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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Brasil tenta avançar na corrida pela vacina contra covid-19

Equipe BR Político

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No último sábado, 27, o Ministério da Saúde anunciou um acordo com Universidade de Oxford e farmacêutica AstraZeneca para compra de lotes de vacina para covid-19 e transferência de tecnologia. No Brasil, a vacina será desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que usará a tecnologia estrangeira para fabricar a imunização que será distribuída no País. Além de parcerias, grupos de pesquisa brasileiros também estão desenvolvendo vacinas. Das centenas de estudos, 15 já estão iniciando a etapa final, chamada de teste clínico, no qual as vacinas são testadas em humanos. Essa última etapa é divida em três fases e apenas a vacina de Oxford entrou na fase 3.

Foto: Axel Schmidt/Reuters

Participação brasileira

A vacina da AstraZeneca e da Oxford começou a ser testada em voluntários semana passada no Brasi. Aqui no País, os estudos estão sendo liderados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Testes também estão sendo realizados no Reino Unido e na África do Sul. “A gente não vê o Brasil participando de uma série de iniciativas e coalizões internacionais de financiamento que foram implementadas há alguns meses, desde março, e que os países mais proeminentes nessa discussão têm participado, o que é uma pena”, disse a médica Cristiana Toscano, professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em epidemiologia, única pesquisadora brasileira no grupo da Organização Mundial da Saúde (OMS) que investiga vacinas contra o covid-19.

O cenário da participação brasileira na corrida pela vacina começou a mudar no fim da semana. Na sexta-feira, 26, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, confirmou a participação brasileira no fundo internacional da entidade contra a covid-19, iniciado em abril. O fundo precisa arrecadar cerca de US$ 31,3 bilhões em 12 meses para garantir o acesso mundial e igualitário das tecnologias relacionadas ao combate do coronavírus. “Seria um momento oportuno para o Brasil de fato se posicionar de maneira mais proativa nesse cenário. O Brasil tem um parque de produção de vacinas muito grande e tem um histórico de priorizar a alto suficiência da produção de imunobiológicos”, completa Cristiana. Para a médica, o acordo entre o governo federal e Oxford firmado no sábado, 27, é uma iniciativa positiva que deve ser fortalecida.

“A vacina da Oxford é uma vacina de vetor viral não replicante. Nessa tecnologia, existe um vírus, no caso da vacina da Oxford, é um adenovírus de primatas não humanos, que é geneticamente modificado para que ele não seja um vírus viável e nem que cause doença, ele nem se replica, na verdade”, diz. Esse vírus seria como se fosse um envelope. Dentro dele são inseridas partículas do genoma do Sars-CoV-2. “Especificamente essa vacina da Oxford, do fato dela usar esse vetor, tem um aspecto positivo, porque é um vírus ao qual o ser humano não foi exposto antes. Se você utiliza o vírus ao qual o ser humano já possa ter sido exposto, ele pode interferir na reação imunológica”, avalia.

Apesar de a vacina de Oxford estar em fase mais avançada, outras duas vacinas estão perto de iniciar a fase 3. Uma delas é a vacina americana desenvolvida pela farmacêutica Moderna. Outra é a vacina chinesa da Sinovac, uma vacina de vírus inativados. “É uma tecnologia que a gente chama de tradicional, porque é utilizada para a produção de diversas vacinas que estão em uso atualmente nos programs de vacinação. Ela utiliza mecanismos físicos e químicos para inativar o vírus, então ele não é capaz de causar a doença, mas ele é capaz de estimular a resposta imunológica”, afirma Cristiana. O governo de São Paulo anunciou, em 11 de junho, um acordo entre o Instituto Butantan e a Sinovac Biotech.

Nesta parceria, o ensaio clínico vai verificar eficácia, segurança e o potencial do medicamento para produção de respostas imunes ao coronavírus nos 9 mil voluntários brasileiros, explica o governo paulista. “O Butantan vai preparar centros de pesquisa para condução dos estudos em todo o Brasil. Se a vacina for aprovada, a Sinovac e o Butantan vão firmar acordo de transferência de tecnologia para produção em escala industrial tanto na China como no Brasil para fornecimento gratuito ao SUS (Sistema Único de Saúde).” Para Cristiana, a iniciativa do governo do Estado de São Paulo é louvável. “Todas as iniciativas de participar do processo de produção, enquanto grupo de pesquisa ou de produção enquanto capacidade tecnológica, utilizando o que o Brasil possui para produzir vacinas com outras empresas ou outros grupos mundiais, é louvável e deve ser buscado. Eu acho que é uma iniciativa positiva.”

Iniciativas brasileiras

Grupos de pesquisas brasileiros começaram a desenvolver vacinas contra a covid-19. “Existem alguns grupos que já estão na fase pré-clínica com vacinas que tão sendo monitoradas pela OMS”, diz Cristiana. “Em fase pré-clínica, em particular, a gente tem o grupo da USP que trabalha com o desenvolvimento de uma vacina utilizando uma tecnologia de VLP, que são as partículas virus like, e tem também o grupo da Fiocruz de Minas Gerais que em parceria com o Instituto Butantan está desenvolvendo uma vacina também em estágio pré-clínico.”

Pesquisadores do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), começaram a testar em camundongos três diferentes formulações de vacinas contra a covid-19, utilizando a estratégia do uso de partículas semelhantes ao vírus para desenvolver a vacina. Já a pesquisa da Fiocruz Minas também está na fase de testes em animais e envolve o uso do vírus influenza, que é um vírus enfraquecido. O patógeno é modificado para produzir tanto as proteínas do vírus da gripe quanto uma proteína chamada de imunogênica, que induz resposta imune, no caso ao SARS-COV-2. / Júlia Vieira, especial para o BRP

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