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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro ameaça descumprir liminar e nomear Ramagem para a PF

Vera Magalhães

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O dia começou cedo no Palácio da Alvorada. Às 7h da manhã Jair Bolsonaro apareceu para sua tradicional entrevista na grade do palácio. Irritado com a decisão da véspera do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que impediu a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, Bolsonaro fez um tortuoso raciocínio para justificar que pensa em descumprir a liminar e nomear o delegado na marra.

O presidente Jair Bolsonaro e sua escolha apra a Polícia Federal, Alexandre Ramagem O presidente Jair Bolsonaro e sua escolha para a Polícia Federal, Alexandre Ramagem

O presidente Jair Bolsonaro e seu escolhido barrado para a Polícia Federal, Alexandre Ramagem Foto: Carolina Antunes/PR

Bolsonaro disse que na quarta-feira “quase tivemos uma crise institucional”. “Quase, faltou pouco”, enfatizou. Falou isso quando discorria sobre a liminar de Moraes, que considerou política. “Eu respeito a Constituição, e tudo tem um limite”, afirmou o presidente.

“Como o senhor Alexandre de Moraes foi para o Supremo? Amizade com o senhor Michel Temer”, comparou Bolsonaro. Fez ainda uma analogia com listas tríplices para indicações em tribunais. “A amizade não está prevista numa daquelas cláusulas impeditivas para alguém tomar posse”, teorizou, ao interpretar a seu modo o princípio constitucional da impessoalidade.

Disse que conheceu Ramagem na campanha e que faziam tudo juntos. “Ele só não dormia comigo.” E se disse chateado por não poder “premiar” uma pessoa que conhece “com essa profundidade”.

O presidente traçou uma comparação para explicar por que, no seu entendimento, pode descumprir a liminar do ministro do Supremo: disse que Alexandre de Moraes proibiu a nomeação do delegado para comandar a PF, mas não para continuar à frente da Abin, a agência de inteligência, o que seria “incoerente”.

Afirmou que o recurso contra a decisão do ministro vai cobrar esclarecimento sobre esse aspecto. O que Bolsonaro ignora é que na própria liminar, de 15 páginas, Moraes já explica a distinção: diz que a Polícia Federal não é uma polícia de inteligência. “Tais acontecimentos, juntamente com o fato de a Polícia Federal não ser órgão de inteligência da Presidência da República, mas sim exercer, nos termos do artigo 144, parágrafo 1º, VI da Constituição Federal, com diversas investigações sigilosas, demonstram, em sede de cognição inicial, estarem presentes os requisitos para a concessão da liminar”, diz a decisão do ministro.

Mas Bolsonaro insistiu na suposta incoerência. “Dependendo da resposta do senhor Alexandre de Moraes, posso nomear o Ramagem independente da liminar dele”, ameaçou o presidente, para quem “o respeito entre os Poderes é uma via de mão dupla”.