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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro fez da ONU uma extensão de seu Twitter

Cassia Miranda

Tradicionalmente, o microfone da ONU dá voz a discursos diplomáticos. Sobretudo, na abertura da Assembleia-Geral, quando mandatários brasileiros inauguram o evento. Mas na estreia do presidente Jair Bolsonaro (PSL), na terça-feira, 24, em Nova York, foi diferente. Faltou diplomacia e sobrou ataques a torto e a direito. O chefe do Executivo do Brasil reduziu a ONU a uma extensão de seu Twitter. O presidente perdeu a oportunidade de fazer um discurso para acalmar os ânimos da comunidade internacional. Preferiu fazer aquilo que faz nas redes sociais: atacar e criar novas polêmicas.

Segundo o embaixador aposentado Rubens Ricupero, nenhum presidente brasileiro jamais fez um discurso desse tipo fora do Brasil. “É como lavar a roupa suja fora de casa, de maneira escancarada”, diz em entrevista ao Estadão desta quarta.

O mais próximo a isso que já assistimos ocorreu em 2013, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) usou o espaço para repreender os EUA por conta das denúncias de espionagem realizadas pelo país contra as comunicações em todo mundo, inclusive as dela própria. Mas, ainda assim, foi diplomática. “Este é o momento de criarmos as condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques contra sistemas e infraestrutura de outros países”, disse ela à época.

Nenhuma relação comercial do Brasil foi prejudicada pela fala. Diferentemente do que o País deverá colher depois do discurso de Bolsonaro, avalia Ricupero. “Os acordos que o Mercosul tinha assinado com a União Europeia e a Área de Livre Comércio Europeu já estavam praticamente mortos”. E segue: “Ele inviabiliza, no futuro previsível, qualquer esforço de boa vontade para apresentar esses acordos à aprovação dos diversos parlamentos europeus. Isso vai afetar muito as perspectivas do agronegócio brasileiro, da exportação do Brasil em geral”, diz o diplomata que tem mais de 40 anos de carreira no Itamaraty.

O professor de relações internacionais da FGV Matias Spektor segue na mesma linha. Entre as nações europeias, com destaque para a França, as pautas ambientais – um dos abordados de maneira controversa por Bolsonaro na ONU – têm sido usadas como pretexto para justificar uma política protecionista. “Mas a fala do presidente servirá como um desempate aos países que ainda não haviam decidido sobre eventuais sanções”, diz ao Valor.

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