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por Marcelo de Moraes

BRP Pergunta: Após encalhe, governo tem interesse em testar população?

Alexandra Martins

Para o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, a reunião técnica realizada na manhã desta quarta, 9, com parlamentares e representante do Ministério da Saúde para falar da destinação dos kits de teste de covid-19 com validade a vencer deixou mais dúvidas que respostas. O Estadão revelou que cerca de 7 milhões de unidades estavam paradas em galpão da pasta em Guarulhos.

“O Brasil continua sendo um dos piores colocados em testagem por milhão de habitante entre os países com maior número de casos e mortes. O Brasil está na posição de 98º país no dia de hoje por testes por 1 milhão de habitantes e convive com a incompetência absurda de ter 6 milhões de testes encalhados”, lembra o médico.

Segundo ele, a extensão de prazo dá uma sobrevida para esses kits, mas sem a aquisição dos extratores de material genético não será possível utilizá-los. Leia abaixo a íntegra da conversa.

O deputado federal Alexandre Padilha. Foto: Michel Jesus/Agência Câmara

BRP – Como avalia os anúncios do Ministério da Saúde durante a audiência, especialmente o da extensão do prazo de validade dos teste?

Alexandre Padilha – Os anúncios de medidas que o Ministério da Saúde contou durante a comissão, inclusive de extensão de prazo de validade pela Anvisa, não respondem ao problema dos testes estarem encalhados, que o que faz os testes estarem encalhados é que a compra dos kits foi incompleta e, mesmo sabendo que a compra dos kits foi incompleta desde o final do primeiro semestre, o Ministério da Saúde, até agora, não comprou em número suficiente um componente muito importante para que os Estados e municípios possam utilizar esses kits, que são os chamados extratores do material genético.

Embora o Ministério da Saúde saiba dessa situação desde o final do primeiro semestre, a equipe militar especializada em logística foi incapaz, até agora, de adquirir esses extratores genéticos. Esse é o principal motivo de os testes estarem encalhados.

A extensão de prazo dá uma sobrevida para esses kits, mas sem a aquisição dos extratores de material genético não será possível utilizá-los. Sem completar o kit, não tem como Estados e municípios realizarem a testagem. Cerca de 15 dias o Ministério da Saúde disse no gerúndio que estava abrindo pregão de licitação para aquisição de 8 milhões de extratores. Hoje, na audiência pública, em nenhum momento deu uma data concreta, em nenhum momento deixou claro os passos para que essa data concreta de aquisição aconteça.

Em nenhum momento foi dado não só a data concreta, mas os passos que foram tomados de 15 dias pra cá para que isso de fato aconteça. A grande dúvida que fica no balanço das respostas do Ministério da Saúde a essa situação vergonhosa descoberta pela imprensa dos testes encalhados é se isso é apenas incompetência para executar, para compreender e planejar a logística, como o ministério já demonstrou em outros momentos, ou se tem uma intencionalidade. Se de fato não interessa ao Ministério da Saúde termos um programa amplo de testagem no País.

Donald Trump se colocou contra a testagem em massa.

Trump chegou a dizer que os Estados Unidos deveriam parar de testar, porque quanto mais testava, mais número de casos eram descobertos, maior numero de mortos relacionados à covid-19 eram descobertos e isso não pegava bem para os Estados Unidos. Essas idas e vindas, essas demonstrações absolutas de incompetência no planejamento e na execução de algo relativamente concreto dentro da amplitude que há no Ministério da Saúde para garantir um programa de testagem deixa dúvidas se é só incompetência ou se a intenção é não garantir mesmo testes para a população brasileira.

Isso é um problema gravíssimo porque a população depende do SUS para ter testes da covid-19. Não à toa, levantamento feito até setembro deste ano, 93% dos testes que haviam sido realizados no Brasil para covid-19 foram pelo Sistema Único de Saúde.

Caberá aos Estados e municípios levarem adiante os testes?

Diante desse misto de incompetência em executar a logística e falta de compromisso e intenção em garantir um amplo programa de testagem no Brasil, nós vamos continuar dependendo das iniciativas de Estados e municípios. As cidades que tiveram um programa de testagem em massa, como Araraquara, como Niterói, como Maricá foram cidades que fizeram isso a partir da iniciativa municipal. Infelizmente, nós estamos cada vez mais dependentes das iniciativas locais para fazer algo que era para ser garantido pelo governo federal.

O que mais ficou sem resposta na audiência?

Por exemplo, a pergunta se o Brasil vai ou não vai colocar no seu programa do governo federal de testagem a metodologia de teste do antígeno, que tem sido usado em vários países no mundo, inclusive no Brasil por municípios, inclusive no serviço médico da Câmara dos Deputados se testa, se utiliza o antígeno como testagem.

Já foi anunciado, o ministério já voltou atrás, mas continuamos sem saber de fato o que vai ser feito.

As metas de testagem que haviam sido anunciadas pelo ministro Pazuello, logo quando ele assumiu o ministério, o programa que anunciou, estão mantidas, vão ser cumpridas esse ano? Não vão ser reprogramadas para o ano que vem? Quais são as metas de testagem? Acabamos a reunião sem saber. Quando que o Ministério da Saúde terá kits extratores de material genético para permitir que Estados e municípios possam usar os testes encalhados? Encerramos a audiência sem saber de fato quando que isso vai acontecer.

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