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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta: Com 2ª maior fatia de fundo, PSL passa por refluxo?

Equipe BR Político

Com a segunda maior fatia de fundos públicos financiadores de eleição, o PSL elegeu 89 prefeitos pelo País na eleição de domingo, 15, contra 30 em 2016. Ainda que tenha triplicado seus representantes, a título de comparação, o MDB elegeu neste ano 774 prefeitos, o Progressistas, 682, o PSD, 650, o PSDB, 512, e o DEM, 459. O PT, que vem em ritmo de queda desde 2016, levou quase o dobro de prefeituras que o PSL (e no geral em municípios bem mais populosos).

A deputada federal Joice Hasselmann, que foi candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PSL

A deputada federal Joice Hasselmann, que foi candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PSL Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Em 2018, com pouco dinheiro do fundo eleitoral, o partido elegeu a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. 

Na avaliação do cientista político da UnB André Borges de Carvalho, a performance do PSL aquém do esperado se deveu em parte à falta de organização do partido, que não se esforçou para sair de uma estrutura nanica e ainda enfrentou um racha interno que dificultou a concentração em uma estratégia única para esta eleição, entre outras particularidades do pleito deste ano. Ao BRP, o analista fala ainda sobre as perspectivas futuras da sigla.

BRP – Por que PSL teve desempenho tão fraco nesta eleição, mesmo largando com um dos maiores recursos para campanha do País?

André Borges de Carvalho – O presidente Bolsonaro, quando tomou a decisão de sair do partido lá atrás, acabou rachando o PSL. O resultado disso é que se criou uma dificuldade de coordenação de campanhas. Alguns desses apoiadores de Boslonaro que estavam no PSL, por conta da briga interna, não tiveram espaço dentro do partido para lançar suas candidaturas e buscaram outros partidos, por exemplo o Republicanos, os próprios filhos do presidente estimularam as adesões. E como não teve uma coordenação feita de forma mais centralizada pelas lideranças partidárias se criou uma pulverização. Ao invés de ter um único nome do bolsonarismo, em muitas cidades o que aconteceu foi uma pulverização de vários candidatos disputando um mesmo eleitor, que é um pouco o que aconteceu em São Paulo, com Joice Hasselmann e Arthur do Val.

Como resultado se criou um vazio que foi ocupado pelos partidos que sempre foram os mais importantes, que têm capilaridade, estrutura, como o MDB, o PSDB, o DEM, que está se recuperando. Exatamente porque esses partidos têm o que o PSL não tem: organização, liderança, essa capacidade de montar uma estratégia de lançamento de candidaturas, é tudo que o lado bolsonarista não tem. O resultado da eleição está mostrando um certo refluxo da onda de 2018 simplesmente porque o grupo bolsonarista não tem partido, não tem organização, não tem capacidade de articulação e para piorar tudo está à frente de um governo que é muito mal avaliado.

Há este segundo problema, que é a alta rejeição ao presidente Bolsonaro. Se fez uma aposta com a alta da aprovação por causa do auxílio emergencial, mas a popularidade do governo é diferente da avaliação pessoal do presidente e a gente sabe que a avaliação de Bolsonaro é já há algum tempo pior do que a avaliação do governo. As últimas pesquisas já estavam mostrando que o porcentual de pessoas que aprovam Bolsonaro é praticamente igual ao de pessoas que rejeitam. Então ter o apoio de um presidente com esse perfil é uma faca de dois gumes. Isso permite talvez ganhar alguns eleitores que gostam muito do presidente, mas você vai perder aqueles que rejeitam fortemente. E aí para piorar, nas capitais, sobretudo do Nordeste e do Sudeste, a reprovação ao presidente é ainda mais alta do que a média. Isso se refletiu nos resultados. O presidente não foi um bom cabo eleitoral porque ele é um político divisivo, que gera muita rejeição e isso é um problema. E como se não bastasse, nas grandes cidades há um sistema de dois turnos que torna muito difícil para um candidato com rejeição elevada vencer a eleição. Então, no segundo turno, eu também não vejo nenhuma possibilidade de reação dos candidatos bolsonarismo. Vejo um cenário de dificuldades, que é o que vai acontecer com o Crivella, é muito difícil que ele ganhe.

O sr. falou de estrutura partidária. Como ela afeta as chances dos partidos e por que o PSL não conseguiu aumentar a sua mesmo com mais recurso e visibilidade?

Partidos como o MDB, PSDB, DEM têm diretórios estruturados em praticamente todos os municípios brasileiros. Isso significa que vai ter na base pessoas que trabalham para o partido. Não dá para viver de voluntários, tem que ter pessoas que trabalham e recebem para isso, que ocupam posições dentro do partido. E aí tem a questão da máquina das prefeituras. O sujeito que ganha a eleição de prefeito vai pegar aquelas pessoas que são filiadas ao partido e vai dar cargo para elas. Elas estão trabalhando para a prefeitura, mas é uma forma também de remunerar, dar um incentivo para a pessoa que trabalhe para o partido. Isso conta. Um partido que já tem essa estrutura, todas essas pessoas trabalhando para ele, que no dia da campanha vão pedir voto, vão para a rua participar de carreata, têm uma grande vantagem. 

E o PSL é um partido nanico, que em 2016 elegeu 30 prefeitos. Isso é muito pouco. A estrutura que ele tem é quase nenhuma. Então acho que isso era um pouco previsível. Quem poderia ter feito isso, investido, liderado essa expansão do PSL, estruturando, montando diretórios no Brasil inteiro, é o presidente Bolsonaro, mas ele não fez, porque esse não é o perfil dele. Ele é um personalista e achou que poderia vencer dentro de uma lógica personalista, apoiando aqui um, ali outro, sem se preocupar. E a eleição está mostrando que não é assim que as coisas funcionam. E para além disso, a quantidade de prefeituras que um partido ganha pode ter um efeito na eleição de deputados federais. Há alguns estudos que apontam para isso.

Para além do desempenho do PSL, qual é o cenário de forças partidárias desenhado pelos resultados da eleição nacionalmente?

Nesta eleição vemos os partidos mais tradicionais, uma centro-direita mais tradicional se saindo melhor do que o bolsonarismo e essas forças políticas que ganharam espaço em 2018. Os candidatos do presidente Bolsonaro se saíram muito mal, sobretudo nas grandes cidades. Por outro lado vemos bons desempenhos, sobretudo do DEM nas capitais e do PSDB. E o PSL está lá embaixo na lista de partidos. Na esquerda tem uma certa fragmentação. A gente vê o PDT e PSB na frente, mas isso era de certa forma esperado, porque ambos tiveram desempenho melhor que o PT em 2016. Mas temos que aguardar ainda os resultados porque sabemos que em várias cidades médias e sobretudo do entorno metropolitano o PT vai para o segundo turno com boas chances. É digno de nota também o desempenho muito ruim do Partido Novo, que teve uma estreia meteórica, mas que se olharmos nas capitais, não conseguiu nem ir para o segundo turno. / Roberta Vassallo

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