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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BR18 Analisa: Argentina e indicadores deveriam ser alerta para Bolsonaro

Equipe BR Político

Os indicadores econômicos nada auspiciosos e o resultado das primárias na Argentina, que apontam para a provável vitória da chapa Alberto Fernandéz-Cristina Kirchner, deveriam servir de alerta para Bolsonaro: pouco adianta a ideologia se a economia vai mal. Mas o presidente brasileiro parece não ver dessa forma.

Esquerdalha. Sim, porque a reação de Bolsonaro ao resultado da primária argentina foi recorrer à retórica ideológica mais rastaquera, ao dizer que o Rio Grande do Sul poderia virar uma nova Roraima caso a “esquerdalha” volte ao poder na Argentina. São tantas as impropriedades e imposturas da declaração, que é difícil até saber por qual aspecto abordar. Mas fiquemos naquele que deveria ser utilitário para o presidente brasileiro: Maurício Macri foi eleito numa onda de renovação e insatisfação com um governo populista de esquerda, que agravou o caos econômico argentino. Prometeu se pautar pelo receituário liberal e tirar o país do buraco, e não fez nem uma coisa nem outra.

É a economia. Numa decisão pouco racional, os argentinos querem se vingar (de Macri? De si mesmos?) devolvendo o país ao kirchnerismo. A lição de que o cerne das preocupações deveria ser a economia não parece, ainda, ter sido entendida no Planalto. Para Bolsonaro, tudo se resume a uma disputa binária entre esquerda e direita.

Um ano ou dois. Já diante dos indicadores que mostram a dificuldade de superar nossa própria crise, o presidente sugeriu que se perguntasse no posto Ipiranga, ou seja, a Paulo Guedes. Já o ministro, que antes prometia zerar o déficit primário no primeiro ano, agora quer um ano ou dois. Não ficou claro se 2019 já está na conta, ou se um ano ou dois a partir daqui. O fato é que nem a reforma da Previdência é mais vista como o elixir para todos os nossos males, e nas próximas, como a tributária, nada indica que a batalha política será mais suave.

Não se entendem. Prova disso é que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, atira contra alguns dos pilares da tributária que Guedes ensaia mandar para a Casa, sobre a qual escrevi na minha coluna de domingo no Estadão, e finca pé na proposta que já tramita por lá, apresentada pelo deputado Baleia Rossi a partir da ideia do economista Bernard Appy. Para Maia, a CP, reencarnação da CPMF com outro nome, não tem chance de passar no Parlamento, bem como o fim das deduções do Imposto de Renda, que também deve estar na proposta. Ou seja: vem uma nova batalha por aí, com mais resistências (a começar do próprio Bolsonaro) que a da Previdência.