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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Ciro evita falar em impeachment, mas prega ação contra Bolsonaro

Vera Magalhães

Ciro Gomes evitou defender explicitamente o impeachment de Jair Bolsonaro, mas fez pesadas críticas à atuação do presidente em sua participação nesta segunda-feira no Roda Viva, da TV Cultura. A despeito de listar crimes de responsabilidade de Bolsonaro, chamá-lo de “boçal” e dizer até que resolveria “de outra forma”, sem “elegância”, mas não dizendo como, suas afrontas à democracia, ele não disse ser favorável ao impeachment, solução que passou a ser defendida por nomes como Janaina Paschoal e Alexandre Frota, ex-aliados do presidente.

Ciro pareceu, ao se esquivar da questão, procurar não ser incoerente com sua posição na época do impeachment de Dilma Rousseff, quando foi muito explícito em classificar a iniciativa como golpe. Ele deixou a porta aberta, no entanto, para escalar para a defesa do impeachment no futuro, caso se forme uma onda para isso: disse que são casos diferentes, que há crimes de responsabilidade claros agora. Mas, para ele, o mecanismo do impedimento não pode ser usado sempre para se tirar “governo ruim”.

O ex-ministro defendeu enfaticamente a posição do irmão Cid, senador licenciado que foi baleado em Sobral (CE) ao tentar romper o portão de um quartel no qual havia policiais militares amotinados com uma retroescavadeira. Disse que ele foi “herói” e ficou indignado até com o fato de se questionar a prudência ou a legalidade do ato, dizendo que faria o mesmo e que Cid cometeu apenas “legítima defesa”.

Como sempre em entrevistas de Ciro Gomes, houve momentos de crispação com a imprensa. Ele se queixa das perguntas, ironiza os jornalistas, tem dificuldade de rever declarações suas passadas, mesmo recentes. Quando questionado justamente a respeito dessa relação com a mídia, e se ela não o aproximaria justamente de Bolsonaro, a quem tem tantas críticas, ele baixou o tom, disse que respeita a liberdade de imprensa e atribuiu os arroubos a estilo.

Em relação aos adversários, sobraram bordoadas para Lula, Tábata Amaral, Fernando Henrique Cardoso e o apresentador Luciano Huck, cuja inexperiência política para sonhar com a Presidência foi comparada à de meninos que fazem malabares no sinal caso fossem chamados a operar uma apendicite.

Em relação ao novo coronavírus, Ciro, que já chegou a ser secretário de Saúde no governo do irmão, propugnou a necessidade de usar gastos públicos não para incentivar empresas, mas para construir leitos de UTI e equipar hospitais, sob risco de o sistema colapsar. Fez várias críticas à política econômica de Paulo Guedes e, na contramão das análises que falam em recessão iminente, previu uma certa possibilidade de escalada inflacionária que não ficou bem claro como viria.