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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Comércio agoniza em meio à pandemia e já acumula perda de R$ 124,7 bi

Cassia Miranda

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Com o vírus da covid-19 se espalhando pelo País, o setor do comércio tem amargado quedas nos últimos meses. De acordo com estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as perdas diretas impostas ao setor durante a crise provocada pelo novo coronavírus chegaram a R$ 124,7 bilhões após sete semanas do surto da doença (de 15 de março a 2 de maio).

Situação do comércio piora a cada dia Foto: Thiago Queiroz/Estadão

O valor representa um encolhimento de 56% no faturamento do varejo, em relação ao período anterior ao início da pandemia. Na avaliação da presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), Angela Costa, o cenário aponta para o risco de “quebradeira geral” no setor.

O Estado é o terceiro no ranking da CNC em acúmulo de perdas no período. “Os riscos de uma quebradeira generalizada são enormes, principalmente porque o pequeno comércio e a pequena indústria não conseguem acessar crédito em banco, e os prejuízos já são colossais”, diz.

Segundo Angela, no Estado, o segundo mais atingido pela pandemia no Brasil, a orientação dada pela ACRJ é de que os protocolos sanitários sejam seguidos pelos empresários, apesar da pressão pela retomada das atividades. Ela aponta que o setor “gostaria de ver uma abertura gradual da economia a partir de 1º de junho”.

A quarentena no Rio de Janeiro está prevista para durar até 31 de maio. No entanto, o governo já estuda a possibilidade de adotar o lockdown, modelo mais severo de bloqueio das atividades e circulação de pessoas. “Nossa orientação é, fundamentalmente, seguir os protocolos recomendados, e estamos levando informações para que busquem alternativas para a sobrevivência de seus negócios para que a economia não entre em colapso”, diz a presidente da ACRJ.

Se acordo com o levantamento da CNC, São Paulo (-38,86); Minas Gerais (-10,03); Rio de Janeiro (-9,37); Rio Grande do Sul (-9,31); e Santa Catarina (-8,46) são os Estados em que o varejo mais sentem a queda na arrecadação no período entre 15 de março e 2 de maio.

Em Minas Gerais, a Associação Comercial do Estado (ACMG) já projeta uma queda de quase R$ 4,5 bilhões na arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) neste ano. O número se baseia num estudo feito pela Fundação João Pinheiro (FJP) e divulgado na semana passada.

De acordo com o levantamento, no cenário mais positivo, o Estado iria ter uma queda de arrecadação do imposto em torno de R$ 2,025 bilhões, segundo cálculos feitos a partir de dados obtidos de 2007 a 2019. No ano passado, por exemplo, Minas arrecadou em torno de R$ 51 bilhões em ICMS. O comércio no Estado é o segundo mais atingido no País, segundo a CNC e acumula 10,03 bilhões de perdas entre março e maio.

Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, MG é o Estado do Sudeste menos afetado pela covid-19. Até o último domingo, 17, foram registrados 4.611 casos e 156 óbitos.

Para o presidente da ACMG, Aguinaldo Diniz Filho, é preciso que haja um plano de salvação nacional para resolver a situação pós-pandemia. Além disso, ele sugere que, em conjunto, seja analisado quais setores não essenciais são seguros para voltar a funcionar ainda no período de isolamento. Se baseando na ciência, pede Filho, que é contrário ao decreto do presidente Jair Bolsonaro que incluiu salões de beleza e academias na lista de atividades essenciais que podem funcionar durante a pandemia.

“A ACMG fez um pacto sugerindo, pleiteando, rogando, a união dos Três Poderes, das entidades empresariais, das classes produtoras, numa mesa só, com uma liderança sólida, para que a gente possa em conjunto o novo normal do País”, diz. E segue: “Esse é o caminho menos danoso para resolver a crise”, completa.

Enquanto isso não ocorre, Filho elogia a Medida Provisória 936, que permite que os patrões reduzam a jornada e o salário dos funcionários. “Em Minas, 684 mil trabalhadores, a grande massa do comércio, foi atingida por essa medida do governo. E isso é importante porque ao menos psicologicamente eles sentem que o emprego está resguardado”, aponta.

Demissões

A persistência do cenário atual tem potencial para eliminar cerca de 2,4 milhões de postos de trabalho formais do setor em um intervalo de até três meses, de acordo com levantamento da CNC.

“A concretização desse cenário, no entanto, dependerá de como as empresas do setor vão reagir às medidas anunciadas pelo governo e, em última instância, à própria evolução da pandemia nas próximas semanas”, avalia o presidente da CNC, José Roberto Tadros. Só em Minas, a ACMG calcula que as demissões devem atingir “entre 300 mil e 400 mil” empregados.

As estimativas da CNC cruzaram informações das pesquisas mensal e anual de comércio do IBGE, estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), além de dados relativos à circulação de consumidores em estabelecimentos comerciais providos semanalmente pela plataforma Community Mobility Reports do Google.

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