Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Após ‘boa vontade’, setor sucroalcooleiro promete jogo duro com os EUA

Gustavo Zucchi

Exclusivo para assinantes

A proximidade do governo brasileiro com Donald Trump gerou uma dor de cabeça para os produtores sucroalcooleiros do País. Em setembro, a Câmara de Comércio Exterior decidiu prorrogar a cota de etanol que pode ser importado dos EUA para cá sem tarifa. Só que parlamentares ligados ao setor, que aceitaram o pedido político de Jair Bolsonaro, agora avisam que independentemente de se ter um republicano ou um democrata na Casa Branca, não há como renovar sem uma contrapartida justa. E que garanta que a produção de cana-de-açúcar brasileira não ficará ociosa.

Plantação de cana-de-açúcar. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Ou seja, se o atual gesto de “boa vontade” do setor com o presidente Jair Bolsonaro permitiu a prorrogação, essa relação positiva não estará na mesa de negociação daqui para frente. Caso Donald Trump seja reeleito e queira cumprir a promessa de acabar com as tarifas brasileiras sobre o etanol americano, a contrapartida terá de ser substancial.

“Quando nós sentamos para discutir a prorrogação com o ministro de Relações Exteriores (Ernesto Araújo), ele disse que estava em processo de negociação para ampliar a exportação de açúcar”, disse ao BRP o presidente da Frente Parlamentar agropecuária, deputado Alceu Moreira (MDB-RS). “Pode-se também aumentar a concentração de etanol nos combustíveis fósseis dos EUA. Mas isso é uma questão que tem que ser discutido ponto de vista fático. Não pode ser ‘eu acho’. O que vamos fazer com estoque de cana do Nordeste do Centro-Oeste brasileiro?”, questionou o parlamentar.

A atual contrapartida, um adicional de 80 toneladas de exportação de açúcar sem tarifas, foi considerada “irrisória” pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Sem poder ser equiparada com os 187,5 milhões de litros de etanol americano que entrará no Brasil até o fim no ano.

“Sempre devemos defender igualdade de competição. Somente cederemos em nossos volumes de etanol caso haja reciprocidade dos americanos no mercado de açúcar”, disse na ocasião o presidente da Comissão Nacional de Cana-de-açúcar da CNA, Ênio Fernandes. “O mais importante seria avançar nas discussões para um aumento significativo dos nossos embarques de açúcar para lá, equivalentes com o que cedemos nos últimos anos em relação ao etanol.”

O tema preocupa o governo. Na última semana, o vice-presidente Hamilton Mourão esteve tratando do assunto em um jantar com Evandro Gussi, diretor-presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). A ideia é até dezembro que se consiga construir um novo acordo sobre a importação de etanol dos EUA, independentemente do vencedor da eleição ser Joe Biden ou Donald Trump.

Negócios à parte

A decisão tomada pelo governo brasileiro serve como auxílio Trump na eleição, ajudando o atual presidente norte-americano a conversar com produtores de álcool de milho em alguns estado-chave no pleito. Em especial Iowa. Em 2016, Trump levou os delegados no Estado. Neste ano, as últimas pesquisas indicam vantagem para Joe Biden.

Por aqui, o Planalto conversou com parlamentares e com o setor antes de ampliar a isenção de tarifas. A “benesse” brasileira foi tanta a ponto do Congresso americano abrir uma investigação para averiguar se o governo Trump estava utilizando de ferramentas de Estado para beneficiar o atual presidente na eleição.

Na ocasião, o embaixador americano Todd Chapman foi intimado a dar explicações. Ele teria pedido para autoridades brasileiras a isenção da tarifa de etanol até o fim do ano como sendo importante para a reeleição de Trump.

“A decisão do Governo foi pactuada conosco setor chamado para conversar o setor não tinha concordância com isso e mais foi uma solicitação do presidente. Ele precisava desse gesto político nesse momento”, disse Moreira. “Resolvemos encarar isso como uma solicitação do Presidente da República ao setor. Nós não questionamos a motivação do governo. Foi para nós ter um gesto político que ele precisava fazer. É possível que essa questão eleitoral esteja envolvida, mas não foi ao que nós conversamos com o Presidente da República”.

Tudo o que sabemos sobre:

setor sucroalcooleiroEUAetanol