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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Amapá: rodízio de energia deixa periferia no escuro

Equipe BR Político

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O governo federal disse neste domingo, 8, que 76% da energia foi retomada no Amapá, que está sem energia desde terça-feira, 3, quando um incêndio afetou uma subestação de energia. A previsão para restabelecer completamente o serviço, no entanto, é no fim desta semana. A Justiça Federal ainda deu prazo até terça-feira, 9, para que o problema seja totalmente resolvido.

Manifestantes fecham rua no bairro Remédios 2, no município de Santana, em protesto pelo quinto dia sem luz em virtude do apagão no Amapá. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Enquanto as regiões de classe média de Macapá já haviam entrado no rodízio de abastecimento, bairros da periferia seguiam no escuro, como a Baixada do Ambrósio, periferia de Santana, a 20 quilômetros de Macapá. A casa do vendedor de açaí José Luiz Furtado da Silva, de 46 anos, e da mulher, Adineide Nascimento, de 45 anos, é exemplo de como vivem os pobres da capital. Não têm energia para limpar e bater frutos do açaizeiro, fonte de renda da família, reporta Vinícius Valfré, enviado ao Estado pelo Estadão.

Além do mais, as lições da escola estadual onde o filho de 13 anos estuda, que estavam sendo enviadas pelo WhatsApp por causa da pandemia, pararam de chegar. O ano letivo, já problemático, agora está interditado.

O apagão reforça contrastes sociais que já eram visíveis no Amapá. Diferentemente do que ocorre na periferia da capital e cidades vizinhas, as regiões centrais têm alguma estabilidade na retomada do serviço de energia, com rodízio. Classes média e alta sentem menos a crise. Na residência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), no bairro do Trem, região central de Macapá, há um rodízio bem definido, com períodos de luz de 6 horas às 12 horas e de 18 horas à meia noite. Nas partes mais pobres, não há a mesma precisão.

Quem pode pagar correu para hotéis da capital em busca de energia e noites fresquinhas de sono. Placas de “não há vagas” estão pregadas nas portas. Com reduto eleitoral no Estado, Alcolumbre está em Macapá na estratégia de mostrar empenho para resolver a crise. A população direciona a revolta aos políticos locais, com críticas ao senador.

O impasse pode, ainda, atrapalhar planos do clã. Josiel Alcolumbre, irmão de Davi, que tenta se eleger prefeito pelo DEM. O bairro onde mora, o Central, de classe média, também tem rodízio definido. Os adversários não perderam a chance de desgastar os irmãos e o governador Waldez Goés (PDT), aliado do senador.

O transformador que pegou fogo pertence à empresa concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), controlada até recentemente pela espanhola Isolux, que entrou em recuperação judicial na Espanha e não existe mais. No fim do ano passado, a linha foi comprada pela Gemini Energy, que pertence a dois fundos de investimentos: o Starboard Partners e a Perfin, diz a reportagem.

Resposta

A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), responsável pela distribuição, afirma que não é operação fácil restabelecer um sistema que foi todo desligado e admite a diferença de tratamento entre regiões. Assinala, no entanto, que regiões são eleitas como prioritárias por conta da presença de unidades de saúde e hospitais.

A empresa tem uma planilha de rodízio para todo o Estado, mas atribui eventuais descumprimentos dos compromissos a irregularidade nas regiões periféricas. A companhia disse ainda que houve problema de rodízio em Santana por conta de um defeito numa subestação, que teria sido resolvido.

O presidente da CEA, Marcos do Nascimento Pereira, diz que populares tentaram forçar um religamento irregularmente. “Está tendo uma atenção especial no Estado. O que pode ser feito está sendo feito. O consumidor tem que ficar tranquilo com relação a isso. E o consumidor tem que ter responsabilidade no uso da energia”, disse. “Não há privilégio de áreas. Toda área considerada prioritária tem explicação. E explicação está relacionada a serviços essenciais. Não há atendimento especial a área nenhuma.”  Pereira assumiu a presidência da companhia na última terça-feira, 7, dia em que o raio atingiu um transformador da subestação que tem como responsável a empresa Gemini Energy. O cronograma do rodízio pode ser lido aqui.

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