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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRP Pergunta: ‘País está entrando numa situação grave’, diz Hartung

Vera Magalhães

O ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung, hoje na iniciativa privada, enfrentou de forma dura no início de 2017 um motim dos policiais militares em seu Estado. Afastou os policiais, não cedeu ao que classificou como “chantagem” contra a população e se recusou a conceder reajustes. Na ocasião, a partir do Espírito Santo se espalhou um movimento por outros Estados, e a postura de não negociar do então governador foi considerada essencial para que a situação não saísse de controle.

Depois da eleição de 2018, o atual governador, Renato Casagrande, anistiou os policiais que se amotinaram.

O ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung

O ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung Foto: Gabriel Lordello/Estadão

Diante de uma nova onda de sublevações de PMs em vários Estados, com o caso extremo do Ceará, onde policiais mascarados atiraram duas vezes contra o senador Cid Gomes (PDT), o BRP procurou Hartung para traçar um paralelo entre os dois movimentos e projetar o que pode vir a seguir. Aqui os principais trechos da entrevista:

BRP – Foi surpresa que tenha eclodido um novo movimento de policiais em vários Estados?

Paulo Hartung – Esse movimento não começou ontem nem anteontem. Esses sinais são crescentes há pelo menos 30 dias. No Espírito Santo houve passeatas de policiais há cerca de 20 dias. Em Minas esse movimento vem há um mês. Estive no Ceará e já havia um movimento lá. Hoje eclodiu na Paraíba, e já há relatos de movimentações na Bahia, em Santa Catarina e em outros Estados. Essa coisa é nacional, de novo. No episódio do meu governo já era nacional. A grande marca que ficou foi porque o Espírito Santo parou o movimento que se espraiava para todo o País. Mulheres de militares já estavam ocupando quartéis no Pará, em outros Estados.

BRP – Houve a seu ver um caldo de cultura político para que os policiais voltassem a se organizar?

Hartung – Sim, existe um movimento sindical, com liderança nacional. Cometeu-se um erro na reforma da Previdência que foi excepcionalizar policiais e militares. A partir do momento em que a filosofia a nortear a reforma era o combate aos privilégios, e você excetua uma categoria para que mantenha os privilégios, você está empoderando essa categoria. Por isso é que a reforma do RH do Estado é fundamental: é preciso reorganizar completamente essa carreira, estabelecendo critérios de tempo de trabalho, promoções, mérito.

BRP – Existe espaço no quadro fiscal dos Estados para conceder reajustes a forças de segurança, como foi feito em Minas?

Hartung – Não faz o menor sentido os Estados brasileiros, com o tamanho da crise fiscal que enfrentam, concederem reajustes a servidores neste momento. Uma onda nesse sentido inviabiliza completamente o Plano Mansuetto e as medidas de ajuste que estão sendo implementadas aos poucos.

BRP – É preciso uma sinalização firme por parte do Supremo e do Executivo no sentido de condenar a greve de policiais, por ser inconstitucional?

Hartung – O Supremo voltou a decidir essa questão depois dos movimentos de 2017 e o fez de forma unânime, no sentido de que é inconstitucional greve de servidor que porte arma. Quando foi no Espírito Santo, eu puni os responsáveis. Mas agora estão na rua de novo, liderando o movimento. Acho que o País está entrando numa situação grave. As principais lideranças do País precisam tomar consciência do que está se passando. Ministros do STF, lideranças do Legislativo, o Ministério Público Federal e o Executivo federal precisam ser claros em condenar esses levantes e dizer que são inconstitucionais.

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