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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro muda de tom depois de mortes e reação dos Poderes

Vera Magalhães

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Jair Bolsonaro pela primeira vez em 2020 baixou o tom. Ele vinha numa espiral ascendente de afronta aos demais Poderes e a outras instituições, à imprensa e até a recomendações sanitárias de seu próprio governo desde janeiro. O apogeu ocorreu no domingo, quando rompeu o isolamento pelo fato de ainda ter exames pendentes para o novo coronavírus e saiu primeiro em carreata e, depois, descendo a rampa do Palácio do Planalto, para participar de manifestações a seu favor e contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

Ele manteve a aposta no esgarçamento neste início da semana: na segunda-feira, deu sucessivas entrevistas para insistir que a preocupação com o novo coronavírus e a recomendação de que o País pare para reduzir a curva de crescimento da pandemia eram “histeria”. Ainda nesta terça manteve essa avaliação e chegou a anunciar que faria uma festa para ele e para Michelle, que fazem aniversário respectivamente no sábado e no domingo.

O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Gabriela Biló/Estadão

Mas a realização de uma reunião de cúpula dos Poderes, para a qual não foi convidado e na qual o único representante do Executivo foi o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e a confirmação das primeiras mortes em razão do novo coronavírus levaram o presidente a mudar o tom. O recuo também coincide com as primeiras defesas mais incisivas de seu impeachment, por ex-aliados, analistas e até parlamentares.

Por fim, o Ministério Público de Contas entrou com representação no TCU para que se avalie se Bolsonaro cometeu crime contra a saúde pública ao cumprimentar simpatizantes na manifestação no domingo.

Em uma de suas usuais paradinhas na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro foi solícito com a imprensa, falou pausada e calmamente e procurou demonstrar mais preocupação com a pandemia. Anunciou a realização de nova reunião com os mesmos participantes da segunda-feira nesta quarta, desta vez no Planalto e com sua participação. Afirmou que todos os ministros estarão à disposição em seguida para esclarecer o que foi discutido.

Embora ainda esteja reticente quanto à recomendação de que o País deveria parar para achatar a curva de disseminação do coronavírus, o presidente já não se refere à pandemia como fantasia ou histeria. Para ele, uma recessão econômica grave pode ser mais causadora de mortes que o surto.

Ensaiou começar uma crítica a governadores que adotaram medidas mais restritivas, mas se conteve. Mesmo quando interrompido pelos jornalistas, respirou e pediu para que o deixassem prosseguir.

Havia um claro esforço de contenção de um Bolsonaro para lá de tenso, com semblante assustado. Quando mortes começam a ser contabilizadas fica difícil sustentar uma narrativa política golpista e fantasiosa, e o presidente parece ter sido alertado de que seu apoio junto à população declinava.

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