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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Brasil: O epicentro é aqui e agora, apontam especialistas

Cassia Miranda

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O Brasil já é o novo epicentro da pandemia do coronavírus. E, se as medidas de combate à covid-19 permanecerem frágeis, o País tem tudo para ficar sob esse status por mais tempo do que foi com a região de Wuhan, na China, e da Lombardia, na Itália, por exemplo. Até mesmo do que foi nos Estados Unidos, na avaliação do professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) Domingos Alves.

Seguindo um ritmo de crescimento próximo aos 10 mil casos por dia, o Brasil deve ultrapassar França (178.349) e Itália (221.216) até a próxima semana

Brasil já superou a casa dos mil mortos por covid-19 em 24h Foto: Antonio Lacerda/EFE

Oficialmente, o País registrava até o último domingo, 17, 241.080 casos confirmados e 16.118 óbitos em decorrência do novo coronavírus. No entanto, de acordo com estudos do grupo de pesquisa Portal Covid-19, que tem 40 membros, e é liderado por Alves, há pelo menos 16 vezes mais infecções no Brasil do que as estatísticas oficiais mostram. E é nesse cenário de subnotificação que o País se enquadra como o atual epicentro da pandemia.

“Tipicamente o epicentro é definido pelo volume de pessoas infectadas e o volume do número de mortos. O que a gente vem divulgando é que o Brasil não vai ser o próximo epicentro, o Brasil já é o epicentro mais importante ou que tem uma emergência mais palpável da epidemia da covid no mundo”, aponta Alves. Na avaliação do pesquisador, o cenário político contribui para evidenciar que o País amargará o status de epicentro por um bom tempo.

Dados extraoficiais

Até o último dia 13 de maio, o Portal Covid-19 estima que o Brasil tinha 2.574.397 casos de covid-18, quase o dobro do número de casos registrado nos EUA na mesma data (1.364.06). O número apontado pelos pesquisadores foi calculado com base em modelos matemáticos que usam a taxa de letalidade da Coreia do Sul, um dos poucos países que tem conseguido realizar testes em massa – o que sugere que o índice seja mais próximo do real. A taxa de letalidade dos casos é ainda ajustada a partir de um deslocamento temporal entre o registro de óbitos e a confirmação de casos.

“O que o Brasil está publicando, são tipicamente os casos de internação”, aponta Alves. “A grande massa, que são a chama dessa fogueira da epidemia, que a gente está observando aqui no Brasil, que são os assintomáticos e os sintomáticos leves, estão ainda em circulação, não estão sendo levados em conta. Por não testar, a gente não tem a ideia do número de casos real”, diz.

Enquanto ainda era ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em meados de abril, chegou a admitir que os números oficiais eram inferiores ao número real de infectados. O Brasil é um dos países com menos testes de covid-19 no mundo. Já o substituto na pasta, Nelson Teich, também ex-ministro da Saúde, ainda em abril, afirmou que o Brasil “é um dos países que melhor performa em relação à covid”, ignorando o cenário de subnotificação. Segundo Alves, se forem observados apenas os dados oficias do Ministério da Saúde a situação “aparenta estar muito boa”.

A ponta do iceberg

Para o infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), José David Urbaéz, o deslocamento do epicentro dos Estados Unidos para o Brasil encontra aqui “componentes de gravidade” mais prejudiciais em relação à epidemia do que foi nos outros países. “Talvez a gente não verifique esses números com tanta intensidade porque a nossa subnotificação é maior que a que acontece nos EUA. Então, estaremos assistindo esse epicentro se desenhar entre nós com uma subestimação desse epicentro”, diz.

Segundo Urbaéz, isso faz com que nós não estejamos vendo o todo do problema. “Não estamos apenas enxergando a ponta do iceberg, estamos enxergando uma ponta muito entortada porque nem em todos os casos nós conseguimos fazer diagnósticos, nem em todos os lugares nós temos ferramentas as disponíveis, esses diagnósticos chegam, na maior parte dos casos, com muito atraso e, portanto, nós temos uma enorme lacuna de conhecimento mais próximo da realidade que está acontecendo”, aponta. Na avaliação do infectologista, com o espalhamento do vírus pelas periferias das grandes capitais, nas próximas duas ou três semanas, nós vamos ter uma “escalada exponencial” no número de casos.

O epidemiologista e professor da Universidade Federal de Pelotas Pedro Hallal também concorda que o Brasil está na rota de epicentro da doença, mas é mais comedido na avaliação. “Existe essa possibilidade (de o País ser o próximo epicentro), especialmente porque a epidemia já está em fase de declínio na maioria da Europa e nos Estados Unidos, enquanto o Brasil ainda não apresenta esse declínio, visto que o vírus chegou aqui um pouco depois desses lugares”, aponta.

Neste cenário, ele concorda com Alves e aponta que o isolamento segue sendo a medida mais eficaz a ser adota. “A principal medida de combate é o distanciamento social, visto que ainda não há vacina nem medicamento comprovadamente eficaz. As políticas de distanciamento nas cidades brasileiras deverão respeitar o estágio da pandemia em cada local, a disponibilidade de leitos de enfermaria e UTI, entre outros indicadores”, diz.

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