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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Cobrado internamente, Aras quebra silêncio

Vera Magalhães

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Cobrado internamente pelos procuradores da República por seu silêncio em meio à pandemia do novo coronavírus, os atritos institucionais entre os Poderes decorrentes dela e as ações do presidente Jair Bolsonaro contrariando recomendações das autoridades sanitárias, o procurador-geral da República, Augusto Aras, rompeu o silêncio entrevista ao jornal O Globo.

O procurador-geral da República, Augusto Aras

O procurador-geral da República, Augusto Aras Foto: Dida Sampaio/Estadão

Ele negou que esteja omisso na crise, listou ações burocráticas da PGR para responder à pandemia e esboçou algumas respostas quanto a condutas de Bolsonaro. Afirmou que, até aqui, as manifestações do presidente estão resguardadas pela liberdade de expressão assegurada na Constituição. Mas que pode vir a tomar providências caso Bolsonaro venha a “baixar um decreto contrariando a orientação da horizontalidade”, em referência ao isolamento recomendado pelo Ministério da Saúde.

O BR Político vem acompanhando a divisão interna no Ministério Público Federal graças à omissão de Aras há semanas. O assunto deixou a rede interna do MPF, na qual alas de procuradores já se digladiam abertamente desde a sucessão no órgão, e ganhou as redes sociais.

Janice Ascari, veterana do Ministério Público, ativa em casos como o da construção da sede do TRT-SP, nos anos 2000, que levou à prisão do juiz Nicolau, e também na Lava Jato, foi uma que se opôs publicamente à postura de Aras. “Até o Twitter excluiu posts de desinformação do Presidente da República. O pedido de 18 colegas da cúpula do MPF para que o PGR Aras tomasse uma atitude quanto ao respeito às normas de combate ao coronavírus nas ações e pronunciamentos foi indeferido”, escreveu ela.

A procuradora se referia a uma representação assinada por vários subprocuradores e remetida a Aras na semana passada pedindo que ele enviasse uma moção de censura ao comportamento de Bolsonaro. O pedido foi indeferido pelo chefe do MPF, que respondeu com a publicação de uma burocrática lista de providências tomadas durante a crise da covid-19.

Diante da insistência de Bolsonaro em negar a gravidade da pandemia e o passeio que deu pelas cidades-satélites de Brasília no fim de semana, Aras, nomeado pelo presidente sem constar da lista tríplice escolhida pelos procuradores em votação, decidiu se manifestar na entrevista.

O MPF hoje está cindido entre a ala bolsonarista, que recebeu cargos no gabinete de Aras, e os grupos que antes se revezavam nos cargos de cúpula da corporação, ligados ao ex-procurador-geral Rodrigo Janot ou a seus antecessores. No grupo bolsonarista se destacam o secretário de Direitos Humanos Ailton Benedito, que não se exime de defender o presidente abertamente nas redes sociais, e a ex-coordenadora da Lava Jato em São Paulo Thaméa Danelon, promovida por Aras em novembro a procuradora regional e designada a atuar junto ao TRF-4, o tribunal que é a segunda instância dos casos da Lava Jato em Curitiba.

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