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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta: ‘Não muda muito termos Weintraub ou nenhum ministro’, diz Tabata

Gustavo Zucchi

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Em seu primeiro mandato como deputada federal, Tabata Amaral (PDT-SP) tem sua curta trajetória na política diretamente relacionada com o Ministério da Educação. A parlamentar começou a ganhar destaque justamente ao confrontar Ricardo Vélez Rodrigues, primeira escolha de Jair Bolsonaro para o MEC, e demonstrar o despreparo do ideológico ministro para comandar a Educação brasileira. Mais de um ano depois, ela vê a pasta bater cabeça ao perder Carlos Decotelli, nome considerado técnico, por causa de seu currículo artificialmente inflado. E avisa, em entrevista ao BRP, que o maior problema era que os necessários debates capitaneados pelo ministério estão parados há tempos.

A deputada Tabata Amaral

A deputada Tabata Amaral Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Essas questões já estavam paralisadas com o ministro Abraham Weintraub. Elas não foram resolvidas. Então não muda muito a gente ter um ministro como o Weintraub ou não ter nenhum ministro. A gente apenas não está passando todos os dias por vários retrocessos, como foi a questão da edição da portaria de inclusão na pós-graduação”, afirmou.

Mais do que isso, a parlamentar demonstra preocupação com a futura escolha do presidente da República para uma das mais importantes pastas do Executivo. O cargo de ministro da Educação é disputado entre o grupo ideológico do governo, pelo Centrão e pelos militares, que indicaram Decotelli como um nome mais técnico.

BRPolítico – Como você está vendo essa situação do Ministério da Educação, que em menos de uma semana ganhou e perdeu um ministro?
Tabata Amaral – Quando falamos do (Carlos) Decotelli, primeiro tem um pano de fundo que é muito preocupante, que é o quanto que a Educação não é prioridade para esse governo. Tivemos primeiro um ministro totalmente paralisado, que não conseguia apresentar nada. Na sequência vem um que também não apresenta nada e faz do MEC um palanque para guerra ideológica. E não avança em áreas tão simples como alfabetização e no Fundeb (o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). Algum esforço nesse momento de pandemia. E aí a gente vê esse ministro caindo, não porque ele não priorizou Educação, porque não fez nada durante a pandemia, mas porque se complicou em uma de suas muitas confusões criadas. Ai vem um ministro, que já sabíamos que teria um desafio enorme de tentar fazer alguma coisa, em um MEC com um passivo de um ano e meio de paralisação e em um governo que parece não gostar muito de pessoas técnicas. É totalmente imoral essas tantas mentiras. Mas ele teve um tratamento diferente do que teve a Damares (Alves, ministra da Família, Mulheres e Direitos Humanos) e o (Ricardo) Salles (do Meio Ambiente). E a gente se questiona por que mentiras em seus currículos foram perdoadas para ministros zero técnicos e que vêm da ala ideológica, enquanto viram crimes imperdoáveis para alguém que não é dessa ala. Eu até questiono o quanto de racismo não contribuiu para isso. 

Você acredita que essa saída precoce do Decotelli aconteceu parte por que ele não pertence à ala ideológica, parte por causa do racismo?
Acho que é uma mistura das duas coisas. Primeiro um governo que perdoa qualquer coisa, desde que venha de sua ala ideológica. Segundo que tem o componente do racismo. E não porque eu discordo das críticas feitas ao Decotelli, mas porque me surpreendi que elas não foram feitas para Damares Alves e Ricardo Salles.


Nota da redação: A ministra Damares Alves se apresentava inicialmente como “advogada” e “mestra em educação” e “direto constitucional e da mulher”. Posteriormente reconheceu que não possuía formação acadêmica e que seus títulos eram “bíblicos”. Ricardo Salles tinha currículos em que aparecia com um mestrado na Universidade de Yale. Ele atribuiu a informação a um “equívoco” de sua assessoria.

Alguns debates importantes do MEC estão paralisados, como o Fundeb, a realização do Enem neste ano e sobre protocolos de retomada das aulas. O quão esse bate-cabeça na troca de ministro atrapalha o ministério?
Só uma adição, essas questões já estavam paralisadas com o ministro Abraham Weintraub. Elas não foram resolvidas. Então não muda muito termos um ministro como o Weintraub ou não ter nenhum ministro. A gente apenas não está passando todos os dias por vários retrocessos, como foi a questão da edição da portaria de inclusão na pós-graduação. Sobre o Fundeb, foi muito difícil carregar essa discussão sem a participação do ministério, mas foi um trabalho muito bacana feito por muitos parlamentares e hoje temos um texto possível de ser votado. Na questão da retomada das aulas é algo muito difícil de você fazer com o MEC ausente. Não há nenhum esforço tanto para retomada com aulas nas redes sociais, nem para quem não tem recursos e que precisa ter garantida a educação presencial. Nenhum esforço de coordenação entre os quase 6 mil municípios. Mas eu gostaria de ressaltar algumas iniciativas, como o projeto em que sou uma das autoras, junto da deputada Professora Dorinha (DEM-TO) e do deputado Idilvan Alencar (PDT-CE), que pega recursos do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) para levarmos acesso à internet e equipamentos em toda rede pública. Outro projeto cria conselhos nos níveis municipal, estadual e federal para que tenhamos uma retomada organizada das aulas, colocando quais são os parâmetros, quem deve ser ouvido. E tem essa questão do Enem que me preocupa muito.

Por quê?
Toda a condução desse processo. Primeiro foi necessário que o projeto fosse quase aprovado pelo Congresso para que o MEC fizesse alguma coisa sobre a mudança de data das provas. Aí você leva tudo para uma consulta pública, sabendo que nem todos têm acesso à informação, nem à internet. Para mim, foi como uma cereja do bolo, que mostra o quão excludente está sendo toda essa questão. Mas realmente dependemos do MEC. Então temos que fazer pressão. Esperar que o novo ministro faça um diálogo não só com os estudantes, mas com os secretários de Educação. Para que possamos ter um novo calendário letivo. Que dê segurança que todos os alunos vão ter acesso ao conteúdo, seja com reposições de aula, seja com a educação presencial. Não vejo como marcar uma data para o Enem sem ter uma conversa sobre o calendário. 

Você tem algum receio de que a ala ideológica possa conseguir emplacar um nome mais parecido com o de Abraham Weintraub?
Eu tenho todos os receios do mundo. Porque estamos falando da coisa mais importante para esse País. Para termos alguma chance de nos recuperarmos dessa crise econômica, política, sanitária e social. Vamos ter de investir em educação. Meu medo de termos mais um ministro ideológico, e sabemos que a sobrevivência deles é muita alta no governo, é que eles colocam os recursos, os cargos, as ferramentas do MEC a serviço de um projeto pessoal. Que é o que a gente está vendo. Tenho uma profunda discordância da minha visão de mundo com a do governo. Mas mesmo as pessoas que apoiam o presidente deveriam levar isso em conta. É o que mais me incomoda e entristece é que nada foi feito nesse um ano e meio. Não tem ideologia que explique essa paralisação. A gente vai colocar o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) à disposição de uma área fisiológica do Congresso para poder garantir que o Bolsonaro não será questionado na Câmara. Então, eu entendo que algumas pessoas concordem com a visão de mundo do presidente, mas se elas se importam de fato com nosso País, elas deveriam impedir o que está acontecendo.