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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta para economista do Ipea: Inflação de mais pobres segue choques em alimentos

Equipe BR Político

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Em 2019, famílias mais pobres foram as mais oneradas pela inflação. De acordo com o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda divulgado na terça-feira, 14, a inflação para as famílias de renda mais baixa foi de 4,43%, contra 4,16% para as de maior poder aquisitivo no ano. De acordo com a economista Maria Andreia Lameiras, técnica em planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o efeito é explicado pela alta do preço dos alimentos, principalmente da carne. Segundo a pesquisadora, a expectativa é que em 2020 a tendência se reverta. “Esperamos desaceleração para todas as faixas, mas um pouco mais intensa para as faixas de menor renda”, disse em entrevista ao BRP.

O que influencia a variação da inflação para diferentes faixas de renda?

O índice de inflação é baseado em uma cesta de consumo. E dependendo da renda da família, os hábitos de consumo são diferentes. Então, por exemplo, quando há aumento de passagem aérea e combustível, se impacta muito mais as famílias de renda mais alta, porque são elas que viajam de avião, têm carro próprio e consomem combustível. Isso vai impactar pouco a inflação dos mais pobres, porque eles não fazem o uso desse tipo de serviço. Em compensação, quando há um aumento forte no preço de alimentos, por exemplo, impacta muito mais os mais pobres, porque como a cesta de consumo dessas famílias é mais limitada, o alimento acaba pesando muito. 

Por que foi maior para os mais pobres em 2019?

Os mais pobres têm como gastos principais alimentos, energia elétrica, transporte público. O grosso do gasto dessas famílias é com habitação e alimentação. Já os mais ricos são impactados por mensalidade escolar, plano de saúde e isso acabou variando um pouco menos em 2019. 

Isso explica não só a inflação de dezembro, mas um pouco da inflação do ano de 2019 como um todo. Fechamos o ano com a inflação dos mais pobres maior, porque foi um ano com uma inflação alta de preços de alimentos, principalmente ao longo do último trimestre por conta do preço das carnes, do frango, do ovo. 

Qual a previsão para 2020?

Imaginamos que esse problema com a carne se resolva. Até porque não é um problema gerado por nós, não foi nenhum efeito climático. Foi um choque de origem externa, o aumento das exportações para a China. Então esperamos que em 2020 haja um cenário de preços de alimentos mais comportados. Portanto, é esperada uma desaceleração da inflação para todas as faixas, mas um pouco mais intensa para as faixas de menor renda.

As expectativas de inflação para 2020 e 2021 mostram uma desaceleração a partir do momento em que esse choque de alimentos se dissipar. Isso mesmo se a economia aquecer um pouco mais, porque ainda há uma capacidade ociosa alta. Ainda temos margem para crescer sem pressão de preços. As expectativas de safra para 2020 são positivas. Então mesmo com uma aceleração da economia para 2020, não vemos no momento nenhuma pressão inflacionária para o ano.

A variação para as faixas de renda segue alguma tendência?

Não há um padrão, porque a inflação dos mais pobres é muito ligada ao comportamento de alimentos. Então em momentos em que se tem choques baixistas de preços de alimentos, como foi em 2017, em que tivemos uma supersafra, esse índice é menor. Em 2019, vimos o contrário, houve uma alta maior de preços de alimentos, que gerou uma inflação maior. / Roberta Vassallo

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