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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: A Amazônia é pop

Equipe BR Político

Por Cila Schulman

No primeiro episódio da ótima Aruanas, o personagem Sheik (Bruno Padilha), diretor do programa “Entre Pontos”, reclama com a apresentadora e ativista pela Amazônia, Natalie (Débora Falabella): “Toda vez que você fala de ecologia, a audiência cai três pontos”. Fato é que nem sempre a vida imita a arte e, quase dois meses após o lançamento da ficção brasileira em 150 países, a Amazônia tornou-se pauta de grande audiência no mundo real.

Brigadista do Ibama combate incêndio em unidade de conservação ambiental na Amazônia.

Brigadista do Ibama combate incêndio em unidade de conservação ambiental na Amazônia. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Na semana de 16 a 22 de agosto, início da crise, o assunto foi replicado mais de um milhão de vezes no Twitter. Impulsionada por celebridades, a tag #PrayForAmazonas foi postada 390 mil vezes. As palavras “Bolsonaro queimadas” lideraram as buscas pelo presidente no Google e o termo “fire in Brazil” chegou aos trendig topics mundiais. Dia 23, a Amazônia passou a ocupar as manchetes e o horário nobre dos principais veículos de imprensa do mundo. E não parou.

O assunto esquentou quando Alemanha e Noruega congelaram verbas a projetos de proteção à floresta amazônica. Aqueceu mais quando dados do Inpe e imagens da Nasa mostraram que as queimadas cresceram no País, em comparação ao mesmo período do ano anterior. O incêndio tomou proporções internacionais na voz do anfitrião da reunião anual do G-7, o presidente da França, Emmanuel Macron.

Como em tempos de rede social, quanto mais quente, melhor, políticos das variadas matizes não temeram se chamuscar com ofensas. Sobrou até para Brigitte Macron, atacada por lamentáveis insultos misóginos. A curiosidade sobre a “mulher do Macron” liderou as buscas relacionada ao presidente Bolsonaro no Google, na semana de 23 a 27 de agosto. Na pressa da lacração, informações desencontradas e fotografias trocadas também serviram de pavio para a queimação. Foi assim que a simbólica (dos nossos tempos) #fake ganhou 432 mil tweets.

Em pesquisa realizada dias 27 e 28 de agosto, com 1.505 pessoas, 35% dos entrevistados avaliaram que a política ambiental para a região da Amazônia adotada pelo atual governo é pior que a de governos anteriores. Outros 36% não veem diferença e 1/5 acredita que ela é melhor.

Já os atritos do presidente com outros líderes mundiais sobre as ações do Brasil em defesa da Amazônia dividiram a opinião pública. Uma parcela um pouco maior discorda do tom bélico do presidente por acreditar que o Brasil sairá prejudicado. 47% da população tem essa visão, contra os 41% que apoiam a postura do governo brasileiro.

Perguntada sobre quem tem maior responsabilidade pelo aumento do desmatamento e das queimadas na região amazônica, a população também se divide. Para 33% a responsabilidade é de madeireiros, fazendeiros e grileiros. Para outros 32% a responsabilidade é do governo federal. Apenas 5% consideram as ONGs como responsáveis e, somente 1%, os indígenas.

Em época de furacão no hemisfério norte, aprendemos que depois da primeira devastação e da passagem do olho, vem mais ventania. Assim é que se outros assuntos estão hoje nos trending topics, a agenda não dará folga para o tema.

O agronegócio está em campo, colocando água na fervura, atento a minimizar mais prejuízos. O governo também tenta uma ofensiva internacional, em busca da imagem perdida. No final deste mês, as atenções estarão na fala do presidente Jair Bolsonaro, na abertura dos trabalhos da ONU, em Nova York. Em novembro, será tempo da COP-2019, a Conferência de Mudança Climática, no Chile. E ainda teremos o Sínodo da Amazônia, em outubro, no Vaticano, convocado pelo papa Francisco. Definitivamente, a Amazônia agora é pop.

Cila Schulman: Jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É vice-presidente do Ideia Big Data.