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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Bolsonaro vive novo caso ‘golden shower’, diz pesquisador

Vera Magalhães

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A reação das redes sociais à ameaça feita por Jair Bolsonaro de “encher de porrada” a boca de um repórter do jornal O Globo que o questionou sobre depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, atingiu a mesma proporção da repercussão do vídeo que o presidente postou em suas redes no Carnaval do ano passado mostrando uma pessoa urinando na cara de outra.

“A julgar pela ocupação dos replies (respostas) do post de hoje de Bolsonaro, dá para ver que a conta do presidente vive um novo golden shower”, definiu o pesquisador de comportamento nas redes sociais Fabio Malini (@fabiomalini no Twitter), em conversa com o BRPolítico.

Procurei Malini porque foi ele quem, com agilidade já na noite de domingo, começou a mapear o alcance da reação de jornalistas, formadores de opinião e, depois, do público em geral, à agressão de Bolsonaro ao repórter.

Houve milhões de postagens com variações da pergunta que levou Bolsonaro a se enfurecer: afinal, por que Fabrício Queiroz depositou R$ 89 mil em 21 cheques na conta de Michelle?

Ainda de madrugada, Malini mapeou a ocorrência de 1.035.521 mensagens únicas marcando Bolsonaro com a pergunta. Ele elaborou um gráfico de fluxo de conversas no Twitter em que o nome do presidente aparece como uma bola gigante para a qual convertem milhões de questionamentos.

Gráfico elaborado por @fabiomalini com incidência de perguntas a Bolsonaro

No gráfico, ele juntou todos os retuítes, posts e respostas. “O resultado disso é a valorização dos perfis mais mencionados. Em geral, numa situação de crise, o alvo da indignação se destaca. Bolsonaro ficou sozinho. E cercado”, analisou ele, no Twitter.

Fora 335 mil usuários encontrados por ele que entraram no “perguntaço” ao presidente. Ele notou ainda um comportamento novo: milhares dessas pessoas não quiseram retuitar influenciadores, e preferiram repetir a pergunta com sua própria autoria. “O nome disso é gente simulando um comportamento automatizante. Todos em uníssono atacando o mesmo alvo com o mesmo texto”, notou. Para Malini, esse tipo de iniciativa provoca pânico nos poderosos, pela perda de controle das próprias redes.

No episódio mencionado do golden shower, Bolsonaro acabou removendo o vídeo e se desculpando. Depois, tratou-se de colocar a culpa no filho Carlos.

Agora, o expediente da rede bolsonarista, depois de horas de silêncio perplexo, foi forjar uma montagem tosca, que foi parar no Twitter pelo blogueiro Allan dos Santos, alvo de inquérito do STF e que deixou o País recentemente, em que a pergunta do repórter é adulterada para tentar justificar a reação violenta do presidente. Mas o truque foi tão mal feito que o próprio Santos removeu o post – que, no entanto, serviu de narrativa para influenciadores que atuam em veículos da grande imprensa e compõem a tropa de choque passapanista.

A reação a Bolsonaro uniu jornalistas em cobrança explícita ao presidente, outro aspecto ressaltado pelo pesquisador. Ele diz que será importante verificar se essa forma de lidar com o presidente por parte da imprensa vai se institucionalizar e dar origem a iniciativas como um “perguntaço dominical”, por exemplo.

Nos Estados Unidos, as sistemáticas investidas de Donald Trump contra a imprensa geraram uma atitude muito mais combativa por parte de jornalistas, sobretudo os de opinião, nas redes sociais. Bolsonaro aos poucos desencadeia o mesmo fenômeno no Brasil.