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por Marcelo de Moraes

Coronavac é um ‘fusquinha’ que o Brasil poderia ter criado, diz Lotufo

Alexandra Martins

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Diante de um João Doria (PSDB) acelerado, o ministro Eduardo Pazuello caminha em câmera lenta. Se o Ministério da Saúde estivesse atento à pandemia do novo coronavírus, teria feito o mesmo que o tucano: entrado na disputa por um imunizante o quanto antes para que, agora em dezembro, recepcionasse a chegada de mais 7 milhões de doses da Coronavac, primeiro imunizante da covid-19 a pousar em solo brasileiro, e não o governador de São Paulo.

Professor Paulo Andrade Lotufo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

E se o Ministério da Saúde fosse mais esperto que Doria, teria organizado a criação e fabricação de uma vacina contra a doença no Brasil, sem depender de Pfizer, AstraZeneca, Moderna ou Jansen, uma vez que não faltam expertise e credibilidade aos cientistas brasileiros lotados tanto no Instituto Butantan quanto na Fiocruz.

Isso porque a Coronavac é como um “fusquinha”. Anda, é robusto, resiste ao tempo, apesar de ser apertado, não ter vidro elétrico ou ar condicionado como os imunizantes das farmacêuticas envolvidas nesse processo de fabricação no mundo. A comparação e inspiração vêm do professor de clínica geral da graduação e pesquisador de epidemias de doenças cardiovasculares da USP, Paulo Lotufo, a quem o BRP recorre e recorreu diante da profusão de notícias diárias sobre o plano de vacinação do governo federal contra a covid-19.

O doutor de coração e cabeça branca monta rápido o cubo mágico, com a experiência de quem já acompanhou vários calendários da vacinação no País:

  • não vai ter vacina para todo mundo no Brasil;
  • o critério de escolha dos grupos prioritários deveria ser social, olhando para os que estão na lida, muitas vezes de camadas mais pobres;
  • a Região Norte deveria ser a prioridade, e não São Paulo, porque, como ocorreu em qualquer governo de linha bolsonarista nesta pandemia, foi uma catástrofe lá o combate ao patógeno;
  • os aviões da Pfizer rumo aos Estados Unidos deveriam fazer uma escala em Manaus (logística) para deixar milhares de lotes da vacina na capital amazonense;
  • a Lei 8080/90 do SUS já dera margem à interpretação de autonomia dos Estados e municípios em implementar políticas de imunização, ou seja, essa polêmica levada ao STF exala café requentado, mas necessária porque estamos lidando com Jair Bolsonaro;
  • o mosquito da dengue ganhou RG, estadual e municipal, em meio ao debate sobre a competência de entes da Federação em crises sanitárias no início dos anos 2000;
  • o Butantan tem o “dever” de fornecer a vacina primeiro ao SUS para só depois vender a outros países e cadeias privadas, nas próprias palavras do diretor-presidente Rui Curi ditas a Lotufo;
  • a crise econômica de 2013 para cá inviabilizou vários projetos de pesquisa no Brasil, também no Butantan, mas este enchera o caixa com a venda da vacina da gripe influenza para vários países do Hemisfério Sul anos antes;
  • como dizia seu avô, o idiota é o cara que não repete em pé o que falou sentado, responde quando questionado sobre o que pensa de Pazuello;
  • os profissionais de saúde no Brasil estão numa curva descendente de vitalidade, o que exigiria maior atenção àqueles do Rio de Janeiro “porque, do contrário, não vai sobrar ninguém mais”;
  • as grandes farmacêuticas fazem muita “lambança”, não nos enganemos;
  • a Anvisa já se viu em outros “rolos” como a da Coronavac no passado para a compra de um remédio contra a leucemia da Índia, acirrando o ânimo de pesquisadores que chamavam o produto de “porcaria”;
  • não existe fato mais “essencialmente” político que uma epidemia;
  • sua única tia bolsonarista do WhatsApp é mais um de seus termômetros para avaliar o aspecto político de toda a campanha de Bolsonaro contra a vacina: ela está esperando loucamente ser vacinada.

E como pesquisador de doenças cardiovasculares, alerta: o SARS-COV-2 está matando hoje jovens nos Estados Unidos, especialmente esportistas, de miocardite. Já naqueles adultos com histórico de infarto que enfrentam a covid, o patógeno destrói em duas horas o trabalho que é feito pelos médicos em 10 anos de controle do coração doente.

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