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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta para Alceu Moreira: ‘Preço da carne não volta mais aos valores de antes’

Marcelo de Moraes

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O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Alceu Moreira (MDB-RS), deixou claro que não há chance de o preço da carne voltar a cair ao patamar que existia no Brasil antes de sua elevação. Em entrevista ao BRPolítico, o líder da poderosa bancada ruralista afirma que as condições anteriores eram baixas demais e impediam que os produtores brasileiros garantissem uma renda justa até para continuarem investindo.

Foto: Divulgação FPA

“A carne não volta mais para os valores que tinha antes”, garante. “A carne bovina, suína, aves, ovos, tudo isso, vai ficar num patamar que permita ao produtor ter renda para fazer investimento”, acrescenta, lembrando que há um desequilíbrio maior nesse momento por conta do aumento das exportações de carne feitas pela China, que tem enfrentado perdas pesadas na sua produção por conta de problemas sanitários.

Alceu prevê que o mercado volte a se estabilizar em “seis meses, oito meses”, mas já com preços consolidados num nível maior que o antigo. A seguir, os principais trechos da entrevista ao BRP:

BRP – O preço da carne disparou nos últimos meses. Esse valor vai se reduzir?

ALCEU MOREIRA – “A carne bovina, suína, aves, ovos, tudo isso, vai ficar num patamar que permita ao produtor ter renda para fazer investimento. Ter carne barata na mesa das pessoas e o cidadão levar quase três anos e meio para botar 240 quilos no peso de um boi, criado de forma extensiva, não tem como tratar, porque dá prejuízo. Agora, o que vai acontecer? A carne não volta mais para os valores que ela tinha antes. Mas, em compensação, ela gera renda para o produtor, que se ele quiser trazer o boi para o semiconfinamento, ele pega uma pastagem da melhor qualidade, bota cocho com ração sem limite lá. Com um ano e oito meses, ele vai fazer o mesmo peso do boi que ele fazia em três anos e quatro meses. Mesmo peso. Se isso ocorrer, sabe o que vai acontecer com o terneiro dele? O terneiro valia R$ 980 e, do dia para a noite, ele passará a valer R$ 1.800. Porque em um ano e pouco você bota mais 200 quilos de carne nele”.

BRP – Então, esse preço da carne não volta mais só que era?

ALCEU – “O preço não volta. Mas vai ter um preço que seja sustentável. Agora, nesse momento, tem um desequilíbrio. Tem uma exportação a maior. O nosso sistema de criação está em três anos e pouco. Boi não é como porca que dá ninhada. Dá um de cada vez. Então, vamos ter de fazer um ajuste de mercado. Quanto tempo leva isso? Seis meses, oito meses. Toda essa bezerrada que está entrando agora, que ia para o campo extensivo, agora irá para o confinamento. Então, em vez de precisar de mais de três anos para gerar carne, vai levar menos tempo para produzir carne. Vai acontecer muito o sujeito que tem aquelas vacas que tiram leite e vai passar a alugar o ventre do animal. Vai pegar aquela vaca que tem pouco valor para servir como hospedeira para ter um terneiro. Tem mil saídas para isso. Mas tem um período de ajuste”.

BRP – Com o aumento dos ganhos pelo preço maior das carnes, os produtores vão ampliar seus investimentos em tecnologia e elevar a oferta das carnes no mercado?

ALCEU – “Só no Rio Grande do Sul, nesse momento, estão sendo construídos cerca de mil aviários. Tem município pequenininho, como Boa Vista, que, sozinho, já tem vinte. Eles estão botando fibra ótica em tudo que é cantinho dos municípios. Porque vai chegar o 5G. Eles vão controlar tudo pela telinha. Isso não era uma pauta do agronegócio. Imagina se eu falasse dez anos atrás em conectividade com um cara plantando milho? Ele me dava com a enxada na cabeça”.

BRP – Hoje, as exportações de carnes brasileiras dispararam por conta das compras feitas pela China. Mas esse aumento foi provocado pela peste que atacou a produção de suínos deles. Quando o problema acabar, não existe o risco de o Brasil perder essas vendas?

ALCEU – “Todo mundo fala que um dia eles vão ter suínos suficientes de novo. Eles não terão. Por mais que a China produza, naquele modelo de terra tudo pequenininha, eles vão produzir, quando estiverem na plenitude, cerca de 30% do consumo deles. Porque eles têm um bilhão de pessoas consumindo forte. Todos eles estão na classe média. Classe média baixa, média média e média alta. Esse da baixa hoje come pé de galinha. Ele vai passar a comer peito. E depois vai comer bife. Porque eles estão subindo. E atrás ainda tem outros 400 milhões de chineses pobres que estão entrando na classe média baixa. Além disso, as plantas industriais da China estão saindo e abrindo em outros lugares. Vão abrir por aqui, vão abrir na África. E vão abrir no Vietnã, no Cazaquistão. O que você acha que vai acontecer com aquele cara vietnamita, que trabalha na bicicletinha dele fazendo biscate, quando ele for trabalhar numa fábrica chinesa? Ele recebe o primeiro salário e come. Sabe quantos eles são nesses países? Um bilhão de pessoas. Sem contar a Índia”.

BRP – O senhor avalia que esses mercados vão se abrir para o Brasil?

ALCEU – “Só na China, eu tenho três brasis e meio. Ou quatro. Se eu pegar um bilhão que está em volta, ali na Ásia, eu vou ter mais cinco brasis. Dá nove. O pessoal do mundo árabe quer segurança alimentar. Tem muito dinheiro, mas não tem comida. Se deixar a China comprar tudo, ficam sem nada. Então, eles entraram no barco pesado, comprando o nosso produto. Estão abrindo mercado todos os dias. Acordou a Europa. Vamos deixar os árabes e os asiáticos comprarem toda a produção de alimentos? Então, vamos fazer um acordo com o Mercosul. Não tem nada de generosidade nisso. Eles querem garantia que vão ter comida daqui para a frente. Então, o Brasil vai ter tudo franqueado? Absolutamente não. Vão colocar todos os empecilhos possíveis, como já fizeram. Para comprar mais barato, para dizer que estamos desmatando, que estamos envenenando, para desvalorizar o preço. Guerra de mercado. Não tem nada de Olimpíada aqui. Bolsonaro foi lá, conversou com o Trump, vai dar tudo certo. A agricultura americana chegou no Trump e falou: ‘calminha. Eles são nossos concorrentes, não dá. Não vai para a OCDE coisa nenhuma porque nós não vamos ajudar eles porque estão nos prejudicando’. Então, vamos lidar com isso, com inteligência e estratégia, lidando com cliente e concorrente. É assim no mercado todo”.

BRP – O senhor acha que essa disputa por mercados vai se acirrar?

ALCEU – “O Brasil, 33 anos atrás, importava carne de Chernobyl. Agora, somos os maiores exportadores de carne do mundo. No exterior, o cara vê um frango da Sadia na prateleira e pensa: lá se foi o meu frango. Então, somos concorrentes dos caras. Normal isso. Não tem nada que ficar se queixando. Aqui não tem lugar para coitadinho. Tem lugar para competição de mercado. O Macron, quando nos criticou pesadamente, estava falando para os eleitores dele. Bolsonaro faz todo dia isso. Aí reclamamos que o Brasil foi lá nos Estados Unidos, acertou tudo, mas o Trump não deixou. O Trump não deixou porque ele gosta muito do Brasil, mas gosta muito mais dos americanos. Vai ceder? Vai. Mais cedo ou mais tarde, vamos vender carne para os americanos”.

BRP – Melhorou o ambiente de negócios no Brasil?

ALCEU – “Para o ano que vem, podemos ter garantia absoluta que o ambiente de negócios melhorou. Todo mundo sabe que o governo deixou de ter boas intenções para ter boas práticas. Temos tranquilidade quanto à construção da integridade nacional. Se reconstrói no Brasil um projeto de confiança na integridade. É quase que um compliance nacional. Está na cabeça das pessoas que o Brasil para dar certo precisa ser honesto. Precisa ser competente, ser eficaz, eficiente”.

BRP – O senhor acha que isso é percebido fora do Brasil?

ALCEU – “Os mercados internacionais não admitem o jeitinho. Se quiser conquistar o mercado e não perdê-lo, tu tens que zelar pela qualidade da tua marca. Isso reflete também aqui internamente. Então, esse contrato de integridade, que é como recompor um tecido que estava rasgado, vai se recuperando na cabeça das pessoas. E essa população que está na faixa dos trinta, um pouco mais, um pouco menos, é muito mais exigente. O mundo digital não apenas se comunica mais rápido como procura muito mais o eu das pessoas. Não o que elas dizem que são. Mas quem elas realmente são. Figuras como a do próprio Bolsonaro, que muitas vezes lida com a linguagem rústica, para a população o que ele quer falar, ele diz quem está falando aqui é o meu eu. Eu sou assim. Há uma modificação. A gente, definitivamente, não conversa mais com o povo. A gente conversa com o público. As pessoas têm um viés de comportamento que está muito mais massificado nos conceitos. Hoje foi extraído de dentro da população que tem de aparecer um salvador. A população busca muito mais um pertencimento”.

BRP – Isto se reflete também no agronegócio?

ALCEU – “No caso do agro, não poderia ser diferente. O agronegócio evoluiu muito. E, agora, em fevereiro, em São Paulo, vamos fazer um grande evento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), quando vamos lançar o planejamento estratégico e a agenda do agronegócio para o ano. Isso significa que nós não vamos caminhar no impulso, no voluntarismo, na resposta, na reação. Vamos ter um planejamento absolutamente claro, de comunicação e imagem, pedindo investimentos na pesquisa, na Ciência e Tecnologia, trabalhando as questões que são estruturais para nós. Vai ser um ano, com certeza, muito melhor do que foi esse. Porque a gente pode trabalhar sem sobressaltos. As próprias multinacionais que trabalham conosco é que vão se encarregar de construir a imagem do Brasil fora. Porque o Brasil se transformou num grande cliente. O Brasil está consciente que nos próximos dez anos a população do mundo vai ter de se alimentar de algo em torno de 16 brasis. Oito deles vão ter de ser produzidos pelo próprio Brasil. Então, temos uma enorme responsabilidade nisso. Está claro para a gente que o produtor precisa ter renda. As taxas de juros precisam ser compatíveis. Não pode ser uma inflação de 3,5% e os juros chegando no produtor a 17%”.

BRP – A FPA mostrou sua insatisfação com o governo justamente pelos cortes de recursos que estavam sendo feitos no Orçamento para os órgãos ligados ao setor do agronegócio. A queixa acabou fazendo com que mais dinheiro fosse repassado. Precisa ser na pressão?

ALCEU – “O ângulo de onde nós estamos para ver o que o Brasil precisa talvez não seja o mesmo ângulo da economia. Num País como o nosso, com muitos ajustes para serem feitos, tem uma tendência, no setor do Ministério da Economia, a fazer coisas imediatas. Em vez de combater a causa, vai combater a consequência. Política se faz por poder de pressão. Quando se desenha a peça orçamentária, o Orçamento se transforma num discurso com preço. E no Orçamento não estava o dinheiro para a pesquisa, inovação e tecnologia. Quer dizer, a Embrapa teve seus recursos cortados e esse dinheiro foi para outro lugar que não tem nem sombra de render os resultados que a Embrapa podia render. Recursos para a extensão rural e assistência técnica foram esquecidos. A questão sanitária também foi esquecida no Orçamento. A gente percebe que esses eixos sem recursos ou não permitem um crescimento como precisamos para alimentar os brasis aí do futuro ou colocam o Brasil em risco. Por exemplo, eu preciso de 40 cães comprados da Inglaterra que são treinados para não permitir que entre qualquer tipo de alimento que possa dar ao Brasil aftosa ou peste suína ou coisa parecida. E eu só tenho dois cães. Se eu não estou cuidando da questão sanitária, se eu não tenho no Ministério da Agricultura dinheiro para fazer uma estruturação bem feita desse trabalho, eu coloco toda essa economia que está ancorada no agronegócio sob risco. Se não financio a Embrapa, não consigo fazer, por exemplo, a evolução do controle biológico, das novas descobertas. Preciso trabalhar com genética, com biotecnologia”.

BRP – O governo não teve essa visão?

ALCEU – “Não ter visão disso, é, certamente, um equívoco. Aí pergunto? Será que o Paulo Guedes não tem visão disso? Provavelmente sim. Mas do ângulo em que ele está isso se torna mais uma coisa. Do ângulo em que eu estou, é a principal. Como eu tenho, em volta da nossa liderança na FPA, em torno de 240, 250 parlamentares, eu sinalizei muito forte para o governo: olha, nós não estamos satisfeitos. Vocês sinalizam que estão com o agronegócio, mas quando é para botar preço no discurso, vocês não botaram. Se vocês querem o agronegócio, mas não botam dinheiro no Orçamento, esse discurso não é verdadeiro. Não tem valor. É uma ficção. Foi isso que nós dissemos. Mas não tem sentido em falar em se afastar do governo. Não era com essa intenção. Nós, mais do que nunca, estamos no Brasil que dá certo. A Frente Parlamentar não é bolsonarista. A FPA tem um projeto que é bom para o Brasil e para o agronegócio e nós trabalhamos unidos”.