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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Aras demonstra constrangimento em entrevista

Vera Magalhães

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Ficou patente o constrangimento de Augusto Aras com os vários dilemas que se lhe apresentam no horizonte na entrevista concedida por ele ao programa Conversa com Bial. O mais imediato, e também aquele que mais parece incomodá-lo, é a decisão sobre oferecer denúncia contra Jair Bolsonaro ou arquivar o inquérito aberto depois das acusações de Sergio Moro.

O procurador-geral da Republica, Augusto Aras

O procurador-geral da Republica, Augusto Aras Foto: Dida Sampaio/Estadão

O procurador-geral da República foi ardiloso ao pedir a investigação: foi célere, fazendo-o no mesmo dia da entrevista coletiva de Moro pedindo demissão e apontando interferência política na Polícia Federal, mas o fez de modo a colocar tanto o presidente quanto o ex-ministro na mesma condição de investigados.

Só que, depois disso, Moro depôs na PF reafirmando e aprofundando as declarações que dera na coletiva, apresentou mensagens de celular trocadas com Bolsonaro e outros integrantes da base aliada, como a deputada Carla Zambelli, que corroboram o que afirmou e, principal jogada, apontou a reunião ministerial de 22 de abril como prova.

Aras sambou diante desse movimento de Moro no tabuleiro. Chegou a pedir que só os trechos referentes à acusação fossem divulgados, como se a edição prévia já não tivesse o risco de conter um escrutínio que impediria a análise do todo. Diante da decisão de Celso de Mello de divulgar o todo, excluindo apenas trechos com potencial de causar incidentes diplomáticos, o PGR e todo o País se viram diante do festival de arbítrio, falta de decoro e desrespeito às instituições cometidos pelo presidente e vários ministros na ocasião.

Do arquivamento certo, o inquérito passou a ter potencial de provocar outros, como o para investigar Abraham Weintraub por ameaças a ministros do STF.

Não seria mais tão simples para Aras arquivar a peça. Daí porque ele pediu mais prazo para o feito. Enquanto isso, no entanto, tem de se haver diariamente com a insistência de Bolsonaro de marcá-lo a ferro como seu aliado. Há alguns dias, o presidente disse que se tiver uma terceira vaga no Supremo (caso algum dos ministros desapareça) ela poderá ir para Aras.

Eis o segundo constrangimento patente na entrevista: a necessidade de Aras de afirmar alguma independência quando o presidente, de propósito, faz questão de ressaltar o oposto. Daí a razão de dizer que faltou Bolsonaro “combinar” com ele que a tendência natural é que ele arquive o inquérito.

Dessa mesma necessidade de se mostrar independente nascem as declarações sobre não aspirar uma cadeira no Supremo. Diz que um procurador-geral contraria vários interesses, a começar pelos corporativos, mas não convenceu.

Sua decisão sobre o inquérito, diante de tantas evidências obtidas a partir das declarações de Moro — e, não se pode esquecer, de vários delegados da PF, corroborando toda a intenção, depois posta em prática, de Bolsonaro de intervir na corporação — será decisiva para a maneira como ele terá autoridade diante dos pares daqui por diante.

O abaixo-assinado com larga adesão contra sua condução do MPF já mostra uma indignação interna com a maneira pouco distante com que ele se relaciona com o governo. A bola está com ele, e Aras demonstra que está sentindo o peso da cobrança desse pênalti.