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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRP Pergunta: ‘Pandemia tem mais relevância que o 11 de Setembro’

Alexandra Martins

O professor de política internacional Dawisson Belém Lopes*, da UFMG, aposta no caminho intermediário entre as vias antagônicas do multilateralismo e nacionalismo previstas para o cenário mundial pós-pandêmico. Num primeiro momento, diz, nações devem se voltar para questões domésticas, enquanto numa segunda fase, será preciso um concerto coletivo a favor da reconstrução, a exemplo do que ocorre em contextos de pós-guerra. Na sua avaliação, a atual crise terá mais impacto para a ordem internacional que o 11 de Setembro. Com relação ao Brasil, seu posto será de pária, avalia. Leia a seguir a entrevista concedida ao BR Político.

BRP – Como o senhor avalia o atual momento de crise global?

Dawisson Belém Lopes – Talvez estejamos diante do primeiro desafio efetivamente global que acomete os cinco continentes do planeta Terra. É o primeiro fenômeno simultaneamente global e de grande gravidade. Claro que você tem consequências diferenciadas em cada lugar, da China ao Brasil, dos Estados Unidos à África, da Europa à Austrália. Mas ninguém está a salvo da pandemia.

Por que você acredita nessa tese?

Digo isso mesmo se você toma como referência um evento tão grande, em magnitude e abrangência, como a Segunda Guerra Mundial, que foi aquele conjunto de eventos, entre 1939 e 1945, que atingiu de forma desigual as várias partes do mundo. Algumas regiões do planeta não foram teatros de batalha, como as Américas, onde a guerra não aconteceu num sentido físico. Dessa vez é diferente. Estamos assistindo a uma ameaça que vai consumir vidas numa escala muito importante, mobilizando as sociedades, com todas as economias afetadas, de forma multissetorial. É muito impressionante.

Como contextualizar o debate da importância da vida em relação à economia?

Eu estava pesquisando sobre organizações internacionais voltadas para saúde pública no início do século 19. Achei uma discussão fabulosa, dizendo que, próximo de 1830, foi fundado um Conselho Superior de Saúde, que estaria voltado para a coordenação das práticas de Estados nacionais que usavam comercialmente o porto de Constantinopla (atual Istambul). Eles começaram a se coordenar porque estavam preocupados com o efeito econômico de uma crise sanitária provocada pela cólera. Isso era o século 19 já mostrando uma preocupação em não causar muito impacto econômico, posto que os mares eram o lugar por excelência do livre comércio. Havia uma preocupação humanitária, mas também econômica. Houve, sim, um dilema econômico nessa crise de saúde pública no mundo. Hoje, o que tenho notado, é que o debate dicotomizado está ficando para trás. Demagogia das lideranças ou não, essa linha de preservar a vida é, na realidade, tutelar o maior bem do ser humano. Ela tem de prevalecer. Não consigo ver no mundo, nesta altura dos acontecimentos, outro lugar onde ainda se esteja tratando a crise nos termos que o Brasil está fazendo. Já se dá por suposto que haverá uma crise econômica grande, durante e imediatamente após a pandemia. O pessoal já está internalizando a crise, tentando mitigar os efeitos dela. Mas já se percebeu que não é mais o caso de mandar a população para a rua. O medo já tomou as ruas. Nas grandes cidades, o sistema de saúde pública estará muito em breve sobrecarregado. Fico com impressão de que estamos atrás nessa linha do tempo. O debate no Brasil hoje está superado no tempo. Já houve uma antecipação em outros países da percepção de que não há como passar ileso por esse processo. Há uma tendência global de empobrecimento. A China agora está esperando uma contração de 10% no PIB trimestral, e isso vai se repetir em todo lugar. Ao dicotomizar, o presidente está perdendo o trem da história.

Domesticamente essa postura é notória, mas como o Brasil é visto pelo resto do mundo no combate à pandemia?

Já está ficando mais ou menos clara a perplexidade do mundo com o presidente Jair Bolsonaro. Ian Bremmer (cientista político), que não tem evitado apontar o dedo a ele, diz que “esse cara vai matar muito gente”, que ele é “o pior líder no mundo” e que “lida de forma desastrosa com a pandemia”. A OCDE cobra uma postura mais assertiva baseada em dados científicos, mais responsável para enfrentamento da pandemia. Já há uma tendência de o Brasil ser pária nesse processo. Esse descolamento do resto do mundo não é positivo, pois vai dificultar um processo de reconexão no pós-pandemia. O Brasil vai derretendo nessa crise. Gente com 30 anos de idade, população economicamente ativa, está morrendo de covid-19. Não adianta falar que só velhinho vai morrer. Aqui o caso parece ser diferente, com mutações genéticas do vírus. Epidemiologicamente, é preocupante. Estamos diante de uma das maiores tragédias coletivas que o Brasil já enfrentou nos seus quase 200 anos de Estado independente.

E o embate diplomático do Brasil com a China?

Parece que vivemos o que a Holanda viveu com a chamada “doença holandesa”, quando um país, num dado momento, fica muito dependente de um certo gênero, que passa por uma apreciação no mercado. Alega-se que a Holanda passou a investir só em tulipa lá atrás. O Brasil também passou a padecer de uma certo tipo de doença holandesa: está viciado em vender commodity para a China. A China tem exata dimensão de quanto o Brasil depende dessas compras da soja e minérios, e eles não se comovem com as bravatas de Bolsonaro que vêm desde 2018. Isso não é um problema para os chineses. O que aconteceu nesse episódio (de Eduardo Bolsonaro atribuindo a doença ao ‘vírus chinês’) foi uma performance do embaixador chinês para passar alguns recados de que a China merecia respeito. Foi de fato um pito passado para Eduardo, mas um recado também para o presidente e o Brasil. Não acredito que esse conflito irá para a gavetinha dos rancores. É o pragmatismo operando, do tipo: ‘Se quiserem continuar com desplantes, atenção, vocês têm conseguido mais coisa conosco do que com os Estados Unidos, ou seja, estamos aqui estendendo a mão com mais perspectiva de sucesso’. Eu não vejo um abalo na relação Brasil e China. Mas nessa relação assimétrica, o Brasil depende mais da China do que o contrário. Isso tudo, no entanto, é ruim, porque desgasta as relações.

Como a China, enquanto país comunista, pode sair dessa crise?

Não há dúvidas de que há lições a aprender. A força da China, no atual contexto, é arrebatadora, dando aparência de para onde o futuro aponta de forma resoluta. Sobretudo se olhamos para os Estados Unidos, que agora estão de joelhos e sem perspectiva clara de melhora. Esse é um ponto muito importante. Parece que o mundo ficou um pouco mais chinês, um pouco menos estadunidense. É muito cedo para falar de declínio irrefreável da liderança global de Washington. Mas a impressão é de que a pandemia fortaleceu a posição da China de grande potência e liderança emergente. Outro dia mesmo o protocolo sanitário de Hubei foi ridicularizado. Dizia-se que a quarentena era um negócio medieval e, de repente, o mundo está fazendo igual, mostrando uma certa liderança intelectual da China. Isso é extraordinário.

Como o senhor vê as possibilidades das correntes nacionalistas e multilateralistas no pós-pandemia?

A corrente multilateralista defendida, por exemplo, pelo historiador Yuval Harari (autor de Sapiens e Homo Deus) é mais otimista que a do economista Branko Milanovic (que aposta no caminho do nacionalismo). Segundo Harari, é inevitável que os países encontrem caminhos conjuntos para mitigar os efeitos da pandemia. Acho, no entanto, que é possível considerar os dois cenários ao mesmo tempo. Num prazo imediato, Branko está certo, pois não vai ser fácil voltar ao status quo ante. Vai ter que haver muita coordenação, por exemplo de como serão os aeroportos, se vão medir nossa temperatura ou exigir mais carteira de vacinação. Acho que não vai ser tão simples a retomada da mobilidade internacional. Até porque as economias vão operar num regime autárquico voltado para mercados domésticos. Muito do que experimentamos agora em termos tecnológicos vai ser permanente. Há o prenúncio de que, por um bom tempo, não vamos experimentar um alto grau de multiculturalismo. Mas também, segundo diz Harari, essa só foi a primeira pandemia da década. Vão acontecer outras. Ele sugere caminhos, como o de criação de uma espécie de corpo médico transnacional que possa atuar rapidamente, com recursos do FMI e outras fontes, nas situações emergenciais. Esses momentos de grande desarranjo, de grandes guerras, grandes epidemias são, tradicionalmente, de reconstrução da ordem internacional. Depois que Napoleão tenta conquistar o mundo no século 19, nasce a Santa Aliança e todo o concerto europeu que iria governar o mundo. No fim da Primeira Guerra, surgem os Estados Unidos com os 14 pontos de Wilson (exposto pelo presidente Woodrow Wilson como plano de paz). Da Segunda Guerra, nasceu todo o complexo internacional, como ONU, FMI, Banco Mundial e OCDE. Eu não tenho dúvida de que este momento é também o momento de recriação de instituições, de novas práticas, de novos modos convívio, de novos comportamentos, que já estão nascendo. Esse atual contexto tem mais relevância para a ordem internacional do que o 11 de Setembro, por não ser um problema com só um ator principal. É algo que vai afetar todo o planeta, mas dos escombros vai nascer um mundo novo. O que vem pela frente é um mix dessas duas coisas – globalismo e nacionalismo. A retomada é um processo difícil, como num cenário pós-guerra. 2021 não será um ano tranquilo e normal. Talvez só em 2022 haverá mais folga e estabilidade. A vida, porém, não está em suspenso, os processos continuam acontecendo. Alguns países vão usar essa epidemia, como a Hungria, para ter mais poder. Segue o jogo.

*Faz parte do Comitê Permanente de Acompanhamento das Ações de Prevenção e Enfrentamento do Novo Coronavírus da UFMG.

O professor Dawisson Belém Lopes, da UFMG

O professor Dawisson Belém Lopes, da UFMG Foto: Márcio Bonfim