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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Alceu: ‘Motivação da campanha contra o Brasil é disputa de mercado’

Marcelo de Moraes

Para o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Alceu Moreira (MDB-RS), a pressão internacional contra o Brasil por causa das queimadas e desmatamento na Amazônia esconde uma disputa para tentar enfraquecer os produtos do agronegócio nacional no mercado internacional. O Brasil já começa a sofrer a ameaça de punições internacionais, como a proposta de banimento da carne brasileira feita pela Finlândia e a proposta de veto ao avanço do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, como defende a França.

Moreira, que é o principal líder da bancada ruralista no Congresso, não nega que haja problemas ambientais na Amazônia e diz que o setor se oferece para colaborar para encontrar soluções. Mas, em entrevista ao BRP, ele enetende que as críticas ambientais escondem o fato de o Brasil estar sendo atacado pela sua alta competitividade no agronegócio.

BRP – O que o senhor acha das ameaças de sanções comerciais ao agronegócio e ao comércio brasileiro por conta da crise ambiental?

Alceu – “Essa é a motivação principal de todo esse debate de acusações quanto à questão ambiental. Na verdade, este movimento, essa necessidade de punição ao Brasil, está muito mais ligada aos acertos que nós temos com relação à produção agrícola nacional do que com qualquer outra coisa. É uma questão de disputa de mercado. Quando alguém bota uma barreira comercial, o que está tentando? Está tentando depreciar o produto brasileiro para tirar nossa capacidade competitiva. Porque eles não têm mais um palmo de terra para ampliar, eles usaram toda a tecnologia e pesquisa possível e disponível para produzir cada vez mais e, mesmo assim, o custo de produção deles é muito mais elevado. Com a entrada do produto brasileiro, no volume e na qualidade em que nós estamos produzindo, desaloja mercados, cria problema para as outras economias. Isso é uma questão de mercado”.

BRP – O senhor acredita que esses pedidos de punição vão ser efetivados?

Alceu – “Para isso acontecer objetivamente, tem de sair da questão governamental-institucional e ir para a prática comercial. E a distância é muito grande entre governos e o negociador que está comprando o nosso produto para vender no mercado. Porque esse vai precisar, na verdade, de fundamentação científica, técnica. Não pode ser só retórica. Se não responder com absoluta clareza porque está defendendo punição contra o Brasil, não vai convencer”.

BRP – Mas não há problemas na Amazônia?

Alceu  – “O que está acontecendo conosco na Amazônia é um fenômeno, que precisamos cuidar, não tenha dúvida disso. Mas é um fenômeno que acontece todos os anos, quando temos as águas baixas. É sazonal, é normal. Tem lugares que têm maior queimada. Agora, você me pergunta se tem queimada criminosa? Tem. Tem derrubada de madeira criminosa? Tem. Amigo, a Amazônia dá dez países europeus juntos. Seria bom perguntar lá para a Itália, por exemplo, por que eles não conseguem fiscalizar o mar deles para o ingresso de imigrantes. Ou por que o presidente da França não consegue evitar os coletes amarelos? Não consegue. Mas nós, com 180 fiscais do Ibama temos de controlar a Amazônia inteira. É claro que a questão não é a Amazônia. A questão é a quantidade de produção que nós temos e o único fator que gera impacto mundial é a Amazônia. Se não, eles falariam também no mesmo volume da Caatinga. Ninguém fala. Não fala da poluição das áreas urbanas”.

BRP – Que tipo de reação o senhor propõe?

Alceu – “O que a gente precisa fazer é sair desse discurso queixoso e ir para o discurso pró-ativo. Trabalhar com a comunidade internacional, principalmente com os consumidores e mostrar a verdade científica e jornalística sobre esse País e sobre a questão ambiental. Por que a Europa não controlou as queimadas de Portugal? Por que os Estados Unidos não controlam a Califórnia, que está sempre queimando? Por que a Austrália não faz isso? Por que a Amazônia do lado boliviano não têm problemas? Só do nosso? Nada do que nós fizermos será suficiente para resolver. Porque esse é um problema de grande complexidade e multifacetado. Tem os interesses mais diversos envolvidos. Mas é preciso deixar claro que o produtor rural é frontalmente contrário ao desmatamento ilegal e se coloca à disposição do governo para ser parte da fiscalização contra isso”.

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