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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Após flexibilização, vírus avança desimpedido para o interior do País

Cassia Miranda

Há mais de três meses sob a condição de estado de calamidade pública em decorrência da pandemia do novo coronavírus e já tendo flexibilizado as medidas de isolamento social em várias cidades e Estados, o Brasil segue sem enxergar uma luz no fim do túnel para a covid-19.

Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Enquanto isso, o vírus avança desimpedido para o interior. Se no início a doença atingiu em cheio as capitais, como São Paulo, Manaus, Fortaleza e Rio de Janeiro, agora ela penetra pelo interior em ritmo acelerado. Tanto os casos confirmados quanto os óbitos diminuíram nas capitais e aumentaram no interior na última semana.

Na última quinta-feira, 25, o interior de São Paulo, por exemplo, passou a Capital paulista em número de mortes provocadas pelo novo coronavírus. Até a data, a cidade de São Paulo registrava 6.675 óbitos confirmados pelo novo coronavírus desde o início da pandemia. Já o número do interior foi maior, com 6.677 óbitos. Na mesma semana, o interior já havia ultrapassado a Capital em número de casos.

De acordo com o Lagom Data, plataforma que monitora o comportamento da covid-19 no Brasil, há casos confirmados de coronavírus em pelo menos 5.014 municípios brasileiros. O número equivale a 90% das cidades. Há mortes oficialmente atribuídas à covid-19 em 45% dos municípios do Brasil, aponta a última atualização do sistema, feita em 24 de junho.

Tanto no mapa do Lagom quanto no Painel Covid, que é atualizado pelos dados oficiais do Ministério da Saúde, a Região Norte é a que aparece com menos focos de casos no interior. Quase metade dos Estados do País, no entanto, apresentam pacientes em 100% dos municípios. São eles: Acre, Alagoas, Amapá, Espírito Santo, Distrito Federal, Ceará, Rio de Janeiro, Roraima, Rondônia, Sergipe, Pará, Pernambuco e Maranhão.

Em situação semelhante, Amazonas, Rio Grande do Norte, Paraíba, São Paulo e Santa Catarina registram casos em 95% dos municípios, de acordo com detalhamento feito pelo jornalista Marcelo Soares, fundador do Lagom Data, em publicação no Twitter.

É neste cenário que a curva de novos casos e óbitos em decorrência do novo coronavírus no Brasil segue em ascensão. Sendo assim, especialistas ouvidos pelo BRPolítico apontam para o fato de o Brasil ainda não ter completado o desenho gráfico que indicaria o pico da pandemia por aqui.

“O que conseguimos ver, apesar de não termos o número real de casos e óbitos, é a tendência. E a tendência continua subindo em um acurva muito inclinada para cima. Não é uma situação que a gente possa dizer que é favorável”, aponta a microbiologista e fundadora do Instituto Questão de Saúde, Natália Pasternak.

Além disso, ela reforça para a necessidade de que a leitura da pandemia no Brasil precisa ser feita de maneira regional, e não geral. “Essas análises precisam ser feitas por região. Porque é muito mais real pensar nos picos por Estados, por região, por cidades que são epicentros epidemiológicos, porque o Brasil é enorme. Tudo isso vai ter de ser analisado localmente e não globalmente”, diz.

O apontamento é reforçado pelo infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), José David Urbaéz. “Não podemos dizer em qual momento estamos, porque o Brasil, sendo um país continental, tem várias epidemias. Em cada município ocorre um tipo diferente de disseminação do vírus, um tipo diferente de manifestação da curva, tudo isso depende das medidas que foram tomadas em cada lugar. E também o curso do vírus em relação à circulação. O vírus entrou pelas grandes áreas metropolitanas, onde ainda gera uma quantidade de casos muito grandes. Mas se você vai para Manaus, por exemplo, isso já está em uma fase de diminuição”, diz.

São Paulo

Epicentro da pandemia no Brasil, São Paulo foi um dos primeiros Estados a decretar isolamento social. Mas mesmo sem ter atingidos os níveis apontados pelo governo como recomendáveis – entre 60% e 70% – São Paulo vem registrando uma flexibilização diária cada vez maior.

Na última semana, o Estado amargou um novo recorde. Foram mais de 9.000 casos confirmados entre terça e quarta-feira, o maior número até agora. Apesar da alta nos números, o governo segue o plano de relaxamento do isolamento social, da mesma forma que o Rio de Janeiro e o Ceará, e já planeja reabrir as escolas em setembro.

“O que vamos ver, provavelmente, daqui para frente é: enquanto o vírus vai em direção ao interior, os doentes vão em direção à Capital. Porque muitas cidades não vão ter condições de cuidar dos doentes, de hospitalizar os que necessitam e provavelmente esses pacientes vão ser encaminhados para a Capital. Vamos ter uma retroalimentação de contaminação que decorre de uma falta de planejamento”, afirma Natália.

Segundo a microbiologista, ainda assim, não é correto afirmar que o Brasil está se encaminhando para a segunda onda da pandemia. “A gente ainda está na primeira onda. Tenho visto muita gente falar em segunda onda, mas não podemos falar nisso ainda, pois não superamos nem a primeira”, aponta.

Vacina

Ambos os especialistas veem o avanço dos testes de vacinas como um sopro de esperança. Mas destacam para necessidade de a sociedade seguir com medidas de isolamento, pois no melhor dos cenários, só a partir do ano que vem é que haverá o início da produção em larga escala para atender a todos.

“É um norte alentador, mas temos de ficar sempre com os pés no chão. Teste de vacina, por mais acelerado e mais rápido, tem de passar por muitas situações onde nós temos de garantir a segurança deste produto”, reforça Urbaéz.

“Temos de ser muito responsáveis na nossa visão. Não é possível imaginar que ainda em 2020 nós tenhamos vacinas. Mesmo que elas apresentem eficácia, o processo de produção de centenas de milhões de doses é complexo. Precisamos ter pé no chão e saber que ainda temo um longo caminho. Pelo menos um ano, um ano e meio para chegarmos a uma solução pela vacina”, diz.

Na avaliação de Natália, o Brasil apresenta o quadro ideal para a testagem de vacinas para a covid-19. Mas isso não é um elogio. “Como somos muito incompetentes em conter a doença, nós oferecemos um cenário favorável para a testagem de vacinas. A gente tem o vírus circulando por aqui, enquanto outros países já não têm, e você precisa dessa circulação para expor as pessoas já vacinadas e aquelas que receberam o placebo a uma situação de risco de contrair a doença”, explica.

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