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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

BRPergunta para Átila Iamarino: ‘Sair da quarentena não é uma questão de quando’

Vera Magalhães

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Na última semana, uma entrevista com um biólogo alcançou maior audiência e teve muito mais repercussão que falas de políticos e ministros. Átila Iamarino, que já era conhecido na internet pelo seu trabalho de divulgação científica nos seus canais no YouTube e nas redes sociais se tornou conhecido também do grande público ao dizer no Roda Viva que nem tão cedo o mundo voltará ao “normal” pré-covid-19.

Biólogo Átila Iamarino diz que só testagem massiva pode definir fim da quarentena Foto: Reprodução/TV Cultura

Depois de conduzir a entrevista com ele no programa, voltei a procurá-lo no final da semana para atualizar alguns tópicos específicos da estratégia do Brasil, das controvérsias médicas e políticas relacionadas ao enfrentamento da pandemia e a comparação entre o que estamos fazendo e o que outros países fizeram.

Repeti a pergunta a ele: quando sairemos dessa? E ele respondeu que, no caso o Brasil, a pergunta correta não é “quando”, mas “quanto”: quantos testes e equipamentos de segurança teremos para permitir a volta da circulação de pessoas sem comprometer o combate ao coronavírus? Por ora, diz ele, esta resposta está longe do horizonte.

A seguir, BRP 5 Perguntas Para Átila Iamarino:

BRP – A curva da última semana mostra algum progresso do Brasil graças à estratégia de distanciamento social moderada até aqui adotada? Já se pode dizer que a curva de contágio começará a ser achatada ou teremos de radicalizar as medidas ainda mais?

Átila Iamarino – Tá muito confuso aqui no Brasil ainda. Temos muitos testes represados no Adolfo Lutz. Estão concentrando os testes lá. Então é possível que a curva esteja sendo achatada, mas eu, particularmente, fico muito na dúvida se isso já está aparecendo nos números ou não porque não estamos testando o suficiente. Tivemos um aumento de casos muito grande e, a essa altura, já era importante ter uma segmentação de casos no Brasil por cidade, porque o importante é ver se essa curva está se achatando nas cidades que adotaram e que tinham mais casos, como São Paulo. Se eu olhar para o número de casos total, ele pode estar aumentando, porque tenho poucos casos acontecendo em outras cidades esparsas, mas de repente na cidade de São Paulo já funcionou. Então, isso é o que a gente precisa para saber se a curva já está sendo achatada: mais testes, para saber se o número de casos não está aumentando e a gente não sabe porque não está conseguindo testar (e tem evidências de que este é o caso), e mais acompanhamento granulado, olhando mais por cidades e por regiões do que por Estados, como tem sido o acompanhamento que a gente pode ver pelo Ministério da Saúde.

Países como China e Japão têm mostrado altos e baixos em relação à abertura e ao fechamento das atividades. Pode ser que não seja tão simples assim achatar a curva da covid-19?

Não é nada simples achatar a curva da covid-19. Isso depende de muito isolamento e muito teste, de preferência os dois juntos. Pouquíssimos países têm conseguido fazer isso direito, como a Alemanha, a Coréia do Sul e poucos outros. A gente realmente tem a impressão errada do que a China fez, achando que está se repetindo aqui. E o Japão aparentemente tem mais casos agora, está com a mortalidade subindo depois que decidiram adiar as Olimpíadas. Fica uma sensação estranha de que eles não estavam deixando esses números tão abertos assim, tentando ainda manter uma sensação de normalidade lá, enquanto tentavam ainda sediar as Olimpíadas lá neste ano.

O que achou do estudo mais recente acerca do uso da cloroquina no tratamento da covid? É tão animador quanto querem fazer crer algumas autoridades e alguns especialistas ou ainda é prematuro comemorar?

Quem tá falando mais sobre o uso de cloroquina é quem está acompanhando os testes clínicos em hospitais, como está andando o uso desse medicamento em hospitais. O que é uma informação mais fresca, mas por outro lado mais confusa. Eu, por não ter esse acompanhamento mais próximo, e por procurar seguir uma postura mais baseada em evidências, a que eu tenho acesso, estou procurando um grupo de medicina baseada em evidências de Oxford, que atualiza constantemente o que tem, e por toda a coletânea da literatura que eles estão fazendo o tratamento com hidroxicloroquina e cloroquina ainda é experimental e não existe um consenso a respeito de como ele funciona e de que ele funciona. A evidência deles ainda está incerta. Então eu prefiro seguir esse consenso. Segundo eles, ainda falta dose, duração de tratamento, efeitos colaterais, riscos envolvidos e todo o resto, então o consenso baseado no que foi publicado é que é promissor, mas ainda tem limitações do que a gente pode falar. Pode ser que quem está olhando para hospitais veja isso de outra forma.

O Brasil aparentemente tem uma grande subnotificação de casos de covid. Isso, a seu ver, se deve apenas à ausência de testes ou é possível pensar que há falta de transparência das autoridades em catalogar os casos?

Eu não sei apontar falta de transparência nessa altura, porque todos os países estão enfrentando subnotificação nesse momento. Tirando Alemanha e Coreia do Sul, que estão fazendo uma quantidade enorme de testes, todos os países estão enfrentando esse problema. E numa situação dessa de catástrofe é normal ter esse tipo de desencontro de informação, ela fica esparsa, e só depois a gente consegue reconstruir o que estava acontecendo de fato. Não consigo nem apontar incompetência porque é um começo confuso mesmo, é normal. Quem estava olhando para a China e apontando um complô, que estavam escondendo, não sabe o que é um começo de epidemia, de pandemia como esse. A própria Espanha e a Itália apresentaram um aumento de mortes bem maior que aquelas relacionadas diretamente com covid. Se você olha para as mortes naquelas regiões em outras épocas, elas são muito menores do que agora, e diagnósticos de covid só explicam uma fração dessas mortes. Então mesmo em países desenvolvidos, que têm sistemas de saúde mais financiados que o nosso e histórico de censo e acompanhamento de dados mais detalhados estão confusos nessa hora. Estados Unidos idem: eles admitem que não vão ter nunca uma estimativa real de pessoas infectadas. Coloco mais a exceção em quem tem esses números confiáveis que a nossa situação aqui. Não que isso seja justificativa para qualquer coisa, mas não é inesperado.

No Roda Viva você disse que nem tão cedo nossas vidas poderão voltar a ser o que eram. À medida que as semanas passam você diria que esse horizonte vai se distanciando? Pôde-se pensar em 2020 como um ano perdido?

No mundo todo 2020 vai ser um ano perdido, porque a gente vai ter diferentes países entrando no surto em momentos diferentes e se recuperando em taxas desiguais, toda essa perda de consumo, de viagens, de um padrão de vida regular que aconteceu. Então vai ter países que estão se levantando mais cedo, outros que podem não ter abalos tão fortes, mas certamente é um ano de muito chacoalhão para o mundo todo. Agora, para o Brasil especificamente essas semanas a partir de agora vão ser definidoras. A gente tem sinais de que o Ministério da Saúde está tendo muito problema para comprar testes, para comprar equipamento de proteção e para fazer outras coisas, e se a gente não tiver testes e não tiver equipamento de proteção aqui não há o menor horizonte de quando sairemos dessa quarentena. No nosso caso, no Brasil especificamente, o cenário é ruim por falta de equipamento e por falta de teste. E apesar de a gente ter a perspectiva de milhões de testes chegando, ela não se materializou ainda, e dependemos diretamente disso. Sair da quarentena não é uma questão de ‘quando’, é uma questão de ‘quanto’: quantos testes nós temos, quanto equipamento nós temos, qual a capacidade que temos de manter a covid sob controle retomando a circulação de pessoas. E por enquanto não temos esse ‘quanto’ num cenário próximo. Sem ele, o ‘quando’ é menos estimável ainda.