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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BR18 Analisa: Para destravar reforma, Guedes faz gesto para o Congresso

Marcelo de Moraes

Por Marcelo de Moraes

O ministro da Economia, Paulo Guedes, teve de entrar em campo, nesta quinta, para tentar apagar o incêndio político em que se transformou a discussão da reforma da Previdência. Nos planos originais da Comissão Especial que discute o assunto, o relator Samuel Moreira (PSDB-SP) leria seu parecer complementar nesta quinta e o texto seria votado na próxima técnica. O cronograma foi barrado no fim da noite de ontem, quando os líderes partidários avaliaram que não havia clima para sequer abrir uma sessão da comissão. Somente um movimento de Guedes falando com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, por telefone e se reunindo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e se propondo a participar mais ativamente das negociações políticas da reforma serviu para abaixar a temperatura e sinalizar com a possibilidade de a reforma voltar aos trilhos na próxima semana.

Vale de lágrimas. Além de ainda terem dúvidas técnicas sobre pontos da proposta, como a inclusão de Estados e Municípios e as regras para policiais e professores, os parlamentares não escondiam sua insatisfação com o tratamento recebido do governo. Nas conversas, vários líderes reclamaram que se sentiam como bucha de canhão na discussão da reforma. Ao votar pela proposta, assumiam o ônus do desgaste político em mexer com um tema tão sensível como a Previdência, sem qualquer respaldo do governo, que seria o maior beneficiado com a aprovação. Pelo contrário: deputados e senadores se queixavam que estavam sendo xingados e chamados de ladrões nas redes sociais por iniciativa de grupos e políticos ligados ao bolsonarismo. E qualquer pleito legítimo para liberação de recursos ou emendas era carimbado nas redes como “toma lá, dá cá” ou fisiologismo. E, nesse quadro, não seria possível discutir nada na reforma.

Fogo na floresta. Já havia focos de incêndios por toda parte. Davi Alcolumbre, por exemplo, acabou não indo a um jantar em homenagem ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, organizado pelo senador Marcos do Val e com a presença do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro. O próprio Paulo Guedes também tinha ajudado a aumentar a confusão, depois de fazer críticas ao Congresso, chamando-o de “máquina de corrupção” numa conversa com o governador do Ceará, Camilo Santana, e com outros parlamentares. Guedes alega que sua fala foi tirada de contexto. Fora de contexto ou não, os líderes partidários decidiram que não iam votar mais nada. Por isso, o movimento de Guedes pedindo uma espécie de trégua serviu para serenar os ânimos.

Montanha russa. Como era previsível, o mercado sentiu o efeito negativo do adiamento das discussões da reforma e começou a despencar. Mas a reação aconteceu na mesma velocidade assim que Alcolumbre e Guedes deram uma entrevista coletiva juntos, afirmando que governo e Congresso estavam trabalhando para conseguir construir uma reforma positiva e também para ajudar Estados e Municípios a se recuperarem economicamente.

Entusiasmo demais. Paulo Guedes acabou se entusiasmando com o sinal de entendimento e aproveitou para fazer anúncios em outras áreas. Mas o entusiasmo causou mais ruído. Depois que o Banco Central anunciara na quarta a liberação de R$ 16 bilhões em compulsórios, Guedes disse que o governo pretende liberar mais de R$ 100 bilhões desses recursos no futuro para estimular o crédito privado. Foi o suficiente para o BC soltar uma nota para dizer que a ação sobre os compulsórios ainda está em curso “sem definições de prazos ou montantes” e acrescentar que o “BC não antecipa decisões ou regulações”.

Desgaste do governo. Além de ver a tramitação da reforma dar uma freada, o governo também teve outra má notícia. Pesquisa CNI/Ibope mostrou queda na avaliação e na popularidade de Jair Bolsonaro. A pesquisa mostra uma queda de 17 pontos percentuais na popularidade da gestão desde janeiro. O levantamento mostra, ainda, que no segundo trimestre, 32% dos brasileiros avaliaram o governo como ótimo ou bom. Esse número caiu 3 pontos em relação ao último levantamento, feito em abril. Também somam 32% aqueles que consideram o governo como regular. Há dois meses, este número era de 31%. E subiu para 32% a soma dos que acham o governo ruim ou péssimo, sendo que anteriormente eram 27%.

Drogas no avião. Em viagem oficial ao Japão, Bolsonaro mostrou todo o seu desconforto em relação à crise provocada pela prisão, na Espanha, de um sargento levando 39 quilos de cocaína dentro de um avião da FAB. O avião fazia parte do grupo de aeronaves que integrava a comitiva do presidente. “Vai pagar um preço alto ainda. Não sei se tem prisão perpétua na Espanha”, disse Bolsonaro.