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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Amapá: Eletricitários cobram da Aneel e governo aponta responsabilidades

Equipe BR Político

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O governo do Amapá afirmou neste sábado, 7, que o fornecimento de energia “vem sendo parcialmente reestabelecido desde a madrugada” no Estado após cinco dias de apagão provocado por um incêndio em transformador na subestação de Macapá. O apagão também comprometeu o fornecimento de água em vários municípios do Amapá. Ao longo do dia, a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) “está testando adequações e ajustes no sistema. O rodízio será em turnos de seis horas”, escreveu o governo no Twitter. Ainda hoje deve ser anunciado um “cronograma de racionamento para os próximos dias”.

Pelas redes sociais, o governo divulgou um conteúdo sobre os responsáveis por cada etapa da geração de energia até a chegada dela dentro de casa.

A energia chega na sua casa através de três etapas principais, e cada uma delas tem seus respectivos órgãos responsáveis.

Geracao – responsabilidade do governo federal e concessionárias

  • A energia é gerada nas usinas hidrelétricas Coaracy Nunes e Ferreira Gomes e segue para as linhas de transmissão.
  • As linhas de transmissão ligam as usinas às subestações, levando a energia em alta tensão.

Transmissão – governo federal e concessionarias

  • Nas subestações, transformadores reduzem a tensão da energia, encaminhando para as distribuidoras

No dia 3/11, um incêndio atingiu o transformador 1 da Subestação de Macapá, danificando por completo um dos transformadores, causando assim a interrupção de fornecimento energia elétrica.

Distribuição – distribuidoras e do governo do Estado

São as distribuidoras que levam a energia ate a casa dos consumidores.

Gôndolas de supermercado em Macapá. Foto: reprodução vídeo Estadão.

Histórico

A crise energética no Amapá não começou com o incêndio, no entanto. A CEA fornece energia sem contrato de concessão, pois foi impedida de renovar a outorga anterior por não cumprir os requisitos mínimos de gestão e eficiência na oferta do serviço, conforme lembra o Valor Econômico. O prazo do leilão da companhia foi prorrogado de fevereiro de 2018 para junho de 2021 por meio da Medida Provisória 998/20, cabendo ao governo estadual concluir a transferência de controle para o setor privado até o fim deste ano, acrescenta.

Segundo informa o Coletivo Nacional de Eletricitários, a espanhola Isolux, através da Isolux Projetos e Instalações, venceu em 2014 o leilão do lote H, com linhas no Pará e Amapá, com Receita Anual Permitida (RAP) de R$ 17,2 milhões (deságio de 3,2%), e assim passou a explorar os serviços de energia elétrica vendendo o produto para a CEA, oferecendo, à época, o menor preço.

“Informações veiculadas em jornais nacionais e internacionais mostraram que a ISOLUX passou por dificuldades financeiras e abandonou projetos no Quênia, deixando o prejuízo na mão do governo do país, que teve que contratar empresa chinesa para terminar o serviço, em Indiana, nos Estados Unidos, e em 2017, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) iniciou um processo que visou recomendar a cassação de pelo menos dois contratos de concessão da espanhola ISOLUX COSAN, visto que, segundo foi apurado pela Agência Canal Energia, além de descumprir prazos envolvendo o cronograma de implantação dos projetos de infraestrutura de energia, a empresa demonstrou incapacidade econômica e financeira para executar as obras”, afirma o órgão que congrega as entidades representativas dos trabalhadores e trabalhadoras do setor elétrico nacional.

Em nota divulgada ontem, o CNE informou que em outubro se reuniu com a Casa Civil para reivindicar a construção de uma segunda casa de força na hidrelétrica Coaracy Nunes para reforçar o sistema do Estado, com a adição de mais 220 megawatts à geração elétrica do Amapá. Destaca que o Estado é alvo de intensas descargas atmosféricas, apontadas como a provável causa do incêndio no transformador, mas observa que segundo informações de trabalhadores da empresa, o segundo transformador estava em manutenção e o terceiro apresentou vazamento, o que causou a tempestade perfeita que desencadeou o apagão.

Ironia do destino, a Eletronorte, subsidiária da Eletrobrás, alvo de proposta de desestatização, vai assumir o suprimento emergencial de energia, inicialmente, de 40 MW de geração de energia elétrica, segundo portaria publicada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), na sexta, 6, em edição extraordinário do Diário Oficial da União (DOU).

Questionamentos da CNE

  • A empresa ISOLUX possui um histórico dos ensaios nos transformadores? O SINDINORTE/CNE obteve informações – e requer que seja averiguado – que, inclusive o transformador que eles querem energizar está com Acetileno e a ISOLUX não possuiria um histórico para comparar a formação do Acetileno para saber se é coisa antiga, se vem evoluindo ou se surgiu agora.
  • Segundo se pode verificar nas fotos da instalação, a parede corta-fogo é inferior ao topo da bucha do trafo. Provavelmente por isso o incêndio em um afetou o outro. É preciso verificar a especificação da ANEEL e corpo de bombeiros. Em pesquisa rápida de Notas Técnicas de subestações, encontramos uma do estado de Goiás em que exige que a parede seja, no mínimo, 60 cm superior ao topo do trafo.
  • Qual o plano de emergência foi montado pelo agente desde o ano passado a partir do momento em que a operação passou a deixar de atender o critério N-1? Foi aumentada a frequência de inspeção nos trafos remanescentes? A subestação foi assistida 24 horas?
  • Qual a avaliação feita pelo Cômite de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) sobre esta situação? Eles se reúnem mensalmente e, entre outras coisas, avaliam os pontos críticos no Sistema Interligado Nacional – SIN. E o atendimento a todo estado sem critério N-1 deveria ser um deles.

O critério de confiabilidade N-1 da Aneel diz que “o sistema elétrico está preparado para suportar a perda ou desligamento de um componente sem que haja a interrupção no fornecimento para algum consumidor”.

A última vez que o site da Isolux Cosan publicou qualquer notícia ou comunicado foi no dia 29 de junho de 2015.

 

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