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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Casagrande: ‘Organizar uma frente de centro-esquerda é nosso caminho para 2022’

Marcelo de Moraes

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), vê motivos para fazer uma avaliação positiva do resultado do primeiro turno das eleições municipais. Ele aponta que os candidatos alinhados com Jair Bolsonaro não tiveram bons resultados, o que enfraquece politicamente o presidente. Mas, ao mesmo tempo, admite que os partidos de esquerda não tiveram, até agora, um desempenho “robusto”. Por isso, não tem dúvidas ao defender a construção de uma ampla frente política de centro-esquerda como único caminho possível para evitar que se repita o confronto de 2018 entre Bolsonaro e o PT, com a reeleição do presidente.

Governador Renato Casagrande. Foto: PSB

“É o nosso caminho”, diz Casagrande em entrevista ao BRPolítico. “Nós temos de pensar um pouco diferente na eleição de 2022. Diferente do que pensamos nas eleições passadas. Tentar ver se esse núcleo, que já está formado, com PSB, PDT, PV e Rede, possa se ampliar, juntando mais alguns partidos como o Cidadania, por exemplo”. “Que possa colocar uma candidatura com chance de ir ao segundo turno, para não ficarmos reféns de repetir uma posição como a que tivemos em 2018, que foi o pensamento do bolsonarismo contra uma posição petista muito enraizada no Brasil”, afirma.

A seguir os principais trechos da entrevista:

BRP – Qual a sua avaliação sobre o resultado da eleição municipal em geral?

Casagrande – “As eleições deste ano fizeram o pêndulo voltar para o centro. A eleição de 2018 ficou muito polarizada entre os extremos. Agora, nessa eleição, as candidaturas com identidade grande com o pensamento do Bolsonaro não tiveram sucesso em nenhum lugar. Então, isso mostra que esse estilo de enfrentamento, de desequilíbrio, de falta de ponderação, perdeu espaço para estilos mais experientes. Isso foi o resultado dessa eleição. Essa é uma avaliação positiva porque é bom que a a gente tenha mais ponderação na política”.

Mas a esquerda também não se destacou…

“Por outro lado, há a avaliação ruim é que os partidos de centro-esquerda não tiveram, até o presente momento, um resultado também robusto. Ainda estamos vivendo uma grande onda conservadora no mundo. E uma onda conservadora no Brasil, que é menor do que foi a onda conservadora anterior, que tinha se misturado com uma onda reacionária, em 2018. Essas posições reacionárias estão ficando agora mais envergonhadas e as manifestações conservadoras mais equilibradas ainda preponderam. É melhor do que nós tínhamos, mas acho que ainda podemos trabalhar para que a gente tenha posições mais progressistas junto à sociedade. Então, o pensamento de Bolsonaro se enfraqueceu. Ainda dependemos do resultado do segundo turno, mas as forças de esquerda também não terão o mesmo desempenho que tiveram na eleição passada”.

Muito se fala na formação de frentes amplas para derrotar o bolsonarismo. Mas quem é mais de esquerda não aceita nomes mais conservadores ou liberais e o contrário se repete do outro campo. É possível organizar uma frente que junte representantes do centro-esquerda para disputar a eleição presidencial em 2022? É possível abrir esse leque?

“É o nosso caminho. Nós temos de pensar um pouco diferente na eleição de 2022. Diferente do que pensamos nas eleições passadas. Tentar ver se esse núcleo, que já está formado, com PSB, PDT, PV e Rede, possa se ampliar, juntando mais alguns partidos, como o Cidadania, por exemplo. E outros partidos. Ou lideranças de outros partidos. Para a gente tentar fazer uma frente mais ampla, de centro. Até pode ter alguma pessoa de centro-direita. Mas majoritariamente de centro-esquerda. Que possa colocar uma candidatura com chance de ir ao segundo turno, para não ficarmos reféns de repetir uma posição como a que tivemos em 2018, que foi o pensamento do bolsonarismo contra uma posição petista muito enraizada no Brasil”.

Nessa aliança que o senhor está falando, não foi citado o PT. Para dar certo, essa frente de centro-esquerda precisa excluir o PT?

Não se trata de excluir. É que a gente acha que o PT terá uma candidatura. Não estamos excluindo. Mas o PT, como é um partido que tem uma base no País, que já disse que quer ter candidato…Se é um partido que já está com uma posição firmada, acho que a gente deve buscar construir uma outra posição, se não quisermos repetir o resultado da eleição de 2018″.

O senhor acha que a esquerda está sem bandeiras que a permitam recuperar sua popularidade eleitoral ou não tem muito o que fazer em relação à onda conservadora?

“Acho que temos uma onda mundial conservadora que arrefeceu, mas ainda estamos vivendo ela. Acredito que vamos caminhando para posições equilibradas. É só ver o resultado das eleições americanas agora. O mundo acordou mais aliviado com Joe Biden confirmado como presidente dos Estados Unidos. Mas aqui, no Brasil, temos de ter posições claras. Os partidos de esquerda têm de se modernizar. Nas relações econômicas, por exemplo. Os partidos de esquerda precisam ser, nas suas gestões, nos seus mandatos, cada vez mais eficientes. A gente tem de se agarrar à nossa bandeira, que não podemos perder, que é a defesa da redução das desigualdades. Nosso principal tema tem de ser a redução das desigualdades. E eu vejo, muitas vezes, nós nos perdendo com temas que são importantes, mas não são essenciais. E a gente fica numa brigalhada entre nós com temas que não têm tanta importância para o cidadão. O cidadão quer ver, de fato, se os seus líderes e representantes estão lutando para que melhorem as suas vidas. Para que diminua a injustiça, que diminua a desigualdade social, a concentração de renda. Então, tem bandeiras que a esquerda precisa se apropriar delas. Não com exclusividade. Todo mundo, independentemente de sua posição política, deve querer reduzir desigualdade. Mas os partidos progressistas precisam ter isso como bandeira principal. E tem de se agregar a essas bandeiras, até para poder fazer um contraponto com as posições conservadoras e reacionárias, por exemplo, a defesa do meio ambiente, a defesa dos direitos humanos, a cultura de paz, o desenvolvimento regional. São instrumentos que a gente tem de debater com a sociedade que não podemos perder”.

Em 2020, por causa da pandemia do coronavírus, a saúde foi o tema mais importante das discussões das eleições. Com a pandemia ainda ativa, tudo indica que isso ainda será um problema central em 2021. Como a esquerda pode lidar com isso?

“A esquerda tem que ter a defesa da vida como o seu norte. Estamos vivendo um momento em que uma faixa da população mundial não se preocupa com as outras pessoas. Um pensamento em que, se uma pessoa não conseguiu vencer na vida, é porque a culpa é só dela. Não têm um pensamento fraterno, cooperativo. E nós precisamos cooperar com essas pessoas, gerar oportunidades para essas pessoas. A questão da Saúde e da pandemia é muito relacionada a isso. Muitas vezes expressada pelo próprio governo, numa visão em que só morre do vírus quem é fraco. Essa visão deve ser combatida pelos campos progressistas. Porque temos de ser defensores da vida. E para defender a vida a gente tem de ser solidário. Precisa ter políticas públicas adequadas na área de saúde”.

O senhor se preocupa com a ação ou com a falta de ação do governo em relação à pandemia?

“Precisamos compreender que é necessário, agora, que o governo federal tenha um plano nacional de imunização, que possa alcançar, o mais rápido possível, todos os brasileiros. Isso é bom para os brasileiros e é bom politicamente até para o presidente Bolsonaro. É preciso que a gente saia dessa agenda da pandemia. Porque se não tivermos uma agilidade no plano nacional de imunização, vamos ficar 2021 todo gerenciando a pandemia. Vamos ver a curva caindo, depois crescendo de novo, caindo, crescendo e as pessoas morrendo. A economia patinando. É preciso que a gente tenha, de fato, um compromisso na preservação das vidas”.

Como o senhor avalia as possibilidades de Bolsonaro se reeleger?

“O presidente chegará mais forte ou mais fraco se o governo dele tiver resultado. O governo dele não terá resultado só escorado nos auxílios emergenciais. Até porque a máquina pública não tem nem condições de sustentar um permanente auxílio emergencial desse tamanho. O governo precisa ter resultado na infraestrutura, na saúde, na educação, na segurança. E apresentar, de fato, esses resultados em 2022. E, além disso, as pessoas estão reagindo e cobrando que se migre para posições mais moderadas. Isso exigirá do presidente uma mudança de comportamento de suas atitudes. Para que ele possa chegar com mais força na disputa presidencial de 2022”.

O senhor acha que a esquerda está passando por uma renovação? Uma espécie de troca da guarda?

“Acho que tem uma transição que é da política brasileira. Se você pegar a eleição de 2018 e a de 2022 representa uma fase de transição. Você vai ter em 2022 um mix de quem já disputou e novos que vão entrar. É uma fase de transição e aí eu posso dizer que é de todas as tendências políticas. Seja de posições progressistas, seja de mais conservadoras”.