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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Aproximação do governo com o Centrão atinge bolsonaristas ‘raiz’

Cassia Miranda

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O presidente Jair Bolsonaro começou a dar sinais, nos últimos meses, de que se sente acuado. Para tentar se blindar da sinuca de bico causada pela prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz e pelas investigações que atingem seus filhos e a chapa pela qual foi eleito, o chefe do Executivo se aproximou dos partidos que compõem o chamado Centrão. Para isso, passou a escantear aliados mais radicais, como é o caso da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF).

O presidente Bolsonaro ao lado de ministros e de membro do Centrão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) em viagem ao Nordeste. Foto: Alan Santos/PR

Na tentativa de ampliar a base do governo no Congresso e evitar derrotas em votações de interesse do Executivo e um eventual processo de impeachment, o presidente distribuiu cargos no segundo escalão e em estatais, além de aumentar a oferta de liberação de emendas a esse grupo.

Em outra frente, Bolsonaro também baixou as armas contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e parou de bater ponto no cercadinho do Palácio da Alvorada. Nas últimas semanas, houve um silenciamento nas polêmicas produzidas pelo próprio presidente e reverberada nas redes sociais pelos chamados “bolsonaristas raiz”.

Esse escanteamento dos bolsonaristas ganhou força durante a votação do Fundeb. Kicis, que votou contra o fundo, foi penalizada, na sequência, com a perda da vice-liderança do governo no Congresso.

Apesar de prestigiado por Bolsonaro, o líder do governo na Câmara, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), também entrou na rota de substituição. Ambas as vagas devem ser entregues ao Centrão. A de Kicis, deve ir para o deputado Ricardo Barros (PP-PR).

Em sinalização ao STF, no início de julho, Bolsonaro já havia decidido trocar o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) da vice-liderança na Câmara. Assim como Kicis, ele é um dos parlamentares investigados pela Corte no inquérito das fake news. Em mais um agrado ao Centrão, o deputado Maurício Dziedricki (PTB-RS) foi nomeado para o posto que era de Silveira.

O papel dos militares

Antagonistas da ala ligada ao filósofo Olavo de Carvalho desde o início do governo, os militares, que cada vez mais ocupam cargos no governo, têm sido uma importante ferramenta na articulação com o Centrão.

Exemplo simbólico disso foi a declaração elogiosa feita pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em relação ao ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, no último dia 20.

Maia interrompeu sua fala sobre a reforma tributária para destacar a atuação do auxiliar de Bolsonaro em meio às negociações da votação do Fundeb, em que o governo foi derrotado. “O ministro Ramos foi decisivo no Fundeb e será na tributária, pela sua paciência, diálogo transparente, aberto, e somado esforços, e ajuda os ministérios técnicos ter um articulador político que tenha paciência e condições de diálogo. Vamos continuar essa relação que, sendo de diálogo, só tem a trazer bons resultados para o País”, afirmou Maia

De acordo com levantamento feito em julho pelo Tribunal de Contas da União, o governo federal conta atualmente com 6.157 militares em funções civis. O número representa um aumento de 108,22% em relação a 2016.

Para a doutora em Ciência Política e pesquisadora Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) Carolina Botelho, os militares entraram de vez no jogo político.

“Eles entenderam que ocupar a máquina pública é uma maneira de permanecer nela. Eles são os grandes organizadores dessa mudança (em relação ao Centrão). Então, os olavistas vão ficar em silêncio, quando acharem que há espaço eles vão dar aqueles gritinhos. Enquanto isso, os militares não vão abrir mais mão disso”, avalia.

Como fica o bolsonarismo

Na análise de cientistas políticos consultados pelo BRP, o movimento pró-Centrão feito pelo governo causa um esvaziamento no discurso dos bolsonaristas. Por outro lado, fortalece a tentativa de Bolsonaro de construir uma atmosfera de maior governabilidade.

Segundo Carolina, o presidente Bolsonaro já dá sinais de que mesmo com o afastamento da ala mais radical, não vai atirar completamente os aliados ao mar, pois eles representam uma significativa base para manifestações e agitação nas redes sociais.

“Politicamente tem uma mensagem: eles perderam. Ainda que ele tenha ido visitar a Bia Kicis mostrar que gosta dela, nesse momento, pragmaticamente, ele não esta apoiando o grupo bolsonarista. Apoiar eles, significa perder apoio do Centrão também. Então, de certa forma, o papel deles é manter essa militância aguerrida disponível”, diz.

E segue: “Eles vão ficar lá. O Bolsonaro quer eles quietinhos, mas mantendo aquelas manifestações, dizendo que o vírus é chinês, falando aquele monte de maluquice, vai continuar falando bem deles, mas, se você perceber, ele vai tirar um por um para colocar pessoas do Centrão ligadas aos partidos que vão sustentar a base dele no Congresso. É aí que a política está. Se tem algum ponto fraco dele que ele percebeu, é esse, e ele está atuado para reverter”.

Segundo o pesquisador da FGV e doutor em Ciência Política Cláudio Couto, o fato de Bolsonaro se colar a um grupo que tanto combateu durante a campanha, esvazia o discurso anti-establishment que elegeu ele e grande parte do parlamento.

“(Os bolsonaristas) ficam sem o discurso que os elegeu. Não só eles, mas também o Bolsonaro. Eles se elegeram fazendo o discurso de que não fariam a velha política, não negociariam nada e agora, não só está negociando, como está negociado com o setor mais tradicional da política brasileira”, diz.

De acordo com Couto, no entanto, trata-se de um movimento de sobrevivência. “O estranho seria não isso, mas não negociar. Por que como é que você vai, em um sistema partidário ultra fragmentado como o brasileiro, não fazer negociação? Não tem como a coisa funcionar”, aponta.

Até onde vai o novo casamento?

A aproximação entre Bolsonaro e Centrão, no entanto, não deve durar muito tempo. Tanto a essência do chefe do Executivo como o fisiologismo do grupo de Centro indicam que o casamento não deve ir para frente.

Além disso, a pressão do eleitorado contra essa relação deve chegar ao presidente. Pesquisa Datafolha já mostrou que 67% dos eleitores rejeitam a aproximação de Bolsonaro com o Centrão.

Levantamento realizado no começo de julho pela Quaest Consultoria e Pesquisa mostrou que 52% dos brasileiros acham que Bolsonaro está errado em se associar com os partidos de Centro.

“Não creio que isso venha a durar muito tempo, porque o Bolsonaro, ao que me parece, opera nesse outro regime. Então, é possível que ele recue nessa lógica de morde e assopra – que é uma constante política dele -, e daqui a pouco ele volta a carga. E aí a tendência é de que as coisas se agitem de novo”, avalia Couto.

 

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