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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta com Marina Silva: ‘Essa política seria a morte das comunidades indígenas’

Vera Magalhães

A ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e três vezes candidata à Presidência da República Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, se disse perplexa e indignada com o discurso proferido por Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU. Em Nova York para participar de uma série de debates e encontros paralelos à reunião das Nações Unidas que têm a sustentabilidade como tema, Marina atendeu o BRPolítico nesta tarde para analisar a fala do presidente brasileiro.

Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e três vezes candidata à Presidência da República

Marina Silva. Foto: Clayton de Souza/Estadão

Com uma trajetória de décadas dedicada às questões ambientais, Marina, que se reuniu com acadêmicos, parlamentares brasileiros, investidores e professores de universidades norte-americanas, além do laureado com o Nobel da Paz Mohammad Yunus, ela se mostrou surpresa com a maneira como as pessoas a abordam quanto falam do atual momento da política do Brasil para o meio ambiente. “As pessoas pedem para me dar um abraço como se estivessem me dando pêsames”, afirmou. A seguir, os principais trechos da entrevista:

BRPolítico – Como a sra. viu o discurso do presidente Bolsonaro na ONU?

Marina Silva – Assisti ao discurso com perplexidade e indignação. É um discurso que coloca o Brasil em total isolamento em relação às democracias ocidentais. Um presidente que abre a Assembleia-Geral das Nações Unidas deixando de lado todos os grandes temas globais, como a emergência climática, a questão da migração e dos refugiados e a guerra comercial entre Estados Unidos e China, e também se mostra alheio aos graves problemas do nosso próprio País para fazer um discurso contra inimigos imaginários. Que evoca a Bíblia para dizer que a verdade liberta, mas a usa para negar a verdade. Na questão ambiental, ele ignora que as questões estruturais não estão resolvidas. O Orçamento do Ministério do Meio Ambiente não está recomposto. O Ibama e o ICM Bio estão sucateados, desaparelhados para fazer a fiscalização. As comunidades indígenas estão sofrendo violência sistemática. Como um presidente da República do Brasil usa a Assembleia-Geral da ONU para desconsiderar desta maneira o cacique Raoni, um ancião que é um dos líderes indígenas mais respeitados no mundo?

O que acha da defesa que ele faz da política de preservação da Amazônia pelo Brasil?

Se ele fala que o Brasil é um dos países que mais preservam, precisaria trazer dados para mostrar em que período isso começou, quando estancou e quando começou a declinar, que é agora, no governo dele. Está cientificamente documentado já que implementamos uma política pública que incidiu de forma eficaz para reduzir o desmatamento, e que isso começou em 2004, num período em que o Brasil crescia em média 4% ao ano, e o agronegócio crescia em uma média de 2%. E ainda assim o desmatamento caiu paulatinamente, graças a uma política de operações de fiscalização sistemáticas, corte de crédito para quem desmatasse, criação de áreas de preservação e a negativa de regularização de 47 milhões de hectares em áreas griladas, que depois foram regularizadas em 2009.

O que a sra. achou da defesa de exploração mineral e da biodiversidade em terras indígenas?

A fala do presidente Bolsonaro é um compêndio de tudo que atenta contra uma democracia ocidental, contra todas as conquistas civilizatórias. A fala dele sobre os índios é indigna. Para ser gente quer dizer que os índios têm de ser como nós, têm de ser aculturados? Todos nós somos gente, independentemente da cultura a que pertencemos. Bolsonaro demonstra uma visão etnocêntrica. Como o Itamaraty aceita e concorda que em pleno século 21 um presidente leve à Assembleia-Geral das Nações Unidas uma visão etnocêntrica, algo que já foi refutado pela filosofia, pelas religiões, pela ciência, pela história, pela sociologia?

E quanto à parte política do discurso presidencial?

Bolsonaro compra briga com a imprensa global e nacional, com a França, com a Alemanha, evoca uma guerra fria que não existe mais.

Mas houve uma consonância com o discurso de Donald Trump, como vem acontecendo.

A fala de Bolsonaro foi um couvert para o discurso do Trump. Parecia um jogral, que havia sido combinado.

Voltando à política para as terras indígenas, acredita que o STF vai impedir mudanças nesse capítulo da Constituição?

O Supremo tem como missão zelar pela Constituição, e ela assegura que as comunidades indígenas têm usufruto exclusivo das terras indígenas. O caso Raposa-Serra do Sul fixou o precedente de que essas áreas têm demarcação contínua. Uma política de mineração em terras indígenas é decretar o fim dessas comunidades. O sistema de vida, de governança, de economia dessas comunidades é completamente diferente. Significará matá-las por asfixia. Em pleno século 21 o presidente está propondo que se aculture os índios e que se imponha o nosso modo de vida a eles.