista de Marinho. O ex-bolsonarista presta depoimento nesta quarta-feira, 20, à PF.

O ex-ministro Sérgio Moro

O ex-ministro Sérgio Moro Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Ele disse que Flávio Bolsonaro foi informado ainda em 2018, entre o primeiro e o segundo turnos das eleições, a respeito de investigações sobre seu então assessor parlamentar Fabrício Queiroz, e foi aconselhado a demitir a ele e seus familiares dos gabinetes da família para evitar desgastes caso as acusações viessem à tona.

Ainda de acordo com Marinho, a operação foi adiada para não causar prejuízos eleitorais ao clã Bolsonaro. Flávio teria sido alertado por um delegado da Polícia Federal. Embora a operação que depois atingiu Queiroz e o gabinete de Flávio, batizada de Furna da Onça, tenha sido comandada pelo Ministério Público do Rio, a Polícia Federal tinha ciência da movimentação financeira atípica de gabinetes de deputados estaduais do Rio, cuja descoberta se deu a partir de relatórios do Coaf.

As opiniões colhidas pelo BRP se dividem quanto aos caminhos que podem levar a que as declarações de Marinho reforcem o inquérito que apura se Moro falou a verdade quando acusou Bolsonaro de querer interferir na PF, com foco principal na superintendência do Rio.

Alguns acreditam que tem de ser aberto outro inquérito, pelo fato de as acusações de Marinho dizerem respeito a um período em que Bolsonaro ainda não era presidente, e, portanto, não poderia interferir na PF como tal. Mas, ainda assim, Mello poderia requisitar os depoimentos do empresário e outros colhidos nessa investigação paralela como indícios para seu próprio inquérito.

Outros juristas ouvidos por mim já defendem que Celso de Mello pode pedir o depoimento do empresário no próprio feito já aberto. A defesa de Sérgio Moro deve se manifestar neste sentido. Resta saber o que indicará o procurador-geral da República, Augusto Aras: ele já solicitou que Marinho seja interrogado, mas não indicou que tipo de procedimento pedirá.

A PF soltou nota anunciando uma apuração interna sobre a conduta de um delegado da instituição, conforme relato de Paulo Marinho. Ele não deu o nome do delegado na entrevista.

As revelações de Marinho agravam a já complicada situação de Bolsonaro após a saída de Moro do governo e das acusações gravíssimas formalizadas por ele à PF. Na segunda-feira, as atenções estiveram voltadas para este caso por Celso de Mello ter assistido ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, na qual Bolsonaro disse que pretendia “interferir” na “segurança” no Rio, ainda que precisasse demitir o ministro.

O governo tenta emplacar uma versão segundo a qual o presidente estaria preocupado com a segurança dos filhos, e não com investigações contra eles. O relato de Paulo Marinho reforça a versão de Moro, contrária à de Bolsonaro e seus ministros.

Depois de pedido da defesa de Moro para que o vídeo da reunião seja exibido na íntegra, para que possa ser inferido o sentido das exortações de Bolsonaro, e da manifestação de Augusto Aras de que só os trechos que importam ao inquérito devem ser tornados públicos, o decano decidiu assistir ao vídeo na íntegra antes de decidir, o que deve ser feito.