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por Marcelo de Moraes

BRP Pergunta: A Petrobrás de hoje seria capaz de descobrir o pré-sal em 2006?

Alexandra Martins

Trabalhadores da plataforma P-66, um emaranhado de tubos e grandes estruturas de metal cercados de água por todos os lados Foto: Fabio Motta/Estadão

O BR Político convidou o professor William Nozaki, da Escola de Sociologia e Politica de São Paulo (Fespsp), também diretor-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP), para fazer uma análise geral do que representam as políticas de desinvestimento da Petrobrás ao longo dos anos, especialmente a partir do anúncio nesta semana do Plano Estratégico 2021-2025 da estatal.

BRP – Nos ajude a elaborar um entendimento macro do que está ocorrendo com a Petrobrás, levando em conta sua política de enxugamento, seu novo plano quinquenal, seu foco no pré-sal e na dispensa das refinarias.

William Nozaki – O ponto de partida para fazer uma contextualização geral é que, nos últimos anos, a Petrobrás tomou uma decisão nos seus planos estratégicos de se transformar numa empresa focalizada na área de exploração e produção de petróleo, concentrada nas águas profundas e ultraprofundas do pré-sal. A Petrobrás veio se consolidando como uma empresa integrada que atuava na prospecção e exploração da produção de petróleo, mas também no segmento de gás, energia renovável, distribuição, logística e outros elos do conjunto da cadeia produtiva de óleo e gás.

Nos últimos anos, a decisão da companhia foi de deixar de ser uma companhia integrada e se converter numa empresa enxuta, concentrada naquilo que ela entendeu que era o seu foco de negócios, que é a área de pré-sal. É a partir dessa decisão central que conseguimos fazer a leitura de todo o pacote de desinvestimento e descapitalizações que a Petrobrás vem implementando nesse período.

Por conta dessa decisão, ela, em primeiro lugar, avançou na venda do conjunto dos ativos e das participações que a empresa tinha fora do Brasil, como por exemplo, na Bolívia, no Paraguai e outras unidades de operação fora do País. Depois, ela tomou a decisão de se retirar do segmento de petroquímicos. Ela vendeu, por exemplo, a participação que tinha na Braskem e outras menores do setor petroquímico.

Na sequência, se avançou em direção à venda dos ativos relacionados ao gás natural. Uma parte da malha de gasoduto, unidades de gaseificação e liquefação também foram postas à venda. O mesmo aconteceu no setor de renováveis, nos segmentos de etanol, biocombustível, nos últimos anos. Isso tem culminado nos anúncios mais recentes de venda também de uma parte significativa do parque de refino da empresa, cerca de metade dele.

Quantas refinarias?

Ela tem hoje, no total, nove refinarias e, por etapas, vai fazer a venda de metade do parque de refino. Está se transformando cada vez mais numa empresa mais enxuta e cada vez mais concentrada exclusivamente na exploração e produção de petróleo.

Por um lado a justificativa para essa decisão, ainda na gestão passada, no governo Temer, teve como elemento disparador toda aquela discussão sobre a corrupção e as investigações da Lava Jato, que foram associadas ao ajuste das contas da empresa.

Por outro, o endividamento da empresa. Em terceiro, o argumento de que a empresa era excessivamente grande e era preciso abrir espaço no mercado brasileiro para a concorrência desse conjunto de segmentos que ela atua.

Nacionais, internacionais ou independe?

Na decisão, independe. O que temos observado, na prática, é que os desinvestimentos têm significado também a desnacionalização, que a maior parte deles tem sido adquirida por consórcios ou por grandes empresas estrangeiras ou por grande participação de investidores institucionais de fora. Tem um grau de desnacionalização bastante grande nesse pacote de desinvestimento.

São a preços de mercado ou mais em conta para agilizar o processo?

Para responder com precisão é preciso olhar ativo por ativo. Varia muito, não tem uma regra geral. Tem ativos que estão precificados por valores que eles realmente valem. O problema principal não passa por essa questão.

Qual seria?

O problema principal, no meu ponto de vista, passa pelo fato de que como os ativos do pré-sal estão concentrados no eixo Rio-São Paulo, além dessa desnacionalização, por conta da venda para investidores e empresas de fora, há uma preocupação com o fato de que a Petrobrás vai deixar de ser uma empresa que opera no conjunto do território nacional para operar fundamentalmente na Região Sudeste, mais especificamente na costa do Rio de Janeiro e São Paulo, que é onde estão as principais bacias do pré-sal. Esse elemento, do meu ponto de vista, é uma novidade que diferencia esse pacote de privatizações daquele iniciado com a quebra do monopólio na década de 90 no governo Fernando Henrique. Ali se tinha uma diretriz de enxugar a empresa, mas menos radical que a atual.

Como se deixasse de ser nacional?

Isso. Ela deixa de ser nacional no duplo sentido. Primeiro porque vende os ativos para investidores de fora, e também porque a atuação que ela mantém no território nacional vai se convertendo numa empresa regional.

Nós já chegamos a esse ponto?

Estamos caminhando para isso de maneira bastante acelerada. Eu penso, considerando tudo aquilo que já foi vendido e aquilo que já está em fase mais avançada de negociação, que é muito difícil reverter esse processo e voltar a imaginar a Petrobrás como uma empresa que atua de forma integrada em todo território nacional.

O que já foi vendido nos faz falta hoje ou era um mercado onde não precisávamos estar? Deveria ter havido mais cautela? Nós nos tornamos dependentes desses próprios ativos que já vendemos?

Para responder, vou te dar dois exemplos relacionados à nossa conjuntura de pandemia e isolamento social. Nesse período, experimentamos um cenário de redução significativa da demanda por petróleo por conta do desaquecimento de setores muito relevantes, de transporte, logística, turismo, enfim, a diminuição de mercadorias e pessoas também significou uma diminuição de demanda por óleo bruto. Mas as pessoas continuam em suas casas consumindo derivados de petróleo. Digo isso porque o preço do barril do petróleo oscila ao sabor da dinâmica do mercado financeiro, mas também de questões políticas e geopolíticas que envolvem essa commodity.

Vide o problema entre a Arábia Saudita e Rússia neste ano.

Ótimo exemplo. Quando o preço do barril do petróleo está alto, as companhias ganham muito com o setor de exploração e produção. Quando o preço diminui, as companhias compensam essa perda ganhando na área de refino porque o refino agrega valor. Para além da discussão, digamos, de viés nacionalista, sobre a manutenção ou não da Petrobrás como empresa nacional, tem um problema de mercado dos próprios acionistas, que é a construção de uma Petrobrás que fica mais desguarnecida em momentos de redução do preço do barril do petróleo, como esse que estamos experimentando agora. Exatamente porque ela não tem ou não vai ter o mesmo parque de refino que tinha antes.

Que ajudavam na composição das receitas.

Exatamente. Uma outra variável que dialoga com a nossa conjuntura é que as discussões sobre a pandemia e o que vai acontecer ainda nesse período de recuperação, criam uma sensibilidade maior, tanto na sociedade quanto entre alguns investidores institucionais, para a agenda, não só da saúde, mas para a agenda do meio ambiente, climática e esse conjunto de discussões de descarbonização que vem com esse processo.

Então, nós estamos entrando num cenário onde uma parte significativa das grandes petrolíferas, da Europa e da Ásia, estão realizando pacotes de investimentos em energias renováveis, vislumbrando mudanças que possam acontecer nos próximos anos. E ao se desfazer do setor de renováveis, de biocombustíveis e diminuindo investimento em pesquisa nessa área, eu penso que a Petrobrás não está se preparando da melhor forma para os desafios do futuro. A Petrobrás é, senão a única, certamente uma das poucas empresas que nessa conjuntura não aumentaram seus investimentos em renováveis.

Em comparação a quais outras empresas?

Fundamentalmente com as petrolíferas europeias, como a Total, da França, a BP, da Inglaterra, e com as petrolíferas da Ásia, sobretudo as chinesas.

Mas isso não deveria ser foco de atenção? 

Isso é resultado dessa decisão de que ela deve ser uma empresa de exploração e produção de petróleo única e exclusivamente. A perspectiva do plano estratégico não é tratar a Petrobrás como uma empresa do setor energético, mas do setor de petróleo stricto sensu. Nesse cenário que estamos vivendo, penso que é uma decisão, no mínimo, imprudente para as transformações que devem acontecer nesse período pós-pandemia. E penso que significa abrir mão de novas oportunidades em outros segmentos de energia que tendem a ganhar robustez daqui para frente, e não me parece ser o caminho mais adequado.

William Nozaki. Foto: Fespsp

O que diz o plano estratégico sobre isso?

Aí tem uma coisa curiosa porque o plano estratégico que foi anunciado faz um ajuste no plano estratégico anterior. Ele mantém as diretrizes da Petrobrás para os desinvestimentos, na focalização da produção e exploração do pré-sal, mas ele apresenta, exatamente para dar resposta a essa crítica que estou fazendo, duas novas métricas de avaliação do desempenho da empresa, que têm interface com essa discussão ambiental. Que são: uma política mais rigorosa para evitar vazamento de óleos e derivados e outra para diminuir a emissão de gases do efeito estufa.

Como se daria essa diminuição desses gases?

Passa por duas dimensões. A primeira é aperfeiçoamento técnico para evitar e diminuir a emissão de gases poluentes no próprio processo de produção das unidades de exploração e produção. Outra dimensão curiosa é que como ela mantém as diretrizes de desinvestimento, portanto ela está diminuindo de tamanho, então o efeito colateral disso é a diminuição da emissão de gases.

A atual gestão da estatal está atenta a jogadas internacionais de forma que consiga manter a empresa robusta, ou seja, esse plano estratégico é rentável?

A atual gestão está atenta a essas movimentações, mas ela escolheu se inserir nesse cenário de uma maneira subordinada. Porque a Petrobrás considera nesse plano estratégico que os próximos anos o preço do barril do petróleo vai ficar lá em baixo. Ela trabalha com uma projeção de preço da ordem de US$ 35 o barril, que é menor aos cerca de US$ 50 que ela trabalhava antes e muito menor ainda do que aquele preço do período do boom das commodities quando o barril chegou a US$ 100. Como todo o cenário geopolítico e empresarial petrolífero hoje está vivendo os efeitos colaterais, a guerra comercial das disputas que vão surgindo por conta da pandemia, muitas das grandes empresas estão fazendo caminho estratégico oposto ao da Petrobrás. Elas estão atentas à área de refino, de gás e para a área de renováveis mais do que a Petrobrás. Elas estão interessadas em comprar esses ativos exatamente para ter um leque de possibilidades maior diante da redução do preço do barril do petróleo. E é exatamente porque as empresas estão interessadas em comprar esses ativos é que a Petrobrás consegue vender aquilo que ela está propondo a desinvestir.

Isso se dá também porque essas compradoras produzem pouco petróleo?

Não só, algumas delas são empresas que estão em países que são grandes produtores, por exemplo, tem empresas do Oriente Médio que têm feito grandes investimentos em fundos verdes e projetos de energias renováveis, como os da Arábia Saudita, Omã, Iêmen, com grande potencial de exploração e produção.

A decisão da Petrobrás foi de aproveitar o cenário em que diversas outras empresas do setor estão caminhando para ser mais integradas, mais verticalizadas, e fazer o caminho contrário. O que orienta esse caminho contrário, em parte, é uma posição, do meu ponto de vista, mais ideológico do que pragmático, orientada por essa ideia um pouco exagerada de que a venda da Petrobrás vai criar uma concorrência no mercado brasileiro, que vai viabilizar o surgimento de outros players, com preços melhores. Mas como esse setor é fundamentalmente oligopolista, é muito imprudente trabalhar com essa perspectiva do meu ponto de vista.

Esse caminho indica que vamos ser mais dependentes do mercado externo ou busca a autossuficiência?

O paradoxo dessa situação é que as reservas do pré-sal são tão vigorosas, têm uma capacidade de produção tão grande, que a autossuficiência do Brasil em petróleo não está ameaçada, mas a autossuficiência em derivados e refinados fica ameaçada diante dessa estratégia. O que tende a acontecer, na prática, é o Brasil vender óleo bruto para fora e importar sob forma de derivado.

Quais seriam esses derivados?

Vai desde de diesel, gasolina, QAV, que é combustível para aviação, a combustível para navio.

E como está a curva da importação desses derivados?

Isso já tem se expressado nos dados e talvez o mais contundente, que aconteceu agora na pandemia, foi que a Petrobrás aumentou significativamente a importação de gás. E aquele derivado que nós produzimos, não necessariamente são os que abastecem o mercado interno. A Petrobrás, por exemplo, teve um enorme ganho no último trimestre com a exportação de combustível de navio porque o óleo brasileiro para navio tem um grau menor de enxofre do que de outros países. Teve uma mudança na legislação internacional exigindo menos emissão de enxofre por parte dos navios. Então, a Petrobrás vendeu mais. Mas é um derivado que não abastece o mercado interno.

Como andam os investimentos no Cenpes (Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello, unidade da Petrobrás voltada para a pesquisa, um dos maiores complexos de pesquisa aplicada à indústria de energia do mundo. Tem 56 anos), responsável pela descoberta do pré-sal?

Esse também é um elemento que causa preocupação porque a Petrobrás já foi no passado uma das petrolíferas que mais investiam em pesquisa e desenvolvimento no mundo, inclusive, você escutou o Guilherme Estrela (ex-diretor da Petrobrás) dizendo que o Cenpes viabilizou a descoberta do pré-sal. Mas nos últimos anos, no último plano de negócio, o que tem acontecido é uma redução bastante significativa de investimento na área de pesquisa.

Também tem outro elemento que causa preocupação. Ainda que nós admitamos que a estratégia da Petrobrás é concentrar no pré-sal, ainda sim fica uma pergunta em aberto. Essas reservas são muito ricas, muito produtivas, mas elas terminam. Como a Petrobrás vai lidar no futuro com o fato de que ela não está fazendo grandes investimentos em descobertas de novas áreas hoje? A taxa de reservas de petróleo sob posse da Petrobrás, por exemplo, diminuiu nos últimos anos.

A níveis preocupantes?

Não em níveis preocupantes, mas já deram os primeiros sinais de encolhimento, já é algo que precisa ser observado. As reservas que já foram descobertas, em cada bacia, cada plataforma, cada campo, têm um plano de produtividade e que vai sendo desenhado à luz de quanto a unidade de operação produz e para onde ela vende. Isso varia.

Aquelas reservas onde a Petrobrás já tem a concessão, ela pode utilizar à luz das suas decisões internas. Mas o preocupante é que ela não tem sinalizado em direção a novas pesquisas para descobrir novas fontes de petróleo como aconteceu com o pré-sal.

A Petrobrás que se desenha nesse plano estratégico é uma Petrobrás que nunca poderia, por exemplo, ter descoberto o pré-sal. É uma empresa muito menor, mais setorizada e regionalizada.

Estamos cobertos por quanto tempo?

Em geral, as projeções do mercado usam 2050. Para indústria de petróleo, é um período relativamente curto porque o processo de pesquisa, descoberta e exploração é longo.

Para onde o plano estratégico vira as costas?

Todas as outras áreas que não forem o pré-sal, além de toda a lista que citamos acima, como gás, refino, distribuição, logística, petroquímica, renováveis. Ela também está se desfazendo dos ativos de exploração e produção em terra e em águas rasas. Anuncia no plano que deve investir nos próximos cinco anos de US$ 55 bilhões, e desses, US$ 46 são para exploração e produção no pré-sal.

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