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por Marcelo de Moraes

Clínicas particulares ‘furam fila’ de compra da vacina

Equipe BR Político

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A negociação para a compra de vacinas contra a covid-19 pela Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) mobiliza parlamentares da oposição e parte da comunidade científica nesta segunda, 4. O temor é de que o setor privado explore o mercado com preços exorbitantes antes mesmo de o sistema público de saúde oferecer o medicamento à população de forma gratuita e ampla.

O negócio envolve a compra de 5 milhões de doses da Covaxin, imunizante contra a covid-19 fabricado pela farmacêutica indiana Bharat Biotech. O produto obteve no sábado, 2, recomendação de uso emergencial na Índia, mas os dados sobre a sua eficácia ainda são desconhecidos.

Associação afirma que cinco milhões de doses devem vir ao mercado brasileiro até meados de março. Foto: Diego Vara/Reuters

O médico e advogado Daniel de Araújo Dourado, pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP e do Institut Droit et Santé da Universidade de Paris, reforça que as clínicas particulares têm direito de comprar os imunizantes, mas “se isso acontecer antes de existirem vacinas suficientes na rede pública, as autoridades podem requisitar essas vacinas para serem distribuídas no SUS”.

Dourado cita legislações que podem nortear uma eventual requisição por parte do governo caso houver escassez de vacina à população brasileira. Segundo ele, o “confisco” poderia ser feito por qualquer um dos três entes da federação do produto negociado pelo setor privado, não entre entes da União.

A epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, lembra que vacina é estratégia coletiva. “Se você comprar e se vacinar e todo seu entorno não vacinar, o vírus pode fazer uma mutação e sua vacina não servir para nada. Dinheiro jogado fora”, afirma.

Para a pesquisadora, “nossa briga deve ser acesso universal as vacinas e não “eu tenho dinheiro e posso pagar para me salvar. Ninguém se salva sozinho se não salvar todos. Essa é a lição do vírus, ou entendemos, ou afundamos juntos”.

“Captei. Primeiro, duvidaram do que se fazia no Butantan e FIOCRUZ. Segundo, lançaram o bote único da vacina da BioNTech/Pfizer,que não está disponível em escala nem na Alemanha. Terceiro, lançam as vacinas em clínicas privadas. Hora de declaração de conflito de interesses!”, escreveu o médico Paulo Lotufo no Twitter. Ele é professor de clínica geral da graduação e pesquisador de epidemias de doenças cardiovasculares da USP.

Os deputados federais Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e Paulo Teixeira (PT-SP) também questionam o movimento das clínicas privadas.

“Não permitiremos que a imunização seja tratada como privilégio. Ela é direito de todos, tem que seguir critérios do SUS e ser feita gratuitamente, priorizando grupos de risco, não quem tem dinheiro p/ furar a fila”, escreveu Freixo.

Para Teixeira, “neste contexto, a vacina virou negócio”.

 

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