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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Caso Preta reforça distância de movimentos sociais das ‘facções criminosas’

Alexandra Martins

O movimento social por moradias que apoia ou organiza ocupações em São Paulo já foi associado a “facções criminosas” pelo governador João Doria (PSDB). O mesmo argumento é utilizado pelo Ministério Público em denúncia contra 19 pessoas ligadas a cinco diferentes movimentos no contexto do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no final do ano passado, que matou sete. Os promotores alegam que os movimentos extorquem os moradores com base em depoimentos de testemunhas hoje sob proteção.

Reprodução Facebook

A cantora e produtora cultural Janice Ferreira, conhecida como Preta, é uma das denunciadas. Integrante do Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), ela foi libertada na semana passada depois de passar 108 dias presa. Em entrevista ao portal UOL, a professora Ermínia Maricato, da FAU-USP, próxima do MSTC, atenta para o risco da generalização. “Provavelmente é verdade que havia uma exploração das pessoas no Wilton Paes. Mas não se pode pegar este caso e generalizar para um movimento que tem dignidade. Dentro dessas ocupações, tem controle sobre bebida, contra droga, as mulheres se organizam e as chefes de família saem tranquilas para trabalhar porque a criança fica num espaço organizado”, diz ela, ex-secretária municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano na gestão Luiza Erundina (1989-1992).

Ela estranha o fato de o poder público não investir com o mesmo empenho contra ocupações, por exemplo, que avançam sobre mananciais no município cuja presença do crime organizado não é segredo para ninguém. Na beira da rodovia dos Imigrantes, por exemplo, na Baixada Santista, um enorme muro foi até construído na altura de Cubatão, no famoso KM 59, na tentativa de conter os inúmeros assaltos, alguns seguidos de morte, perpetrados por quadrilhas criminosas que atuam na área vizinha ao manguezal ocupado. “A gente não estranha o que deveria estranhar. Tem dois milhões de pessoas ocupando mananciais no município, você tem um ininterrupto desmatamento com o parcelamento do solo, que atualmente tem a presença até do crime organizado. Isso não comove a polícia nem o Ministério Público”, acrescentou.

Preta rechaça assim a acusação: “Quando a gente ocupa um prédio, ele não está bonitinho, não está limpo, não está com a energia em dia. Quem vai pagar por isso, se o poder público não nos ajuda em nada? O movimento tem estatuto e regimento interno. Quando a pessoa entra (no MSTC), ela assina. Não existe extorsão quando você tem ciência de que tem que contribuir. Vamos começar a colocar as palavras certas para não confundir a cabeça das pessoas. Minha única associação chama-se família Ferreira. E a família Ferreira não cometeu nenhum crime”.