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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Agrotóxicos: autorizados no Brasil e barrados na UE

Luiza Ferreira

Cerca de 30% dos 96 ingredientes ativos presentes nos agrotóxicos liberados pelo governo brasileiro em 2019 são proibidos ou não são registrados na União Europeia. São 28 ingredientes proibidos ou sem registro no bloco europeu, 36 na Austrália, 30 na Índia e 18 no Canadá, como mostra um levantamento da Folha. O país que tem um registro mais parecido com o do Brasil são os Estados Unidos, que proíbe ou não usa apenas 3 dos ingredientes ativos liberados pelo Planalto neste ano. O Ministério da Agricultura vê o maior número de registro de pesticidas como sinal de “eficiência”. Mas a liberação desses agroquímicos pode prejudicar a venda de commodities, um dos carros-chefes das exportações brasileiras.

Veículo agrícola realiza colheita em campo

Foto: Eduardo Monteiro/Divulgação

Segundo o Ministério da Agricultura, todos produtos aprovados em 2019 são seguros. A ministra da pasta, Tereza Cristina, também afirmou em agosto que a maioria dos pesticidas aprovados são genéricos. “O que houve é que no passado a Anvisa tinha falta de pessoal e também não tinha boa vontade em liberar esses produtos. O que nós estamos liberando hoje, a grande maioria, eu digo, mais de 90%, são produtos que já estão no mercado, mas com as moléculas das empresas principais”.

No entanto, o uso de ingredientes “vetados” – ou não avaliados – pela UE pode trazer alguns impactos comerciais ao País, segundo a ONG Greenpeace. “Estamos vendo uma agenda anti ambiental declarada por parte do governo. Então acho que não é só a questão dos agrotóxicos que pode trazer – e já está trazendo – complicações nas relações comerciais”, disse Marina Lacôrte, coordenadora da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace, ao BRP. Em decorrência da repercussão internacional das queimadas na Amazônia, marcas como Vans e Timberland, por exemplo, suspenderam a compra do couro brasileiro.

“Com relação ao agrotóxico, é lógico que a situação pode ser mais demorada. Você tem uma complexidade maior, porque o Brasil é um grande exportador de commodities. Mas é claro que sim (pode trazer complicações comerciais), principalmente com os alimentos in natura (alimentos minimamente processados, onde a concentração de agrotóxicos costuma ser maior)”, afirmou.

Desde o início do ano, o governo liberou 353 novos agrotóxicos. Para efeitos de comparação, no ano de 2016 inteiro, foram aprovados 277 novos pesticidas. “A gente acredita que isso começará a ser ponderado nos acordos comerciais e nas próprias relações diplomáticas do País”, disse Marina. A ONG ressalta que existem soluções em discussão para reduzir gradualmente o número de agrotóxicos usados na agricultura brasileira. A coordenadora refere-se ao PL 6670/2016, que propõe instituir uma Política Nacional de Redução de Agrotóxicos, e que atualmente tramita na Câmara.