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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Censo 2020 pode ser iniciado, ‘mas não concluído’

Alexandra Martins

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O governo desistiu de adiar o Censo Demográfico para 2022 e garantiu R$ 2 bilhões na proposta de Orçamento de 2021 para a realização da pesquisa, mas o valor representa um corte de 28% no orçamento inicialmente proposto. Para a diretora do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Fundações Públicas Federais de Geografia e Estatísticas (ASSIBGE), Dione de Oliveira, o temor é de que a pesquisa seja iniciada e não concluída, a despeito de já ter sido, inclusive, adiada para 2021 em razão da pandemia. Todo o imbróglio contribui ainda mais para um eventual apagão censitário, uma vez que nem foi feita a contagem intermediária da população em meados da década, como costuma ocorrer. Os dados mais detalhados da população brasileira ainda são do Censo de 2010.

Foto: IBGE

“Nós continuamos acompanhando o processo com muita apreensão, pois o planejamento do Censo foi radicalmente alterado com a entrada de Susana Guerra (presidente do IBGE). Sofreu um corte de 28%. O corte das perguntas não justificou corte de orçamento pois o trabalho para listar e entrevistar cada domicílio continua sendo o mesmo. Então seguimos muito receosos de que a pesquisa seja iniciada e não seja concluída. Fizemos todo o esforço no ano passado para recompor minimamente o orçamento, mas a direção seguiu dizendo diante do governo e do Parlamento que faria o levantamento com o orçamento cortado sem prejuízo da qualidade”, afirmou a servidora ao BRP.

As críticas do governo federal, especialmente do ministro Paulo Guedes, e do IBGE ao volume de perguntas do questionário são infundadas, segundo vários pesquisadores ouvidos pelo BRP. O que mais pesa no orçamento das pesquisas é o gasto com deslocamentos dos recenseadores quando são obrigados a voltar aos domicílios mais de uma vez, às vezes três ou quatro. Além do mais, o entrevistador pode pular blocos de perguntas dependendo da resposta do entrevistado. Caso o corte atinja o número de recenseadores, por outro lado, aumenta-se o número de dias que o Censo precisa correr.

Quem paga a conta do enxugamento de recursos no IBGE “são as gerações que vão viver o Brasil nos 10 anos que vão seguir o censo demográfico. Isso é muito grave. O custo político para o governo é pequeno, mas o custo para a população não é pequeno. E aí algumas coisas vão aparecer, como os invisíveis das políticas sociais, com respeito aos quais o governo tem que fingir que está encontrando quando na verdade eles só não estão encontrados justamente pela desatualização dos dados cadastrais”, aponta o sociólogo Rogério Barbosa, do Centro de Estudos da Metrópole, da USP, e um dos pesquisadores do livro “Trajetórias da Desigualdade” (Ed. Unesp).

Os impactos com o desmantelamento do Censo são incalculáveis, uma vez que as políticas públicas de todas as esferas de governo são formuladas com base nos dados da pesquisa. Há especialmente os reflexos financeiros na distribuição dos Fundos de Participação dos Municípios e Estados, que dependem da contagem da população e informações do Censo, e do Fundeb. “Ninguém tem dúvida onde os ricos estão. Os pobres são mais difíceis de encontrar, não tem registro formal de carteira de trabalho, ela está ausente dos registros oficiais”, reforça Barbosa.

A PNAD tampouco substitui o banco de dados do Censo. “A disponibilização de informação detalhada sobre municípios na PNAD não é a mesma que as informações detalhadas sobre todos os municípios. E mesmo a PNAD não tem informação intramunicipal, mesmo entre os municípios grandes”, observa.

Tem ainda o problema de que a defasagem do Censo exacerba o racismo estrutural. São os números de censo demográfico que informam as proporções de vagas que devem ser reservadas pela políticas afirmativas das universidades públicas. “Cada vez mais, no Brasil, a população é negra e avança em termos numéricos de forma mais rápida que a branca”, acrescenta o pesquisador do CEM.

O presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, Ricardo Ojima, resume o sentimento de temor gerado com o descaso do governo com o Censo 2020. “Uma sociedade que não se conhece, acaba tendo dificuldade para enfrentar seus problemas”, diz.

 

 

 

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