Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro coloca militares na Saúde para evitar técnicos ‘indóceis’

Gustavo Zucchi

Exclusivo para assinantes

Nesta semana, o Brasil ultrapassou a triste marca de 25 mil mortos por coronavírus. Mas o presidente Jair Bolsonaro parece mais do que satisfeito em não ter um ministro da Saúde, ao menos oficialmente, gerenciando a pandemia. Enquanto vários nomes surgiram entre apoiadores do governo para ocupar o lugar deixado por Nelson Teich, o atual ocupante do Palácio do Planalto avisou que, por enquanto, quem fica no cargo é o general Eduardo Pazuello. Assim, Bolsonaro não terá de lidar com os “indóceis” técnicos outrora louvados.

Pazuello deve ficar como ministro da Saúde 'por muito tempo', segundo Bolsonaro

Pazuello deve ficar como ministro da Saúde ‘por muito tempo’, segundo Bolsonaro Foto: Erasmo Salomao/MS

O militar entrou no ministério junto de Teich, para atuar como secretário-executivo. A ideia era ter um oficial cuidando da gestão, com olho vivo a autoridade para negociar compras emergenciais. Rapidamente, Pazuello conquistou o presidente.E, após a vacância no ministério, teve liberdade para encher a pasta de outros militares mesmo sendo um interino.

Ao todo já foram 17 membros das Forças Armadas nomeados para a Saúde em pouco mais de uma semana. Assim como o próprio Pazuello, a maior parte deles não tem como especialidade a medicina. A estratégia agrada Bolsonaro, que passa a ter no mais importante ministério no momento quem siga fielmente suas ordens.

Tão logo entrou, Pazuello encerrou um bate-cabeça que já durava tanto quanto o coronavírus. O general seguiu o desejo do presidente e alterou o protocolo para utilização da cloroquina, medicamento que está sob estudo para verificar sua eficácia ante o covid-19. Mesmo sem comprovação científica, a droga é o xodó de Bolsonaro. Uma panaceia que permitiria ao presidente continuar sua cruzada contra as medidas de isolamento social.

Tanto o medicamento quanto as recomendações de quarentena foram os pivôs das saídas dos dois últimos ministros. Luiz Henrique Mandetta deixou o cargo frisando que manter as pessoas em casa é uma medida fundamental para conter o vírus. Já Teich não arredou o pé sobre a cloroquina e não aceitou mudar a recomendação de uso do medicamento.

A facilidade para impor sua vontade na Saúde faz os olhos de Bolsonaro brilharem. Durante a semana, ao ser questionado sobre um novo nome para a pasta, o presidente afirmou que Pazuello deverá ficar “por muito tempo” como comandante da Saúde.

“Está dando certo, está mudando muita gente lá. ‘Ah, está enchendo de militar’. Vai botar mais militares, sim, com civis não deu certo. E ponto final”, disse Bolsonaro em entrevista à Rádio Jovem Pan, dando sinais de satisfação mesmo com a curva do coronavírus em franca ascendência no País.

A pouca importância dada por Bolsonaro à pandemia pode ser sentida no vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril. Na ocasião, quando o País já ultrapassava a marca dos 3 mil mortos, apenas Teich falou diretamente sobre a doença. Bolsonaro, por sua vez, deixou claro quer exige fidelidade absoluta de seus ministros às suas pautas.

Essa postura levada ao ministério da Saúde deve afastar nomes mais técnicos. E força Bolsonaro a apelar aos militares, cuja própria disciplina inerente da profissão os faz mais propensos a seguir ordens com quase nenhum questionamento.

Com isso, nem mesmo Teich, que ao contrário de Mandetta e Sérgio Moro deixou o cargo sem atirar para todos os lados, quer proximidade com o governo. “Quando assumi o Ministério da Saúde, o objetivo era trazer um modelo de gestão mais técnica, que aumentasse a eficiência do Sistema e melhorasse o nível de saúde da sociedade”, disse Teich em suas redes sociais. Ele foi convidado por Pazuello para ser conselheiro na pasta e acabou recusando. “Uma condução técnica do Sistema de Saúde significa uma gestão onde estratégia, planejamento, metas e ações são baseadas em informações amplas e precisas, acompanhadas continuadamente através de indicadores”, afirmou, dando seu recado nas entrelinhas.