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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro joga recontratação na conta de Onyx

Vera Magalhães

O episódio da demissão, recontratação e nova exoneração de Vicente Santini na Casa Civil expõe muitos dos vícios recorrentes do governo Jair Bolsonaro: patrimonialismo, incoerência com o discurso de campanha, a intromissão dos filhos do presidente em assuntos de Estado e, principalmente, a maneira sem cerimônia com que Bolsonaro rifa aliados fiéis para salvar a própria pele junto ao eleitorado. O que o presidente faz com o titular da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, se inscreve no último item da lista.

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro tentou a sorte e recontratou o amigo da família, que havia submetido a uma humilhação pública, num cargo de pouca visibilidade e salário só ligeiramente menor na mesma Casa Civil. Achou que a manobra passaria abaixo do radar. Mas a imprensa, sempre ela, revelou o absurdo da recontratação um dia depois.

As razões da recontratação são muitas, e nenhuma delas se deve a questões de eficiência, meritocracia ou necessidade do cargo. Em seu blog no G1, Valdo Cruz relata que pedidos dos filhos de Jair Bolsonaro levaram o presidente a recontratar Vicente Santini para um outro cargo na própria Casa Civil, com salário de algo como R$ 380 a menos, apenas um dia depois de ter feito estardalhaço ao determinar a exoneração do número 2 de Onyx Lorenzoni como suposta medida moralizadora pelo fato de ele ter usado um avião da FAB como jatinho particular para levá-lo a Davos e depois à Índia.

Outros fatores pesaram para o recuo de Bolsonaro. Um deles foi o fato de o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ter usado o mesmo expediente do assessor para ir à África, como informou o colunista Lauro Jardim no Globo. Qual seria a explicação para não aplicar a um membro do primeiro escalão o mesmo tratamento dispensado a um integrante do segundo? Mais: já começavam a pulular outros casos de farra com aviões da FAB, e Bolsonaro percebeu que teria pela frente uma fila de pessoas a demitir.

Além disso, como Marcelo de Moraes lembrou desde o início da tarde de quarta-feira no nosso podcast BR Político Chama, mesmo antes da bizarra recontratação, a família Santini é amiga de longa data e aliada política dos Bolsonaro. O irmão de Vicente, o Tenente Santini, é vereador em Campinas e será candidato a prefeito da cidade em outubro pela Aliança pelo Brasil. Além disso, a família tem uma empresa que cuida da segurança de integrantes da família Bolsonaro há anos. Tudo em família.

Portanto, é impossível querer transferir a responsabilidade pelo episódio para Onyx, como faz Bolsonaro ao anunciar a nova demissão e, no mesmo tuíte, determinar um castigo para o titular da Casa Civil, tirando de sua responsabilidade o PPI, o plano de concessões e investimentos do governo. Lembrando que o próprio PPI já era um prêmio de consolação a Onyx por ter perdido a articulação política.

O ministro da Casa Civil vai assumir a culpa pelo episódio sozinho? A crônica do governo tem sido pródiga em assessores que aceitam se humilhar para não desagradar ao “capitão”. Onyx foi o primeiro ministro anunciado por Bolsonaro, pela sua lealdade e pelo fato de ter sido o primeiro deputado, a desafiar a orientação do próprio partido, o DEM, para apoiar o “capitão”. Aos poucos foi perdendo espaço junto ao presidente e, agora, cavava uma transferência para o MEC, pasta com mais recursos e visibilidade que a esvaziada Casa Civil.

Diante do bizarro episódio de Santini, que é amigo dos Bolsonaro, e não dos Lorenzoni, volta várias casas no tabuleiro dos assessores mais bem cotados com um presidente mercurial, persecutório e que pensa sempre primeiro em si e na família, e depois nos aliados.