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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

No Chile, capitalização é vista como motivo para protestos

Milibi Figueiredo

Sob o modelo de capitalização, as baixas aposentadorias têm sido apontadas por opositores do presidente do Chile, Sebastián Piñera, como um dos panos de fundo para onda de manifestações vividas no país desde a semana passada. No Brasil, o modelo é a menina dos olhos do ministro da Economia, Paulo Guedes, e apesar de ter sido derrubado do texto reforma da Previdência durante tramitações na Câmara, não foi descartado pela pasta.

Jovem é preso por Carabinero em manifestações no Chile

Jovem é preso em manifestação no Chile. Foto: Martin Bernetti/AFP

Secretário da Previdência, Leonardo Rolim afirmou, em entrevista à Folha, que a implementação por meios que não alterem a Constituição é uma possibilidade. Em fala realizada à Rádio Gaúcha nesta segunda-feira, 21, Rogério Marinho, da secretaria especial de Previdência e Trabalho, disse que o governo deve avaliar momento oportuno para propor novamente a discussão do tema, caso haja condições de aprovação.

“Ainda tenho objetivos maiores em relação a esse tópico”, disse Guedes em agosto, durante evento do banco BTG. Ele defende que, a longo prazo, não é sustentável o modelo brasileiro atual, de repartição simples, em que trabalhadores formais ativos colaboram para um fundo comum que paga as aposentadorias. A maioria da nações adota captação que mescla os dois sistemas, mas na capitalização chilena não há contribuição do Estado ou de empregadores. Cada trabalhador faz sua própria poupança e os aposentados recebem, em média, entre 30% e 40% do salário mínimo local.

Instaurado em 1981, durante a ditadura do general Augusto Pinochet, a experiência do Chile é uma inspiração para o ministro, que lecionou lá à época. No início da década de 80, uma série de reformas foi realizada no país pelos Chicago Boys, economistas liberais que passaram pela Universidade de Chicago, instituição em que Guedes fez seu doutorado.

O estopim para as manifestações chilenas, que se intensificaram na sexta-feira, 18, foi o aumento de 30 pesos na tarifa do metrô, equivalente a R$ 0,20. Analistas afirmam que a medida foi apenas a gota d’água numa situação de insatisfação social generalizada. A deputada de oposição Cristina Girardi, em seu Twitter, mencionou a busca por “aposentadoria digna e fim da ganância execrável das Administradoras de Fundos de Pensão” como um dos motivos. Além da previdência, o jornal britânico The Economist apontou a crescente desigualdade e a inefetividade do sistema de saúde. O país decretou estado de emergência, 11 pessoas morreram e mais 1,4 mil foram detidas.