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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Artigo: ‘O jogo cifrado do general Mourão’

Equipe BR Político

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Em artigo escrito originalmente para sua página no Facebook e aprofundado especialmente para o BRPolítico, o cientista político Christian Edward Lynch analisa as referências históricas e doutrinárias do texto do vice-presidente Hamilton Mourão publicado pelo Estadão desta quinta-feira, intitulado “Limites e Responsabilidades”.

Por Christian Edward Lynch*, especial para o BR Político

O artigo do vice-presidente publicado no Estadão faz a defesa da centralização político-administrativa e do anti-judiciarismo típicas do militarismo de Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca e do regime militar. Curiosamente, citando clássicos liberais americanos e brasileiros, de tendência unionista e não estadualista (James Madison e Amaro Cavalcanti).

Qual o sentido desse artigo?

Aparentemente Mourão defende o governo Bolsonaro. Mas por que o vice faria a defesa de um governo cronicamente encalacrado e possivelmente cambaleante? Ele não devia estar, ao contrário, acenando para o Congresso? E tem também a questão do “timing”. O artigo sai bem agora, quando seus colegas passam pelo constrangimento de deporem em inquérito judicial contra Bolsonaro!

Minha aposta é a de que o vice-presidente  está jogando um jogo de mensagens cifradas. A lealdade de Mourão, na verdade, não é à pessoa do presidente Bolsonaro, que sequer é citado no artigo. É aos generais conservadores do Planalto e do Alto Comando. O artigo é governista, sem ser, porém, bolsonarista.

Mourão está estendendo aos demais generais a sua solidariedade política, dizendo aquilo que eles querem ouvir: o mantra tradicional do Exército como poder moderador da República e da centralização no Executivo como guardião da ordem e da autoridade, garantia da unidade nacional, contra as derivas judiciaristas e estadualistas. Tudo isso, às vésperas da divulgação do vídeo da reunião ministerial que pode revelar as entranhas escandalosas do governo.

O movimento do general Mourão nos últimos dias, em seus pronunciamentos, não deve ser assim interpretado como mera expressão de governismo. Ele procura dar apoio e segurança aos colegas militares, que se acham constrangidos em se manterem leais a um governo de arruaceiros.

É preciso lembrar que a honra militar do vice-presidente não lhe permite trair Bolsonaro como fez Temer em relação a Dilma. O partido de Mourão é o Exército. O que o vice-presidente sugere — mas nunca poderá admitir — é que, na hora de desembarcarem do governo Bolsonaro, se este momento chegar, desembarcarão todos juntos. E que as diretrizes políticas dos militares continuarão, sem o atual presidente e sua família.

No governo dele, Mourão, os colegas de farda ficarão tranquilos, ele sugere, porque prevalecerá um projeto conhecido e familiar de ordem nacional, de estilo Escola Superior de Guerra. A ordem e a unidade seriam restabelecidas tendo o Executivo federal como eixo organizador. Haveria nele espaço para acordos com o Congresso, mas “sem corrupção”, e para um governo “ordeiro e de autoridade”, sem o populismo caótico e polarizador de Bolsonaro.

Um governo nacional, encabeçado por um general, teria moral, ele pensa, para ser respeitado e acatado pelo Judiciário e pelos governadores. Bom lembrar que, em declaração anterior, o vice-presidente já fez a defesa da costura de uma base parlamentar na Câmara, de cunho programático. Cada general-presidente com sua Arena…

Em suma, acredito que Mourão anda ultimamente acenando não necessariamente para o clã Bolsonaro, mas para os outros generais e para o Congresso, de modo cifrado, estabelecendo as bases ideológicas e programáticas de seu eventual governo. Menos Trump e mais Geisel, menos Olavo e mais Golbery.

Mourão como o verdadeiro Bonaparte do novo regime. Este Bonaparte, que sempre aparece depois da “revolução” que desestabiliza e desmoraliza as instituições (como a que vivemos entre 2013-2018, mas que Bolsonaro tem se revelado incapaz de resolver).

Resta saber se o Congresso vai morder a isca, e se estão havendo efetivas aproximações entre ele e as lideranças da Câmara, para viabilizar a mudança lá na frente. Isso ainda não é possível saber.

*Christian Edward Lynch é cientista político e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

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