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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BR18 Analisa: Bolsonaro fala, fala, fala…

Vera Magalhães

Por Vera Magalhães

Jair Bolsonaro está em campanha para recuperar o tempo perdido de governo. As manifestações de domingo parecem ter dado ao presidente fôlego para voltar a se dirigir ao público, o que fez, nos últimos dias, em uma série de entrevistas e discursos. E do que falou? De tudo um pouco, sempre sob o prisma personalista. E aí é que mora o perigo.

Reeleição. Antes convicto em dizer que não disputaria a reeleição, Bolsonaro agora flerta abertamente com a possibilidade. Em entrevista à revista Veja, chegou a fazer uma estranha associação entre uma reforma política que reduza o tamanho da Câmara e a desistência de concorrer. “O que eu disse é que se fizermos uma boa reforma política eu topo ir para o sacrifício e não disputar a reeleição.” Não, não foi isso que ele disse no passado. Não, uma coisa (reeleição) não tem nada a ver com a outra (composição da Câmara). Não, a Câmara não deve reduzir o número de cadeiras. Portanto, se popular estiver, Bolsonaro será candidato à reeleição. O resto é volteio.

Previdência. Em entrevista ao The Noite, do SBT, Bolsonaro procurou demonstrar empenho com a reforma da Previdência. À Veja, explicou que agora, com os números corretos, passou a entender a necessidade da reforma. Mas foi nesta sexta, num evento em Goiânia (GO), que ele mostrou o padrão Bolsonaro de negociar a Previdência. Disse que, a pedido da primeira-dama, Michelle, pediu ao secretário da Receita, Rogério Marinho, que mude o item da reforma que reduz a pensão por morte para portadores de deficiência. Justificou que pedidos da primeira-dama são inadiáveis, como se a discussão da reforma fosse uma questão doméstica. Falou do tema sem pedir impacto financeiro da mudança, sem levar em conta que a proposta já está sob o escrutínio da Câmara e fazendo questão de criar uma aura mítica de preocupação social em torno da primeira-dama, com fins de melhora de imagem.

STF. No mesmo evento, Bolsonaro disse que está na hora de o STF ter um ministro evangélico. Por quê? Porque Bolsonaro não concorda com a decisão de tornar crime nos moldes do de racismo a homofobia. Acha que o Supremo legislou –no que está correto. Mas qual a solução para isso? Misturar questões religiosas com a indicação de ministros do Supremo, ignorando os pressupostos da Constituição para a composição da Corte e o fato de que o Estado é laico, certamente não é.

Manifestações. Bolsonaro voltou a fazer distinção entre as manifestações contra os cortes na educação, que, nas duas entrevistas que concedeu, repetiu terem sido apoiadas por “inocentes úteis”, e aquelas em defesa de seu governo, essas sim espontâneas. Fez uma definição própria de democracia, que seria a expressão da vontade direta do povo, de cunho plebiscitário permanente.

Política x missão divina. Embalado pela manifestação pró-governo, Bolsonaro mostra nas entrevistas estar convencido do caráter quase divino de sua missão. Diz que o povo está cansado da forma tradicional de política, que, a seu ver, acabou, e que a cadeira presidencial lhe pesa como a criptonita para o Super-Homem, mas ele resistirá –inclusive a supostas “sabotagens” que aponta, sem dizer de onde vêm– em nome da tal missão divina que recebeu. Messianismo em doses cavalares, num país com a economia estagnada.

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