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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BR18 Analisa: Congresso quer blindar reformas contra falas de Bolsonaro

Equipe BR Político

Por Marcelo de Moraes

A sequência de falas desastradas de Jair Bolsonaro acendeu o sinal de alerta entre os defensores das reformas previdenciária e tributária e de outros temas considerados importantes dentro da agenda de projetos para a retomada de crescimento. Para impedir que a discussão dessas propostas seja contaminada pelos efeitos negativos de eventuais declarações do presidente, a ideia é tentar produzir uma espécie de blindagem em torno das reformas. Negociações que dependerem da participação do Planalto serão feitas pelo Congresso diretamente com a equipe econômica e com a Casa Civil.

Existe uma preocupação com o estrago político causado pelas declarações fortes de Bolsonaro, incluindo o ataque feito ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, envolvendo seu pai, Fernando Santa Cruz, que era integrante da AP e foi morto durante a Ditadura, mas nunca teve seu corpo encontrado. Ou pelo tratamento considerado pejorativo contra os nordestinos, chamados de “paraíbas”, e que pode ter efeito sobre o humor da bancada de parlamentares da região.

Hora de estratégia. Como ainda precisa votar o segundo turno da reforma da Previdência, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), botou a barba de molho e intensificou a agenda de conversas para limpar o terreno político. A conclusão da reforma está marcada para a próxima terça e, em tese, conta com ampla maioria favorável. Mas, com o clima político se agitando, a cautela aumenta e os mapas de votação já começaram a ser feitos nas conversas que o presidente da Câmara teve com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e com o secretário nacional de Previdência, Rogério Marinho. No primeiro turno foram conseguidos 379 votos, uma vantagem para lá de confortável, Mas, em votações importantes, descuidos na articulação costumam custar caro.

Acabou o amor? Nas últimas semanas, PSDB e governo parecem estar se afastando cada vez mais e movimentos nesse sentido estão ficando mais frequentes. Uma das razões é que os dois grupos poderão estar em lados opostos na disputa presidencial de 2022, com o governador de São Paulo, João Doria, possivelmente enfrentando Jair Bolsonaro. Mas esse confronto pode ser antecipado já nas eleições municipais do próximo ano.

Sobrou para o Posto Ipiranga. Nesse movimento, o alvo do dia foi o ministro da Economia, Paulo Guedes. Como o BR18 revelou, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, decidiu rebater as críticas feitas por Guedes, que tem dito que os problemas do País são consequência de um período de 30 anos de social-democracia. Em nota oficial, o dirigente tucano falou do legado deixado pelos governos do PSDB e lembrou ao ministro que, enquanto o partido reformava o País, o presidente Jair Bolsonaro preferiu se alinhar ao PT. “Nesse período, enquanto o PSDB era chamado de ‘neoliberal’, o presidente Bolsonaro votava com o PT contra o Plano Real, contra a reforma da Previdência, por mais privilégios aos setores corporativos e defendia ditadura”, criticou.

Cada um trata de si. João Doria também ajudou a reforçar o movimento de afastamento do governo. Ao falar sobre a relação do PSDB com o Planalto, Doria afirmou que “nunca tivemos alinhamento automático com governo Bolsonaro e nunca foi preciso porque as medidas que forem boas, nós apoiamos e apoiaremos. A nossa posição não mudou”. Com Bolsonaro se desgastando politicamente a cada declaração desastrada, os tucanos parecem estar percebendo que é melhor começar a desembarcar de um projeto que pode estar fazendo água. Mas, ocupando vários cargos estratégicos, tudo indica que esse processo vai ser daquele jeito: nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação.

Dia D. Depois de Jair Bolsonaro ter chamado de mentirosos os dados do desmatamento na Amazônia, divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a instituição deve enfrentar um dia decisivo para o futuro de seus levantamentos. Os ministros da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se reúnem, nesta quarta, com o diretor do órgão, Ricardo Galvão, para receber as explicações sobre como os dados foram obtidos. A questão é que Bolsonaro não aceita a informação de que o desmatamento na Amazônia possa ter aumentando, mas a situação ficou pesada porque Galvão rebateu publicamente suas críticas com uma fala duríssima. A reunião vai mostrar se alguns dos lados vai piscar e recuar.